Descrição de chapéu Cabeça de Adolescente

'Só me cortava para aliviar a dor', diz jovem que se automutilava

Racismo foi um dos motivos que levaram a adolescente a se cortar

Daniela Arcanjo Renata Galf
São Paulo

"Eu me cortava nuns lugares que não eram tão profundos, só me cortava mesmo para aliviar um pouco a dor, sabe?" Para Sofia (nome fictício), 15, o banho era o momento de desabafo. Aos 13 anos, ela começou a se cortar embaixo do chuveiro com a lâmina de barbear do pai. Não contou para ninguém, mas a mãe, que estudava enfermagem na época, desconfiou. “Teve um dia que minha mãe estava contando de uma menina que se cortava muito. Ela falou que ela tinha que tomar cuidado, porque, se pegasse uma veia, podia morrer.”

Na internet, Sofia pesquisava em que parte do braço poderia se cortar sem colocar a vida em risco. “Eu não queria morrer, mas também queria.” O amor da família era o que a mantinha viva. “Meu ‘psicológico’ ficava bem confuso. Quando eu via que estava muito triste e queria morrer, eu olhava para os meus pais, meus irmãos. Olhava como eles me tratavam, porque eu sou o xodó do meu pai, da minha mãe.”

Ilustração em preto e branco do rosto e dos ombros de uma pessoa andrógena. A pessoa olha para baixo e raios saem da sua cabeça
De 2011 a 2016, foram notificados ao Ministério da Saúde, por serviços de saúde públicos e privados, mais de 41 mil casos de automutilação por adolescentes de 10 a 19 anos - Ilustração: Estela May

Um dia diz que entrou no quarto dos pais e começou a chorar. “Eu estou mal, não estou aguentando mais, estou bem depressiva”. A mãe perguntou se a filha queria ir a um psicólogo, mas Sofia não quis e sua mãe aceitou. “Não me sentia à vontade para conversar com uma pessoa estranha, fazendo um monte de pergunta.”

Até que chegou o dia em que a menina não queria ir para a escola. “Estou cansada, é todo dia a mesma coisa, não consigo ficar bem”, disse à mãe. Filha de mãe e pai negros, Sofia era a única menina negra retinta de sua escola e passou duas semanas em casa depois de ter sido chamada, entre outras coisas, de “negrinha da cracolândia”.

Ouça o depoimento de Sofia:

“Comecei a chorar na hora, fiquei congelada, encolhida, até meu pai chegar para me buscar.” É assim que ela se lembra do primeiro dia em que foi com os cabelos trançados para a escola. “Ninguém estava me reconhecendo, a menina chegou em mim e falou: ‘Você é a Sofia?’. Eles me falavam que minha trança estava suja, que eu tinha que fazer de novo.”

Mais tarde, ela resolveu tirar as tranças e assumir o cabelo black power. “Foi a pior coisa que eu fiz. Comecei a tirar foto e postei no Facebook. Eu estava me sentindo bem, colocava laço no cabelo. Aí começaram as piadinhas: a neguinha do cabelo duro. Nossa, me machucou muito.”

Já nas primeiras vezes, ela conta que a mãe foi à escola comunicar à direção. “Eles não fizeram nada, e ficou por isso mesmo.” Os casos continuaram. A mãe chegou também a registrar um boletim de ocorrência depois de um dos episódios. “Até hoje, esse B.O. não deu em nada”, conta Sofia.

Naquela época, ela escrevia o que sentia. “Eu falei pro diário que eu queria ser branca, de cabelo liso e não sofrer mais nada, ser uma pessoa feliz.”

Sofia hoje não se corta mais. Ela diz que passou a conversar mais com a mãe e amigas. “Tenho pessoas confiáveis para desabafar e eu vi que não faz sentido eu me cortar, sendo que a dor vai voltar e vou ficar com a cicatriz para sempre.” Para adolescentes que estão passando pelo mesmo que ela viveu, recomenda: “Conte para uma pessoa”.

De 2011 a 2016, foram notificados ao Ministério da Saúde, por serviços de saúde públicos e privados, mais de 41 mil casos de automutilação por adolescentes de 10 a 19 anos, correspondendo a 24% dos casos registrados no período no país.

Desde o ano passado, Sofia faz parte de um grupo de adolescentes das periferias de São Paulo que a ajudou a melhorar a autoestima. “Tem branca, tem negra, tem preta de cabelo liso, branca de cabelo afro, careca, somos um grupo de diversidade.” Entre os assuntos discutidos nos encontros, está a saúde mental. “Esse coletivo me ajudou bastante, porque vi que não estava sozinha, tinha meninas com histórias parecidas com a minha.”

“Gosto bastante quando vejo que as pessoas se importam comigo”, diz Sofia, que gostaria que a escola se preocupasse mais com os alunos, desse apoio e chamasse pessoas que já passaram por problemas psicológicos ou por racismo para falar com os estudantes. “Eu queria que a escola fizesse as coisas não só no dia do negro. Todos os dias.”​

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