Descrição de chapéu Coronavírus

Em ritmos distintos, países da Europa adotam ações parecidas contra o vírus

Diferenças demográficas e de estrutura ajudam a entender evolução do combate à Covid-19

Bruxelas

Na Europa, o primeiro teste positivo para o novo coronavírus apareceu na França, em 25 de janeiro, quando a China já colocava em quarentena 36 milhões de pessoas na região de Wuhan (onde o surto começou, no fim de 2019).

Ainda era cedo para falar em emergência de saúde, segundo a Organização Mundial de Saúde: havia 600 casos confirmados no mundo, a maioria na China, e 18 mortos.

Passaram-se 44 dias desde o primeiro doente até que o governo francês anunciasse uma restrição: em 9 de março, proibiu eventos com mais de mil pessoas. Naquele dia, a vizinha Itália, país mais atingido pela epidemia na Europa, entrava em quarentena total.

Os italianos ainda estavam longe de registrar o maior número de mortos do mundo (o que aconteceu dez dias depois), mas o país proibiu viagens e mandou fechar lojas, restaurantes e escolas.

Dois dias depois, Polônia e Grécia, ainda sem nenhuma morte, suspenderam aulas, e a medida se alastrou no dia 12 por Turquia, Lituânia, Moldávia, Macedônia, Malta, Irlanda, Portugal, Bélgica, Áustria e França (então a única desses dez países com mortes na casa das dezenas).

Só quatro dias depois, com cerca de 500 mortes, a Espanha, sempre entre os mais afetados, parou o ensino; o Reino Unido, com quase 200 mortos, suspendeu aulas na segunda (20), e a Suécia encerrou a semana como o único país europeu a não obrigar suas escolas a parar, embora tenha recomendado a medida.

No país nórdico, as mortes eram 11 na sexta, mais que o dobro das 5 registradas na Polônia, um dos primeiros a parar.

A mesma discrepância entre evolução da doença e reação do governo acontece em relação a bares, restaurantes, fechamento de fronteiras, proibição de voos ou restrição a passeios. E há pelo menos nove motivos para isso.

1. A capacidade de atendimento
Trata-se de calcular quantas pessoas podem desenvolver casos graves da doença, para descobrir se os hospitais do país estão preparados para atendê-los. Os dois fatores (doentes em estado crítico e infraestrutura de saúde) variam de país para país.

Na Alemanha, que tem 30 leitos de UTI para cada 100 mil habitantes, 25 mil aparelhos de respiração e mais 10 mil encomendados de um fornecedor nacional, a pressão sobre o sistema de saúde é menor que em Portugal, com 5 leitos/100 mil habitantes e sem indústria forte que responda rapidamente a uma crise.

2. O risco da população
O potencial de doentes graves depende de vários itens. A composição demográfica é fundamental, já que maiores de 70 anos são mais suscetíveis. Com 16,7% da população nessa faixa etária, a Polônia pode ter mais motivos para se preocupar que a Irlanda, com 9,8%.

Mas a transmissão do vírus depende da proximidade entre as pessoas a da frequência de encontro entre elas. Com 83% da população em zonas urbanas e uma capital de 8,9 milhões de habitantes em intenso movimento, o Reino Unido favorece muito mais o contágio que a Eslovênia, onde 54,5% da população vive em zonas rurais.

A Suécia, com 25 habitantes por quilômetro quadrado, pode ter mais facilidade para manter medidas brandas, como vem fazendo, enquanto a vizinha Dinamarca, com 137 habitantes/km², adota uma postura mais rígida.

3. O comportamento do vírus
Entra aqui em cena a principal lacuna para quem tenta tomar uma decisão de combate a essa epidemia: como a doença é nova, não há dados precisos sobre a porcentagem dos que revelam sintomas, a probabilidade de transmissão, o risco de um doente evoluir para um quadro grave, a possibilidade de cura nesses casos e a parcela dos que já ficaram imunes.

São dados que dependem fundamentalmente de testes, e as políticas de testagem têm sido diferentes nos países mais afetados, argumenta o economista Andreas Backhaus, que analisou dados da Itália e da Coreia do Sul.

No país asiático, 10,1% da população tem mais de 70 anos, e 8,3% dos casos confirmados foram nessa faixa etária, enquanto na Itália esses idosos são 17,3% da população, mas 41,3% dos casos detectados.

A diferença não ocorre por maior vulnerabilidade dos idosos italianos, mas porque a Coreia do Sul adotou um programa intensivo de testes em toda a população, enquanto a Itália priorizou os casos com sintomas.

4. A pressão dos fatos
Para o professor de Harvard Marc Lipstich, porém, não são necessários números exatos para chegar à “deprimente conclusão de que há apenas duas opções: isolamento social prolongado ou sobrecarga do sistema de saúde”.

Lipstich defende que os governos precisam agir mesmo sem informação precisa, porque ainda levará tempo para produzir vacinas e tratamentos na escala necessária.

“No curto prazo, não há opção a não ser impor o distanciamento social e mobilizar esforço político, econômico e social para encontrar meios de combater a doença”, escreve.

5. O momento certo
Ainda que com dados imperfeitos e premissas questionáveis, cientistas que calcularam a evolução da pandemia e seus riscos defendem que o momento de apertar as restrições precisa ser bem dosado.

Se quarentenas forem aplicadas cedo demais, é possível que a população comece a relaxar os cuidados antes da hora; se o governo demorar muito, pode levar seu sistema de saúde ao caos, afirma o grupo de 30 cientistas do Imperial College que estudou o caso dos EUA e do Reino Unido.

O trabalho conclui que, nesses dois países, a única forma de evitar que doentes graves fiquem sem atendimento e morram é impor uma quarentena radical até que se descubram vacinas. Nessa estratégia, chamada de supressão, quanto mais cedo vier a ordem do governo, melhor.

Para eles, no entanto, é incerto que medidas radicais de supressão tenham efeito no longo prazo.
Outra opção estudada pelo Imperial College é a chamada mitigação, em que os infectados e suspeitos de contágio ficam em quarentena, idosos e pessoas de saúde mais frágil evitam o contato social e reduz-se o máximo possível a circulação das pessoas.

Nessa estratégia, segundo o coordenador do estudo, Neil Ferguson, o momento ideal de impor as medidas é três semanas antes do pico da epidemia.

6. A questão das escolas
Fechar ou não escolas depende também da estratégia de combate ao coronavírus, afirma Ferguson em seu estudo. Nem todos os países têm estrutura para fiscalizar e garantir a adesão a uma quarentena total e podem ter que optar por medidas de mitigação.

Nesse caso, os cálculos do Imperial College mostram que os cenários mais efetivos não são os que fecham escolas, porque a medida tem um efeito colateral danoso: atrapalha a vida dos profissionais de saúde que não têm com quem deixar os filhos.

É esse o argumento da Suécia, único país europeu que ainda não suspendeu totalmente as aulas.

7. A adesão voluntária
O grau de aperto imposto pelos governos depende também da resposta da população, como mostrou o caso da França.

No dia 9 de março, o governo proibiu eventos com mais de mil pessoas, mas defendeu a manutenção das aulas. Três dias depois, fechou as escolas, mas manteve abertos restaurantes e bares. Durou dois dias, e eles foram fechados, com a recomendação do governo para que os franceses evitassem sair de casa.

O pedido não foi cumprido, e no dia 16 o presidente Emmanuel Macron foi à TV dizer que o país estava em guerra e que o isolamento social seria imposto à força. A polícia aumentou a fiscalização e exigiu de quem circula nas ruas uma justificativa por escrito de que sair de casa é necessário.

Não satisfeito, o governo determinou na sexta que passeios de bicicleta estão proibidos, e caminhadas e corridas devem se limitar a 20 minutos por dia, numa distância de no máximo 1,2 km da residência.

Na Alemanha, este será um final de semana crucial, avisou a primeira-ministra, Angela Merkel: “Vamos monitorar o comportamento das pessoas. O sábado será decisivo, porque é um dia em que todos querem se encontrar. Mas terão que parar por agora, infelizmente. Se mantiverem os contatos, teremos que tomar novas medidas”.

8. O cálculo econômico
Trancar as pessoas em casa pode ajudar a reduzir a pressão sobre os hospitais no curto prazo, mas deixa sequelas profundas no longo prazo, não só na economia como na própria saúde, também
afetada pela recessão.

“Vamos dar todo o apoio às empresas, e precisamos que elas deem todo o apoio a seus empregados”, disse o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, ao anunciar na sexta que fecharia bares, restaurantes, casas noturnas, clubes e academias.

No mesmo comunicado em que obrigou essas casas a encerrar atividades por pelo menos um mês, Boris apresentou um plano de socorro para empregadores e empregados, que inclui pagar 80% dos trabalhadores em licença para que eles não sejam demitidos.

Por enquanto, o Reino Unido vai manter abertas todas as lojas, quando quase toda a Europa já fechou as que não vendem remédios ou comida. Mas Boris não descarta quarentena mais dura no futuro.

9. Os limites legais
Por fim, nem sempre basta a um chefe de governo conhecer os recursos do sistema de saúde, estimar os riscos da doença, escolher uma estratégia de ação, calcular custo-benefício e decidir o melhor momento de impor restrições.

Há países como Espanha, Suíça e Alemanha em que o governo federal não pode impor uma decisão nacional às unidades federativas, a não ser que decrete estado de emergência, como fizeram os espanhóis, ou espere que líderes estaduais se convençam, como fizeram os alemães.

O avanço das restrições

12 de fevereiro
Apesar da oposição do governo espanhol, maior feira de mobile do mundo é cancelada em Barcelona

22 de fevereiro
Ocorrem no norte da Itália primeiras mortes de coronavírus na Europa; cidades entram em quarentena

23 de fevereiro
Lombardia entra em quarentena

24 de fevereiro
UE pede a países membros que não adotem medidas extremas

25 de fevereiro
Suíça, Áustria, Croácia e Espanha, todos vizinhos da Itália, registram primeiros casos de coronavírus; países declaram que fronteiras ficarão abertas

26 de fevereiro
Reino Unido recomenda auto-isolamento de suspeitos

7 de março
Norte da Itália entra em quarentena

8 de março
Quarentena italiana atinge 15 províncias

9 de março
Toda a Itália entra em quarentena
Alemanha, França, Áustria e Romênia proíbem eventos com mais de mil pessoas
Polônia anuncia controle em fronteiras
Espanha fecha escolas em várias cidades
Áustria, Suíça, Eslovênia e Hungria proíbem entrada de italianos

11 de março
Alemanha diz que não fechará fronteiras
Polônia fecha escolas, proíbe eventos
Grécia fecha escolas
Bélgica e Espanha proíbem eventos com mais de mil pessoas e recomendam trabalho em casa

12 de março
Turquia, Lituânia, Modávia, Macedônia, Malta, Irlanda, Portugal, França, Bélgica e Áustria fecham escolas República Tcheca e Polônia entram em estado de emergência
França, Holanda e Noruega determinam auto-isolamento de casos suspeitos
Bélgica e Noruega fecham restaurantes; Bélgica fecha lojas
República Tcheca e Ucrânia fecham fronteiras

13 de março
Noruega, Dinamarca, Polônia e Chipre fecham fronteiras
Europa se torna epicentro da pandemia
Noruega, Malta e Bósnia decretam auto-isolamento de suspeitos
Espanha decreta estado de emergência

14 de março
França fecha bares, restaurantes e lojas não essenciais
Portugal e Rússia fecham fronteiras
Espanha anuncia quarentena a partir de 16/3 e fecha lojas e fronteiras

16 de março
União Europeia e zona Schengen fecham fronteiras
Macron diz que França está em guerra e determina isolamento social
Reino Unido determina auto-isolamento de idosos, proíbe eventos públicos e recomenda trabalho remoto

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