Descrição de chapéu Cabeça de Adolescente

'Não me sentia cansada, mas estava', lembra atleta adolescente que pensou em automutilação

Jovem nadadora competiu dos oito aos 17 anos e sofreu com rotina exaustiva

Daniela Arcanjo Filipe Andretta
São Paulo

​Depois de um acidente na piscina infantil, quando outra criança furou a boia que envolvia um dos braços de Fernanda (nome fictício), ela foi inscrita na escolinha de natação de um tradicional clube paulistano. Tinha quatro anos —aos oito, participou da primeira competição.

Em quase uma década de competições, a adolescente acumulou bons resultados: foram mais de 20 finais de campeonato brasileiro, um ouro no regional sudeste e algumas medalhas no paulista. Mas esse ciclo se fechou. Para continuar os treinos, Fernanda precisaria trocar de clube, sair da casa dos pais e mudar para outra escola.

“Desde o ano passado eu pensava em parar. Já estava meio desmotivada e senti que esses sacrifícios não valiam tanto a pena.” Ela deixou a natação em janeiro de 2019, quando começou seu último ano no ensino médio.

Desenho sem preenchimento de um menino sentado com os braços sobre os joelhos. No lugar da cabeça, há o desenho de um sol.
Conciliar estudos com a rotina exaustiva de treinamentos afetou a saúde de Fernanda: “Olhando hoje, vejo que minha cabeça não estava saudável" - Ilustração: Estela May

A rotina de atleta afetou Fernanda. Eu ficava muito estressada por nada.” Mesmo depois de treinar, ir ao colégio e estudar em casa até meia-noite, ela não conseguia dormir com facilidade, principalmente em semanas de provas. “Não me sentia cansada, mas estava. Percebi que isso era um problema.”

Suas três principais obrigações até o ano passado eram a natação, a escola e as aulas de inglês. Os treinos se repetiam de segunda a sexta na parte da tarde e aos sábados de manhã. Às segundas e quartas, o almoço era no carro do pai, enquanto ele a levava à estação de metrô. “Chegava em casa às 20h30. Nesses dias, eu só tinha a noite para pensar em estudar.” Às terças e sextas, o dia começava às 4h —uma hora depois ela tinha que estar na água. À tarde, depois da aula, voltava para o clube.

Ouça o depoimento de Fernanda:

Desde pequena, Fernanda lidava com muitas expectativas. Aos dez anos, uma competição no clube em que nadava mexeu com ela. “Eu pensei: ‘Nossa, eu tenho que ir bem, porque o pessoal vai estar aqui vendo’, e chorei de nervoso.” Ela sofria especialmente nas provas de 400 metros medley, mais longas. “Teve um campeonato paulista, em 2017, que tinha essa modalidade. Antes de entrar na prova, comecei a chorar desesperadamente. Minha psicóloga e uma amiga falaram para eu só nadar e não me preocupar com posição.”

Essa modalidade foi o principal motivo pelo qual Fernanda começou a frequentar a psicóloga do clube. A adolescente nunca foi diagnosticada com ansiedade ou depressão, mas, para o seu pai, o nível de estresse dela passou do normal. No ano passado, ela pensou em se cortar. “Nessa minha escola nova, algumas meninas se automutilavam. Quando estava nessas épocas em que tudo dava errado, eu pensava: ‘Nossa, será que eu ficaria melhor se fizesse isso?’ Mas só foi na cabeça, nunca cheguei a testar.”

Por recomendação da psicóloga, ela passou a escrever notas no celular sobre o que sentia. “Hoje eu olho e fico até assustada vendo como estava triste.” Fernanda lembra que desejava uma rotina mais simples. Em alguns momentos, invejava colegas da escola que podiam sair depois das aulas.

Ela não se arrepende de ter parado com os treinos, mas está se adaptando à nova rotina. “Foi um choque, porque eu fazia muita coisa e parei com tudo, praticamente.” Ela já nota melhoras no humor e no sono. Mesmo assim, tem planos de voltar a fazer terapia ainda neste ano. “A gente nunca está muito bem totalmente.”

Se pudesse dar um conselho a adolescentes que enfrentam uma rotina conturbada, Fernanda recomendaria equilibrar as atividades para preservar a saúde. “Tentar arranjar um tempo para esquecer as coisas, sabe? Quando comecei a sair, ter mais tempo com os meus amigos, vi que melhorou muito. Você não fica só na coisa séria, meio que se maltratando.”

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