Descrição de chapéu Cabeça de Adolescente

Ansiedade está entre os transtornos mais comuns na adolescência

Segundo Organização Mundial da Saúde, metade dos problemas mentais começa aos 14 anos

São Paulo

Flávia, 16, estuda em um colégio de elite num bairro nobre de São Paulo. Duas vezes por semana tem sessões com um terapeuta e toma dois comprimidos por dia para conter os sintomas de ansiedade e depressão.

A mãe dela atribui os problemas a uma combinação de pressão para acompanhar o nível de excelência escolar, dificuldades nos primeiros contatos afetivos e um caso de assédio sexual envolvendo alunas e um professor na escola em que ela estudava antes.

Na zona norte da cidade, Juliana, 16, frequenta um colégio público e também sofre de ansiedade. O problema surgiu quando ela conseguiu seu primeiro emprego, em uma empresa de telemarketing.
jornada excessiva provocava dores no peito, mal-estar e vontade de chorar, que se transformaram, com o tempo, em um transtorno. 

Ilustração em preto e branco de um grupo de jovens. A cabeça desses jovens está demarcada com um tom esverdeado
Especialistas apontam como causas fatores como pressão escolar, bullying, violência, falta de aceitação da orientação sexual, problemas familiares e até a necessidade de aceitação pelos pares - Ilustração: Estela May

Flávia e Juliana são nomes fictícios, assim como todos os usados para proteger os menores de idade entrevistados para este especial. Mas as histórias são reais e muito comuns entre os adolescentes.

Essa geração que cresceu pós-ditadura, sem inflação e com acesso ao mundo pela internet lida com outras dificuldades que estão levando a um aumento principalmente nos casos de ansiedade.

“O mundo está mais corrido, mais competitivo, a expectativa sobre os adolescentes é maior, e ao mesmo tempo, o futuro é nebuloso”, afirma o psiquiatra Antônio Teixeira Júnior, professor do Instituto de Ensino e Pesquisa da Santa Casa de Belo Horizonte.

Edson Saggese, psiquiatra do Instituto de Psiquiatra da UFRJ, diz que a própria indefinição do período caracterizado como adolescência é um desafio com o qual a sociedade ainda não consegue lidar. 

“Você é adulto porque casou? Porque teve a primeira relação sexual? Porque trabalha? A indeterminação da adolescência tem repercussões na vida psíquica”, explica. 

O fenômeno não é restrito ao Brasil. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), metade das doenças mentais diagnosticadas no mundo todo começa aos 14 anos. A entidade estima que um em cada cinco adolescentes enfrente algum transtorno nessa fase da vida. 

Nos EUA, uma pesquisa publicada no Journal of Developmental and Behavioral Pediatrics, no ano passado, apontou um aumento de 20% nos diagnósticos de ansiedade entre 6 e 17 anos entre 2007 e 2012. 

No Brasil, há poucos estudos. O primeiro, feito pelo Instituto Nacional de Psiquiatria do Desenvolvimento para Crianças e Adolescentes em 2015, apontou que 13% das pessoas entre 6 e 16 anos tinham transtornos mentais, sendo os mais prevalentes a ansiedade (7%), o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (4,5%) e a depressão (0,5%).

Segundo os pesquisadores, o momento atual é interessante para rastrear e analisar esses dados, já que a população mundial de adolescentes nunca foi tão grande: são 1,2 bilhão de pessoas entre 10 e 19 anos.
O número tende a crescer até 2030, principalmente em função de países na África e na Ásia, de acordo com o Unicef. 

O Brasil, que tem cerca de 31 milhões de crianças e adolescentes, segundo projeção do IBGE para 2019, já está fora desse grupo em crescimento.

A reportagem da Folha ouviu 25 especialistas, de diferentes estados do país, e eles apontaram uma percepção no aumento de adolescentes com transtornos mentais. A ansiedade, segundo eles, é o problema mais comum.

O suicídio também está crescendo entre os jovens —foram quase 4.900 mortes de 2011 a 2016 só no Brasil, segundo o Ministério da Saúde.

Os médicos afirmam que os transtornos não têm relações simples de causa e consequência, mas estão ligados a fatores como violência, abuso sexual, bullying, pressão escolar, falta de aceitação da orientação sexual, problemas familiares e até a necessidade de ser aceito pelos pares na vida real e nas redes sociais.

Isso porque a sensação de pertencimento é fundamental para a autoafirmação e o desenvolvimento emocional.

“Uma coisa é o adolescente ir a uma festa: ele é o primeiro a chegar e o último a sair, para garantir que não falem dele [depois que for embora]. Com a mídia social, isso fica impossível”, explica Sandra Scivoletto, psiquiatra do ambulatório de adolescentes do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP. 

“O adolescente não tem ainda a experiência que faz com que ele tome as melhores decisões, e o bullying pode ser potencializado nas redes sociais”, completa Sylvia Vitalle, chefe do setor de Medicina do Adolescente da Unifesp. 

De acordo com Fernanda Serpeloni, pesquisadora da Fiocruz, a violência (incluindo ameaças e humilhações), que está associada a quadros de depressão e ansiedade, é considerada “um problema de saúde pública”.

“É um dos maiores estressores a que as pessoas estão expostas. O ser humano é resiliente, mas dentro de certos limites”, diz Serpeloni.

Lucas Lacerda, Manuela Ferraro e Yala Sena
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