Para médico de Milão, vírus circula na Itália desde janeiro

País tem 34 mortes e 1.700 infectados, um dos maiores surtos fora da China

Milão

A crise do coronavírus foi deflagrada na Itália no dia 20 de fevereiro, quando foi confirmado o primeiro caso de contaminação interna, na cidade de Codogno (60 km de Milão), na região da Lombardia. No entanto, é muito provável que o vírus estivesse circulando no norte do país pelo menos desde a metade de janeiro, sem que tenha sido detectado pelo sistema de saúde.

É o que defende o médico Massimo Galli, 68, diretor do departamento de doenças infecciosas do hospital Luigi Sacco e professor da Universidade de Milão. “Penso que a penetração do vírus na chamada ‘zona vermelha’ do Lodigiano remonta a janeiro. Não posso ainda dizer se foi antes disso, mas não excluo essa hipótese”, afirmou à Folha.

“O número de doentes graves que chegaram ao mesmo tempo aos hospitais significa duas coisas: que o número dos infectados deve ser maior, porque a doença se desenvolve com quadros graves somente em uma minoria de pacientes, e que a doença deve ter se manifestado nesses pacientes ao menos dez dias antes, porque as manifestações pulmonares tendem a aparecer depois de uma dezena de dias ou mais após o surgimento dos sintomas”, relata o médico. “O período de incubação, a data de infecção nesses pacientes retrocede ainda mais, à segunda metade de janeiro.”

O coronavírus foi identificado na China na primeira semana de janeiro, após um surto de casos de pneumonia em Wuhan, em dezembro. Em seguida, se espalhou por outras cidades chinesas e países asiáticos.

Na Itália, o primeiro registro do vírus foi feito no dia 30 de janeiro, após dois turistas provenientes de Wuhan terem testado positivo em Roma. O casal havia desembarcado uma semana antes em Milão, no aeroporto de Malpensa, vindo de Pequim. Em seguida, viajou de ônibus e carro e parou por algumas cidades antes de chegar à capital italiana. Com sintomas de gripe, acionaram a emergência e foram levados ao hospital. Nos últimos dias, foram considerados curados.

Massimo Galli, médico e professor da Universidade de Milão, região onde se iniciou a epidemia na Itália - Divulgação/MeteoWeb

No mesmo dia 30, o primeiro-ministro Giuseppe Conte anunciou a interrupção do tráfego aéreo com a China. “Somos o primeiro país que adota uma medida cautelar desse gênero”, afirmou à época. “Estamos em condições de poder tranquilizar todos os cidadãos. A situação está absolutamente sob controle.”
Mas, segundo Galli, já era tarde. “Quando isso foi feito, o vírus já estava aqui.”

Segundo o médico, as atividades comerciais e as trocas com a China são mais frequentes no norte que no resto do país. “Mas toda a epidemia na Lombardia deve ter sido originada de uma única introdução e os casos no Vêneto [região onde está o segundo foco de contaminação] forem, como parece, satélites da epidemia lombarda. É uma coisa que poderia ter acontecido em qualquer outro lugar.”

Oficialmente, não há ligação entre o casal de turistas de Wuhan e os primeiros casos identificados na Lombardia e no Vêneto. As autoridades sanitárias ainda não sabem explicar como o paciente 1 foi contaminado, mesmo sem ter saído da área de Codogno.

Mas é evidente que os surtos no entorno da cidade, o principal foco de contaminação do país, estão relacionados a ele. Com sintomas severos de gripe, o homem de 38 anos foi dispensado do hospital, voltou para a casa e, pela segunda vez no pronto-socorro, ficou mais de 30 horas internado até ser submetido ao exame para coronavírus, em 20 de fevereiro. Nesse tempo, segundo o jornal Corriere della Sera, teve contato com parentes, amigos, outros pacientes e operadores médicos.

De acordo com o professor, não é possível afirmar que o hospital errou no diagnóstico tardio. “Quando o receberam, os protocolos vigentes não o identificaram como caso suspeito”, diz. Até então, somente quem tinha estado nas áreas de risco da China deveria ser submetido ao exame.

Prestes a completar dez dias, a crise do coronavírus na Itália já soma mais de 1.700 casos (até as 16h de domingo). Onze cidades continuam isoladas por barreiras vigiadas por policiais e, em várias outras, o governo tenta conter a aglomeração de pessoas.

A semana que começa nesta segunda (2) continuará sem atividades escolares e grandes eventos nas regiões da Lombardia, do Vêneto e da Emilia Romagna. A intenção é impedir ainda mais a difusão do vírus, que já sobrecarrega o sistema e os operadores de saúde do norte do país.

“Gostaria de dizer que [o coronavírus estará sob controle] em breve. Mas o fato é que eu não sei. Confio na eficácia das medidas de contenção tomadas”, afirma Galli, que é responsável pelo grupo de pesquisadores que isolou a cepa italiana do coronavírus.

“Não se trata obviamente de um vírus ‘italiano’, como alguns jornalistas chegaram a escrever, gerando confusão entre os menos atentos, mas apenas da cepa desse vírus que foi importada para a Itália. Dispor desses dados será útil seja para fins de pesquisa, seja para conhecer melhor a dinâmica da epidemia no país. Temos que lembrar que se trata de um vírus RNA, que pode variar rapidamente.”

Para ele, trata-se de um procedimento importante a ser feito. Cientistas do Brasil publicaram sequência do vírus do primeiro paciente infectado na última sexta-feira. O vírus era o mesmo que havia passado pela Alemanha e, possivelmente, pela Itália, já que o paciente esteve na região de Milão.

“Comparar as sequências do vírus ‘brasileiro’ com as do vírus ‘italiano’ poderá ser útil para acompanhar o percurso e o modo de penetração, se não forem já conhecidos”, afirma o cientista.

Quanto às chances de o Brasil ter uma epidemia menor ou atrasada por causa do clima, ele não se diz tão confiante.

“No verão europeu as pessoas ficam menos em lugares fechados e cheios, o que ajuda a reduzir a circulação de vírus transmitidos por via aérea. Mas no Brasil não sei que diferença isso pode fazer. Este é um vírus novo, ao qual ninguém está imune. Não acredito que a estação do ano faça muita diferença.”
 

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