Descrição de chapéu Coronavírus DeltaFolha

3 a cada 5 cidades têm casos de Covid-19, e vírus chega a mais de 600 municípios em 10 dias

Em 12 estados, há registros de coronavírus em mais de 80% das cidades

São Paulo

Três a cada cinco cidades brasileiras têm casos de Covid-19 e quase uma a cada quatro já registrou ao menos uma morte pela doença, revelam dados do Ministério da Saúde.

Os números mostram que o vírus tem ganhado território de maneira acelerada. Entre abril e maio, em média, a doença se espalhou por cerca de 630 novas cidades a cada 10 dias.

Na terça (19), ao menos 3.398 dos 5.570 municípios brasileiros tinham cidadãos com Covid-19.

Atualmente o Brasil é o terceiro do mundo em número de infectados, atrás de Estados Unidos e Rússia. São mais de 310 mil registros, mas há problemas de subnotificação e carência de testes. Estudos estimam que o número real de casos pode ser mais de dez vezes maior.

Nesta quinta (21), o ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, disse que o país vive uma etapa de avanço do vírus em cidades do interior.

A reportagem contabilizou os dados da doença até a terça.

Entre os estados, 12 têm casos em mais de 80% das cidades. Em 7, há mortes em mais da metade dos municípios.

Maior do país em território, o Norte é a região com a maior percentual de municípios com cidadãos infectados: a doença chegou a 78% deles. Também é onde se registra a maior incidência de casos e mortos.

Lá, mais da metade das cidades com óbitos tem taxa de mortalidade acima da média brasileira, que era de 9 por 100 mil habitantes na quarta (20). Ou seja, a região, para além de ter a doença em uma vasta extensão do seu território, tem lidado com proporções muito altas de vítimas.

Das 62 cidades do Amazonas, 18 têm mais de 30 mortos por 100 mil habitantes. Manaus tem 45,8 e, entre as capitais, perde apenas para Belém e Fortaleza. Há 12 cidades do Brasil com mais de 1.000 infectados a cada 100 mil moradores, e 8 são amazonenses.

A campeã do país é Santo Antônio do Içá (AM), com 2.171 casos a cada 100 mil pessoas (ou um diagnóstico de coronavírus a cada 46 moradores).

O estado foi o primeiro a ter seu sistema de saúde superlotado, e circularam nas redes sociais imagens de pacientes ao lado de corpos em hospitais. Para dar conta do volume de mortes, a prefeitura de Manaus abriu valas comuns nos cemitérios e providenciou contâiners frigoríficos para armazenar cadáveres.

O Amapá, por sua vez, tem casos em todos os seus municípios e mortes em 88% deles. O sistema de saúde de Macapá entrou em colapso, e há pacientes mantidos vivos apenas com respiradores manuais por falta de equipamentos e leitos de UTI.

Todo o estado, que apresenta a maior incidência de casos do país, entrou em "lockdown" na terça como tentativa de frear o avanço da doença.

Naquele dia, o Brasil atingiu pela primeira vez a marca de mais de mil mortos em 24 horas. No ranking mundial, é o sexto em número absoluto de óbitos —já acumula mais de 20 mil.

O "lockdown", que prevê multas para quem descumprir regras rígidas de isolamento social, foi adotado em cidades de ao menos outros cinco estados.

a Prefeitura de Porto Alegre liberou a partir desta quarta (20) a reabertura de shoppings, bares e academias. Para funcionar, os estabelecimento precisarão respeitar normas de ocupação máxima, distância entre cliente e uso de máscara por frequentadores e funcionários.

A cidade gaúcha tem 1,6 mortos por 100 mil habitantes, uma das menores taxas do país para uma capital. É no Rio Grande do Sul, porém, que está a cidade com a maior taxa de mortalidade em todo o Brasil.

A pequena Saldanha do Marinho, a pouco mais de 300 km de Porto Alegre, registrou 25 casos e 3 óbitos. Os números parecem tímidos diante dos quase 19 mil mortos no país, mas ganham dimensão quando comparados à diminuta população da cidade. Lá moram apenas 2.650 pessoas, e 20% delas são idosas.

Fazendo as contas do óbitos por coronavírus, a cidade tem uma morte a cada 833 moradores (ou 113 mortos por 100 mil habitantes).

Como a Folha mostrou, 12 das 27 capitais têm mais de 80% de ocupação dos leitos de UTI para Covid-19 da rede estadual. Parte do sistema tem sido pressionado pela demanda de pacientes vindos do interior.

São cidades menores, que já têm hospitais lotados ou não possuem infraestrutura adequada para lidar com casos graves. Com o avanço da doença por municípios com esse perfil, a tendência é que haja piora também no cenário das capitais.

No Rio de Janeiro e no Recife, por exemplo, há fila de pacientes aguardando por uma vaga. Em São Paulo, Salvador, São Luís, João Pessoa, Vitória e Manaus, pelo menos 80% dos leitos estão com pacientes.

O Ministério da Saúde atribui parte da diferença entre as regiões do Brasil à sazonalidade das doenças respiratórias.

"O crescimento e a evolução da pandemia no Brasil necessariamente obedecem aquilo que a gente já conhece em epidemiologia, que é o ciclo sazonal de doenças respiratórias, bastante diferentes quando você considera as regiões", disse o secretário substituto de vigilância em saúde, Eduardo Macário, nesta quinta (21).

Ele afirmou que as regiões Norte e Nordeste vivem uma época de doenças respiratórias por conta da temporada de chuvas. Macário disse, inclusive, que há sinais na redução na velocidade de infecção, especialmente na região Norte, embora ainda seja necessário aguardar uns dias para confirmar se se trata de uma tendência efetiva.

Por outro lado, a chegada do inverno pode significar uma pressão maior no sistema de saúde nas regiões Sul e Sudeste.

Embora reconheça a velocidade de propagação do vírus, Macário afirmou que em parte ele pode ser explicado pelo aumento na testagem em todo o país.

"Então nós podemos perceber que temos um aumento no número de diagnosticados explicado principalmente por dois fatores: tanto que se trata de uma doença que tem uma facilidade muito grande de ser transmitida de pessoa para pessoa como um aumento no número de testes disponíveis", disse.

O ministério também ressaltou que vem aumentando a capacidade de processamento dos testes. Há atualmente 161.869 em fase de processamento ou na fila para serem analisados.

Em todo o país, 423.438 exames já foram analisados de um total de 585.307 solicitados.

O Ministério da Saúde também afirma que, em média, 75% de todos os testes para coronavírus que seguem para os laboratórios são analisados em um intervalo de cinco dias.

Colaborou Renato Machado, de Brasília

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