Descrição de chapéu Coronavírus

Ministério da Saúde planeja comprar mais exames de coronavírus e testar 1,1% da população

Plano continua sendo avaliar só pacientes com sintomas graves e parcela de suspeitas de gripe

Brasília

Com o aumento no número de casos do novo coronavírus, o Ministério da Saúde planeja adquirir mais testes para diagnóstico. Ao todo, serão 2,3 milhões de kits para análise da Covid-19, segundo dados anunciados nesta quinta-feira (19). Esse pacote tem a capacidade, portanto, de atender a cerca de 1,1% da população do país.

O plano do governo ainda é testar somente pacientes com quadro grave e uma parcela das amostras de pessoas com sintomas de gripe coletadas em unidades sentinelas. O ministério argumenta ser impossível avaliar toda a população.

“Nossa prioridade em relação aos testes é poder ter garantia para os casos graves e na rede de unidades sentinelas. Ninguém vai ser prejudicado pelo fato de não fazer o teste”, diz o secretário-executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo dos Reis.

“Para que ele serve: para identificar quem tem coronavírus e fazer isolamento. Mas já recomendamos que as pessoas que estejam sintomáticas façam isolamento, independentemente do teste.”

Até hoje, o ministério distribuiu cerca de 18 mil testes aos laboratórios centrais de todos os estados —aqueles que analisam amostras da rede pública e fazem a contraprova de laboratórios privados não habilitados. Desse total, cerca de 2.500 já foram usados no país.

Responsável pelo fornecimento para o Ministério da Saúde, o laboratório de Bio-Manguinhos, da Fiocruz, afirma que vai expandir a produção.

A importação de insumos, no entanto, é um dos desafios, diz Artur Roberto Couto, assessor da diretoria do laboratório e presidente da Alfob (Associação de Laboratórios Farmacêuticos Oficiais).

“A dificuldade de Bio-Manguinhos, por exemplo, não é nem pela capacidade, mas pelos próprios insumos, que vêm de fora. Hoje existe uma demanda muito grande, e não temos disponibilidade no tempo e na hora. Está chegando e estamos produzindo. Se conseguirmos mais insumos, é possível ainda aumentar”, diz.

“Quando o ministro coloca que tem que ser seletivo, é porque não dá para fazer testes para todo mundo por isso.”

Segundo ele, a produção no início do alerta para o coronavírus foi de 2.000 kits. Hoje, a capacidade já é de cerca de 30 mil kits por mês, e deve ser ampliada para até 200 mil.

O laboratório não informa de quanto deve ser o aumento no volume fabricado, mas confirma a possibilidade de atender o pedido federal de 1 milhão de kits até o fim do ano.

O ministério afirma que já adquiriu 150 mil kits da Fiocruz, ao custo de R$ 14 milhões, ou R$ 98 cada um. Destes, 29,3 mil já foram entregues, segundo o laboratório, mas apenas cerca de 17,9 mil foram distribuídos aos estados —cada kit atende até 22 pessoas.

“Há expectativa de redução desses valores para o ministério à medida que houver ganho de escala e saída da condição de emergência”, segundo Couto, que estima redução em até 20%.

Segundo o assessor, uma reunião entre laboratórios públicos para discutir a produção de testes aconteceria nesta quinta, mas foi cancelada pela dificuldade de circulação.

O governo vem sendo criticado pela decisão de não ofertar testes a todos os pacientes com suspeita de infecção.

O caso da Coreia do Sul é citado como um exemplo de política de ampla testagem, que resulta num baixo índice de óbitos. Os dados mais recentes mostram que 307 mil sul-coreanos já realizaram o teste —quase que 0,6% da população.

Na Itália, que ultrapassou a China no número de mortes, foram feitos 182 mil testes até o momento, ou seja, uma cobertura de 0,3% da população.

Nesses dois países, o surto da Covid-19 começou antes da identificação de casos no Brasil e o plano de testagem ainda está em ação.

O Ministério da Saúde considera a estratégia de comprar 2,3 milhões de testes adequada considerando as projeções.

“Alguém me perguntou: poderá ter um óbito que não vai ser identificado como coronavírus? Impossível. Se está em situação grave, a ponto de ir a óbito, é porque está no hospital, e se está no hospital, vai ter testes”, diz Gabbardo.

Testes rápidos dão resultado em até meia hora

O Ministério da Saúde diz avaliar a possibilidade de comprar testes rápidos de Covid-19 para oferta na rede. São testes que levam de 10 minutos a até 30 minutos para terem resultados —enquanto os atuais levam até quatro horas.

A Bio-Manguinhos já desenvolveu um modelo e se prepara para solicitar aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Oito produtos, de seis empresas diferentes, ganharam registro da agência na quarta-feira (18), aval necessário para que possam ser ofertados no mercado —no caso, a laboratórios, hospitais e governos.

A maioria dos produtos é importada ou será feita com matéria-prima de outros países, em especial Coreia do Sul, China e Estados Unidos.

A diferença dos testes usados hoje para esses é que o atual analisa amostras de muco e saliva, por meio de uma técnica chamada de RT-PCR, que verifica a presença de material genético do vírus.

Já os populares testes rápidos observam a presença de anticorpos e antígenos.

Entre os produtos aprovados, dois usam amostras de vias respiratórias, enquanto os demais usam gotas de sangue.

A gerente de produtos para diagnóstico in vitro da Anvisa, Marcella Abreu, diz que esses novos produtos devem ajudar profissionais de saúde na triagem de casos na rede de saúde, mas precisam ser aplicados com base em protocolos específicos devido a limitações naturais de alguns deles.

Nesse sentido, os testes laboratoriais feitos hoje são mais precisos —mas mais demorados. “São produtos que dependem da interpretação de um profissional”, diz.

“Esse tipo de teste [rápido] faz uma marcação de cor quando encontra o antígeno, que é uma partícula do vírus, ou anticorpos. O anticorpo é a primeira linha de defesa do organismo. Se a pessoa tem contato com o vírus, ela desenvolve anticorpos”, explica.

Mas todo tipo de teste tem limitação, reforça a gerente da Anvisa. O corpo leva um tempo para produzir anticorpos. “O cuidado é ou repetir depois de alguns dias ou que o profissional faça a interpretação associada aos sintomas”, diz.

Questionada sobre o preço estimado desses produtos, a Anvisa diz que o valor deve ser definido pelas empresas. Elas, porém, dizem prever uma redução de 50% a 70% em relação ao valor dos testes com o modelo de RT-PCR (cujo kit custa R$ 98).

Entre as que obtiveram registro, está a Biocon, que recebeu aval para oferta de um teste da empresa Wondfo, da China. A empresa vai importar a matéria-prima e finalizar a montagem no Brasil. O gerente técnico Marcelo Genelhu diz que ainda não há definição de preço, mas estima que seja até 50% mais barato que o modelo PCR.

A previsão inicial é importar até 200 mil kits para testes, mas a empresa diz que tem capacidade de estoque de até 1 milhão, se for necessário. O kit usa amostras de sangue.

Segundo o gerente, apesar da possibilidade de resultado negativo com baixo número de anticorpos —o primeiro tipo de anticorpo possível de ser detectado começa a aparecer só após 5 dias após o contágio, e o segundo, após o 10º dia—, a expectativa é que as pessoas procurem os postos após apresentação de sintomas, o que leva até quatro dias.

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