Imunidade ao novo coronavírus ainda é pouco compreendida

Pesquisas tentam esclarecer se proteção de quem já teve doença é duradoura

São Carlos (SP)

Por enquanto, as tentativas de entender como ficam as defesas do organismo nas pessoas que já se recuperaram da Covid-19 trouxeram mais perguntas do que respostas.

Não está claro nem mesmo se todas as pessoas que sobreviveram ao coronavírus Sars-CoV-2 carregam anticorpos para neutralizá-lo. Mesmo entre aqueles que têm tais anticorpos, não se sabe quanto tempo a proteção vai durar.

Boa parte dessa incerteza pode ser explicada pelo prisma da teoria da evolução. Embora outros tipos de coronavírus costumem causar formas comuns e brandas de resfriado, o Sars-CoV-2 não tinha nenhum histórico de convivência com a espécie humana, já que acabou de invadir a população global do Homo sapiens vindo de outro hospedeiro.

Isso significa que nenhum ser humano contava com defesas naturais específicas contra o vírus quando ele começou a infectar pessoas na China, no fim de 2019. “É muito improvável que infecções anteriores causadas pelos outros coronavírus mais comuns confiram algum tipo de proteção. Eles pertencem a grupos tão distantes do Sars-CoV-2 que dificilmente isso aconteceria”, explica Fernando

Spilki, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia e professor da Universidade Feevale (RS).
Também é preciso levar em conta que a maioria dos casos produz sintomas relativamente leves e recuperação sem complicações. Isso significa que, mesmo antes de conseguir produzir anticorpos –coisa que só acontece alguns dias após o início da doença–, o organismo de muitos consegue começar o contra-ataque ao vírus por outros meios.

Tal reação é possível porque as células contam com um sistema genérico de reconhecimento dos invasores virais. Um elemento desse sistema é a detecção de RNA (molécula “prima” do DNA que forma o material genético de vírus como Sars-CoV-2) com fita dupla, conta Rômulo Leão Silva Neris, pesquisador visitante da Universidade da Califórnia em Davis.

Em células como as humanas, o normal é que o RNA tenha apenas fita simples. Flagrada essa esquisitice molecular, a célula começa a recrutar moléculas para barrar a replicação (reprodução) do vírus.

Conforme os dias de doença vão passando, o organismo enfim produz anticorpos específicos contra o vírus –em geral, dois tipos das chamadas imunoglobulinas, designadas com as siglas IgM e IgG.
Quando a infecção é debelada, o “conhecimento” sobre como produzir os anticorpos IgG, os mais duradouros, fica armazenada nas chamadas células B de memória. Ao entrar em contato com o vírus de novo no futuro, essas células podem desencadear a produção de anticorpos, vencendo rapidamente o problema.

Dois detalhes bagunçam esse cenário relativamente simples no caso do Sars-CoV-2. “Alguns estudos mostraram que entre 20% e 30% dos doentes que se recuperaram não apresentam níveis detectáveis de anticorpos”, diz Neris.

De quebra, o que se sabe sobre outros coronavírus sugere que esse subgrupo viral é pouco imunogênico, ou seja, não produz uma resposta tão robusta do sistema de defesa do organismo quanto outros invasores, lembra Spilki.

Em geral, os coronavírus causadores de resfriados comuns geram imunidade transitória, que se esvai num prazo de cerca de um ano.

Outra possibilidade é que as pessoas que se recuperam da Covid-19 produzam anticorpos, mas que alguns testes tenham sido feitos após a recuperação. Nesse caso, os níveis dessas moléculas estariam muito baixos no organismo e, portanto, mais difíceis de detectar, opina Nayara Pereira, mestranda em imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e membro da iniciativa online Covid Verificado, que checa informações científicas sobre a pandemia.

Além das dúvidas sobre como o vírus interage com o sistema imunológico, ainda há incerteza sobre a proporção de pessoas cujo organismo teve contato com o Sars-CoV-2.

Por ora, o único consenso é que, mesmo nos lugares mais afetados pela pandemia, a população ainda está muito longe de atingir o que se costuma chamar de imunidade de rebanho –cenário no qual a porcentagem de pessoas que já foram infectadas e se curaram é elevada o suficiente para que sirvam de “escudo” das que ainda não tiveram a doença.

Os resultados preliminares de testes de anticorpos variam, e muitos não foram publicados oficialmente em periódicos científicos, o que pode diminuir sua confiabilidade.

Além disso, os dados divulgados até agora foram obtidos em escala local, e não nacional, e nem sempre dizem respeito a uma amostra de pessoas que seja representativa da população em geral.

O número mais alto até agora veio de Chelsea, subúrbio de Boston (EUA), onde médicos do Hospital Geral de Massachusetts identificaram anticorpos contra Sars-CoV-2 em 31,5% de 200 passantes que doaram sangue em uma esquina.

Uma cidade de 12 mil habitantes na Alemanha, na qual 500 foram testados, teria revelado uma prevalência de anticorpos em 14% da população, enquanto outros lugares da Europa e dos EUA têm números que vão de 1% a 4%.

Já o único estudo amplo realizado no Brasil até agora, coordenado por pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas (RS), estimou que apenas 0,13% da população gaúcha teria desenvolvido anticorpos contra o vírus.

Em testes como esses, é sempre necessário levar em conta os níveis de sensibilidade e especificidade. Um teste muito específico é o que raramente produz falsos positivos (ou seja, identifica a presença da infecção quando, na verdade, ela não ocorreu); já testes muito sensíveis produzem poucos falsos negativos (ou seja, raramente apontam que alguém que teve a infecção na verdade não a teve).

De qualquer modo, outro ponto acerca do qual os cientistas concordam é que não existe nenhuma fórmula mágica para “aumentar a imunidade” –nenhum alimento é capaz de fazer isso sozinho, por exemplo. “O que fortalece a imunidade é um conjunto de fatores: alimentação equilibrada, sono adequado, exercício físico e evitar o estresse, embora na situação atual o último item seja mais difícil”, diz a pesquisadora da USP.

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