Descrição de chapéu Cabeça de Adolescente

'A gente nunca pode desprezar a dor do outro', diz jovem com depressão

Desde os 14 anos, ele trabalha na feira e sustenta a família de cinco pessoas

Daniela Arcanjo Renata Galf
São Paulo

​​​“Eu acho que o sentimento de melancolia começou a ser presente a partir dos meus 12 anos, quando eu comecei a trabalhar.” O primeiro emprego de Lucas foi com a sua mãe em Suzano, onde mora. “Ela comprava mandioca, verduras, colocava no carrinho e a gente ia oferecendo de porta em porta.”

Enquanto andava e trabalhava com a mãe, ele percebia como sua vida tinha mudado com a nova rotina. “Conforme eu passava pelas ruas, eu via o pessoal brincando. Eu sentia aquela falta de ficar jogando bola, empinando pipa, essas coisas todas de criança mesmo.” Antes, ele passava o dia com os amigos na rua depois de ir para a escola.

Aos 14 anos, já sustentava a família de cinco pessoas (ele tem três irmãs). Lucas lembra que a mãe parou de trabalhar porque estava deprimida e não conseguia fazer as tarefas cotidianas. “Eu tinha que me manter firme, cuidar das crianças, fazer a coisa toda acontecer."

Ilustração em preto e branco de um rosto, com o cérebro aparente. Dentro do cérebro há vários contornos de corpos, nem sempre completos
Sem apoio institucional, Lucas começou um projeto em que vai às escolas para conversar com alunos sobre saúde mental, depressão e orientação sexual - Ilustração: Estela May

Nessa época, começou a trabalhar com o tio na feira, onde está ainda hoje, aos 19 anos. A jornada de Lucas começa às 5h e se estende até as 15h, quatro vezes por semana. Por dia, ele recebe R$ 60.

Quando tem crises de depressão, não consegue sair de casa. Trabalhar se torna um desafio. “Às vezes você não consegue nem falar para alguém que precisa conversar.”

Ouça o depoimento de Lucas:

A gota d’água para Lucas foi quando seu melhor amigo cometeu suicídio, sem ter dado sinais. “Eu pensei: ‘por que assim, de repente? Do nada?’” Depois disso, passou por um período em que não conseguia trabalhar, comer ou dormir. Passava mal com frequência e chegou a desenvolver uma úlcera. “Parei para pensar no que eu ia fazer dali em diante. Era como se eu tivesse perdido um irmão.”

Naquela época, Lucas fazia terapia e tomava remédios para depressão. Foi parar no hospital quando tentou se matar pela primeira vez. Sobreviveu, mas não se recuperou. “Continuei recluso, me excluindo da sociedade, ficava sozinho.” Explica que sentia vontade de viver e sair com os amigos, mas não via como.

“Aquela sensação de impotência, de tristeza, me colocava numa situação que eu não tinha outro jeito de acabar com aquela dor. Por isso optei pelo suicídio na época. Depois da primeira tentativa, Lucas decidiu tentar uma segunda vez, mas um amigo o dissuadiu do plano.

“É como se eu estivesse em uma estrada, num sol de meio-dia muito quente, tivesse uma corrida, e eu estivesse sentado no chão vendo todo mundo correndo e me deixando para trás. Essa sensação de você querer correr uma maratona e ao mesmo tempo querer ficar sentado. Você se sente incapaz de fazer alguma coisa.”

As comparações que os outros fazem quando ele relata estar em sofrimento o incomodam. “A gente nunca pode desprezar a dor do outro, porque cada um sente uma dor, cada um tem uma realidade diferente, cada um tem uma forma diferente de lidar com uma situação.”

Lucas resolveu ajudar outros adolescentes como ele. Sem apoio institucional, começou um projeto em que vai às escolas para conversar com alunos sobre saúde mental, depressão e orientação sexual. O Projeto Megê, como batizou, também facilita o acesso de jovens a terapias mais acessíveis por meio de parcerias com psicólogos e faculdades. Todo mês, separa R$ 200 da sua renda para manter a iniciativa.

Lucas continua a terapia, mas decidiu interromper o uso dos remédios devido aos efeitos colaterais. Apesar de ainda ter dias difíceis, diz ter encontrado alguns motivos para seguir em frente. “Você tem que achar algo que realmente te faça sentir vontade de viver. Eu, por exemplo, achei vontade de viver nas minhas amizades, nos amores vividos e no projeto.”

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