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Carlos Takeshi Hotta

Hidroxicloroquina é exemplo do que ocorre quando a ideologia se intromete na ciência

Pressão pode gerar desenhos experimentais ruins, resultados duvidosos e a perda de tempo e recursos

Carlos Takeshi Hotta

Uma das questões mais debatidas atualmente é: deve-se usar a hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19? Esta pergunta ainda é difícil de responder especialmente porque o debate científico tem sofrido interferência de discursos inflamados, por vezes ideológicos, apostas políticas mal pensadas e interesses econômicos não declarados.

O cenário mais provável, no momento, é o de que a hidroxicloroquina tenha efeito positivo, mas pequeno, ou de que seu efeito positivo esteja restrito a condições particulares. Parece, portanto, muito longe da prometida bala de prata. Isto explicaria por que tantos estudos realizados com um número pequeno de pacientes resultaram em conclusões tão variadas.

Na prática, acabamos perdendo um tempo valioso navegando pela cortina de fumaça criada pelas discussões paralelas, principalmente as da esfera política e econômica.

A pressão por resultados rápidos pode ter como consequência a geração de desenhos experimentais ruins, a produção de resultados duvidosos, e a perda de tempo e recursos, ambos escassos e que poderiam ser usados para aumentar a eficácia da própria hidroxicloroquina ou para a investigação de tratamentos mais eficazes, como o remdesivir ou o uso de plasma de convalescentes.

O estudo recente da Prevent Senior, vazado e desacreditado antes mesmo de ser submetido à publicação em revistas científicas, é um exemplo disto.

Ciência e política são indissociáveis. Cientistas dependem de política para garantir financiamento, políticos dependem da ciência para criar políticas públicas mais eficazes. Logo, cientistas devem ser agentes políticos. Ouso até a dizer que parte do nosso problema atual é que são poucos cientistas na política.

Cientistas, porém, não devem se esquecer de seu compromisso com o método científico, que tenta minimizar vieses e maximizar a objetividade. Quando o método científico é abandonado por motivos econômicos, políticos ou por demagogia, os resultados podem ser desastrosos — é só lembrarmos de Trofim Lysenko e Francis Galton.

Lysenko foi um cientista ucraniano que convenceu Stálin de que os conhecimentos sobre genética vegetal deveriam ser abandonados pois não obedeciam a conceitos do marxismo-leninismo. A politização do conhecimento científico que se seguiu levou à perseguição de inúmeros cientistas e ao abandono de práticas agrícolas importantes, o que piorou as grandes fomes que assolaram países comunistas no século passado.

Galton foi um cientista inglês que defendia que a inteligência era hereditária e, por isso, poderíamos avançar a humanidade impedindo que pessoas menos inteligentes tivessem filhos. Galton defendia a eugenia. Seus resultados, contaminados pelo pensamento elitista e racista da época, serviram como justificativa para o injustificável: a esterilização forçada de milhares de pobres e de minorias.

Tanto Galton quanto Lysenko usaram-se de desenhos experimentais ruins e resultados duvidosos para avançar suas carreiras políticas e científicas. Os resultados foram desastrosos e custaram muitas vidas.

Hoje em dia há cientistas percorrendo o mesmo caminho. A discussão sobre a hidroxicloroquina é um exemplo. Trata-se de uma discussão complexa. Levará tempo até sabermos sua real efetividade, o momento certo de utilizá-la e se seus benefícios superam seus efeitos adversos.

Não importa se você é de direita ou esquerda, a Terra vai continuar sendo redonda. Mas sua ideologia pode impedi-lo de perceber isso.

Carlos Takeshi Hotta

Professor do Instituto de Química da USP

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