Médico francês questiona em livro o aumento de diagnósticos de TDAH

Autor coordena o movimento na Europa que critica o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais

Marco Antonio Coutinho Jorge

Em seu novo livro “Todos hiperativos? A inacreditável epidemia dos transtornos de atenção”, que acaba de ser traduzido para o português, o psiquiatra e psicanalista francês Patrick Landman volta a sua atenção para um dos maiores motivos de consultas em neuropediatria e psiquiatria infantil: o transtorno do déficit de atenção (TDA) sem ou com hiperatividade (TDAH).

Landman é o coordenador na Europa do movimento “Stop DSM!”, que critica o livro de referência da psiquiatria norte-americana, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.

Muitos especialistas consideram surpreendente a epidemia de TDAH produzida nas últimas décadas, sobretudo nos Estados Unidos, e que se propagou enormemente no Brasil e em outros países do mundo.

Nos EUA, como relata Allen Frances no prefácio, a recorrência a esse diagnóstico aumentou de forma exponencial em três décadas, alcançando hoje 11% das crianças entre 4 e 17 anos, das quais mais da metade é tratada com medicamentos.

A que atribuir isso? Como entender esse fenômeno de expansão súbita de um quadro clínico?

Nos EUA, 11% das crianças entre 4 e 17 anos apresentam transtorno do déficit de atenção com hiperatividade. Do total, mais da metade é tratada com medicamentos
Nos EUA, 11% das crianças entre 4 e 17 anos apresentam transtorno do déficit de atenção com hiperatividade. Do total, mais da metade é tratada com medicamentos - Emmanuel Huybrechts/Wikimedia Commons

Landman percorre as várias facetas do problema, a começar pelos engodos que podem ocorrer no próprio estabelecimento do diagnóstico, uma vez que a quinta e mais recente versão do DSM define esse transtorno por meio de dois fatores díspares: déficit de atenção e comportamento perturbador. Assim, diz Landman, “o que parece ser prioritário para o DSM não é a atenção, e sim as perturbações do comportamento a que ela é assimilada”.

Nos anos 1980, o DSM-III produziu equívoco semelhante com a disseminação do diagnóstico de bipolaridade, ao inventar um pseudociclo do humor sem base científica devidamente estabelecida, fazendo com que o raríssimo quadro de psicose maníaco-depressiva, pertencente à psiquiatria clássica, se banalizasse a ponto de todas as pessoas, sem exceção, poderem ser consideradas bipolares.

Não por acaso, o autodiagnóstico buscado hoje com frequência cada vez maior no Dr. Google tem sido renovada fonte de novos problemas.

Patrick Landman chama igualmente a atenção para os erros inerentes à crença na etiologia biológica do TDAH. Já foram propostas várias hipóteses para explicar o que causa esse transtorno, mas até o momento nenhuma delas obteve comprovação científica. Por exemplo, a ideia de que ele é causado por uma anomalia cerebral não dispõe de embasamento teórico.

Como sublinha Landman, “o TDAH participa dessa tendência reducionista, já que, desde o início e sem nenhuma evidência, seus defensores consideraram que as crianças hiperativas apresentavam uma lesão cerebral qualificada de mínima. Desde então, essa tese se tornou um credo e se sustenta em correlações”.

Sem deixar de reconhecer as dificuldades de tratamento que muitos casos apresentam na clínica com crianças, Landman lastima que os “defensores” do TDAH não considerem os fatores psíquicos e sociais para a avaliação do quadro de seus pacientes. Desconhecer os fatores subjetivos tem sido a marca da medicina “baseada em evidências”, mas é fundamental insistir junto aos médicos e psiquiatras que as desordens mentais e comportamentais, na grande maioria dos casos, não se devem exclusivamente a distúrbios orgânicos.

Após fazer um levantamento minucioso e detalhado das diversas pesquisas que têm sido feitas sobre esse problema, Landman conclui que, para a psicanálise, o TDAH é um sintoma e não uma doença, porque o contexto familiar e social em que uma criança ou um adolescente apresenta sintomas de hiperatividade e déficit de atenção pode ser bastante significativo e revelar um quadro reativo a fatores externos, e não a configuração de uma patologia individual.

Como o psiquiatra e psicanalista Mário Eduardo Costa Pereira, professor da Escola de Medicina da Unicamp, tem enfatizado em seus trabalhos, o sujeito é o cerne de toda psicopatologia. As manifestações sintomáticas de uma criança não podem ser abordadas de modo isolado, como se ela fosse um organismo sem subjetividade. Em vez disso, a vitalidade da criança e do adolescente, refletida na sua maneira de estar no mundo, tem vínculos profundos e altamente instáveis com as pessoas e o meio à sua volta. Levar em conta os elementos que circundam a criança em cada momento de seu desenvolvimento é algo de que a psiquiatria não deve continuar a abrir mão.

O livro de Patrick Landman, portanto, traz em seu cerne uma denúncia do uso sistemático e muitas vezes continuado – leia-se, ininterrupto – que vem sendo feito da substância metilfenidato, presente em medicamentos como Ritalina, no tratamento de crianças, adolescentes e, agora também, de adultos diagnosticados com TDAH.

Não por acaso, a ênfase na estrita causalidade orgânica favorece a crença no tratamento psicofarmacológico e no uso abusivo do metilfenidato, sabendo-se hoje que o papel desempenhado pelos laboratórios farmacêuticos na disseminação dessa crença não é pequeno. Eles financiam estudos que acabam propagando avaliações tendenciosas, ou seja, favorecem a seleção dos resultados obtidos e dificultam a publicação daqueles considerados negativos.

A disseminação dos poderes mágicos atribuídos aos medicamentos junto à população é grande e os efeitos do contágio e da sugestão desses poderes, bastante conhecidos pela psicanálise, têm se mostrado cada vez mais hegemônicos, sobretudo nos Estados Unidos, único país do mundo em que os remédios têm espaço para propaganda na televisão. Nesses termos, não é exagero concluir, como faz Landman, que na psiquiatria orientada pelo DSM inventam-se doenças para, em seguida, aparecerem fórmulas medicamentosas supostamente aptas a curá-las.

Marco Antonio Coutinho Jorge é psiquiatra, psicanalista, professor associado do Instituto de Psicologia da UERJ e autor dos livros “Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan”

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