Descrição de chapéu Coronavírus

Pandemia do novo coronavírus gera misto de pânico e medo positivo

Preocupação ajuda a redobrar cuidados, mas é preciso manter mente sob controle

São Paulo

Natália Salles, 25, é estudante de farmácia e tem um filho de seis anos, André. Todos os dias, quando chega em casa da faculdade, ela não encosta nele até lavar as mãos por medo de ter contraído o novo coronavírus e infectar o menino. Ela também pede a André que não divida sua garrafinha de água na escola e que não ponha a mãos no rosto e na boca antes de lavá-las muito bem.

As roupas e a bolsa que Natália usa ao longo do dia são “isoladas” em outro cômodo, longe do alcance do filho. O celular e as chaves também não escapam do ritual de limpeza e são desinfetados com álcool. A jovem, que mora em São Paulo —cidade com maior número de casos de infecção confirmados —tem ido ao supermercado com alguma regularidade e sempre tem álcool em gel ao alcance da mão.

O medo tomou conta do planeta. Shows, feiras, eventos esportivos, congressos, passeatas, aulas e concursos foram cancelados, empresas mudaram suas rotinas, as bolsas de valores despencaram.

Mas o medo, a princípio, não é ruim. De acordo com Fátima Vasconcellos, diretora da Associação Brasileira de Psiquiatria, o sentimento é positivo, nesse caso, porque ajuda as pessoas a redobrarem a atenção às práticas de prevenção contra o coronavírus.

“Na vida, nós passamos por alguns riscos, e o medo e a ansiedade são sinais de alerta para eventuais riscos. Temos que avaliar quão reais eles são, mas não podemos deixar as coisas tomarem proporções maiores do que realmente têm”, diz.

Para o jornalista Danilo Romeiro, 33, que mora no Brooklyn, em Nova York (EUA), o coronavírus o fez cancelar a visita à família e estocar comida. “A sugestão de suspender minha viagem veio do meu pai, que é médico. Eu estava indo para ver os meus pais e os meus avós. Mas e se eu me contaminar e transmitir o coronavírus para eles?”, diz. O jornalista está trabalhando de casa desde a última terça (10) e já adquiriu comida em lata, como sopas e feijões, alimentos congelados e arroz.

Segundo ele, a decisão de estocar comida foi tomada, em parte, para que ele não precisasse sair de casa e se contaminar, mas também por medo de faltar produtos nos supermercados. “A ideia é sair de casa o mínimo possível. Todo mundo na rua agora está indo ou voltando do mercado”, explica. “Aqui o clima está uma mistura de pânico com ‘será que estamos exagerando’?”, observa.

A esposa de Danilo, que trabalha com pesquisa em saúde pública, estava em Moçambique e volta para casa na próxima semana, onde passará pelo menos duas semanas em isolamento após orientação do governo.

Vasconcellos afirma que é comum que em situações como a da pandemia do novo coronavírus, ou de qualquer outra doença, que as pessoas passem a se preocupar com diversas outras enfermidades.

Segundo ela, isso acontece porque a possibilidade de adoecer nos lembra que também podemos morrer.

Após a última epidemia de coronavírus, em que cerca de 800 pessoas morreram pela Sars (síndrome respiratória aguda grave), 42% dos sobreviventes haviam desenvolvido algum transtorno mental, a maioria transtorno de estresse pós-traumático e depressão, segundo um estudo publicado em 2014 na revista especializada East Asian Arch Psychiatry.

O momento ideal para procurar ajuda de um psicólogo ou psiquiatra, segundo Vasconcellos, é quando a angústia gerada pela ansiedade passa a se tornar incapacitante, causando sofrimento, atrapalhando o sono e interferindo nos relacionamentos.

O medo em excesso pode causar crises de ansiedade e até ataques de pânico. A dica para lidar com esses momentos é respirar e expirar de forma profunda. A respiração pausada e lenta ajuda a manter a circulação de oxigênio no corpo e no cérebro.

Fazer atividade física ou mesmo ler um livro também pode ajudar a controlar a ansiedade ao longo do dia, mas não há uma fórmula que valha igualmente para todos, segundo Christian Dunker, psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da USP.

“A experiência da leitura pode ser bastante saudável, porque a leitura tem um processo de tomar a atenção e tirar a pessoa da sua realidade, dependendo, claro, do tipo de leitura. A leitura [nestes casos] é chamada biblioterapia. Há outras pessoas, porém, que se acalmam andando, fazendo exercícios, ouvindo música ou meditando”, afirma.

O segredo, de acordo com Dunker, é conhecer seu próprio corpo e mente para aprender a acalmar a si mesmo.

“Imagine que está no mar e vem uma onda em sua direção. Essa onda, quando chega em você, te faz perder o chão, mas quando a onda passar, você voltará a encostar no solo. Algumas ondas são mais longas, outras menos, a mesma coisa acontece com a ansiedade. Vai passar.”

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