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Problemas em sistema do Ministério da Saúde prejudicam análise de dados da Covid-19

Estados e municípios enfrentaram dificuldades para contabilizar número de casos em julho

São Paulo

Instabilidades nas plataformas do Ministério da Saúde causaram nas últimas semanas represamento de registros de casos da Covid-19 em pelo menos seis estados —e uma posterior explosão de números, quando o acesso ao sistema foi normalizado. A grande variação prejudica a análise da situação da pandemia no país.

Na cidade de São Paulo, por exemplo, entre os dias 15 e 21 de julho, foram registrados menos de 700 novos casos diários, o que indicava uma queda drástica na disseminação do novo coronavírus. No dia 22, porém, foram 18,6 mil casos, inseridos de uma vez.

Nos dias que se seguiram, os números diários de novos casos variaram entre 0 e 7.000. Situações semelhantes também ocorreram em junho, mas com menos frequência.

A secretaria municipal de Saúde disse que, no mês de julho, teve dificuldades para extrair dados dos sistemas do ministério nos quais são notificados os casos. É a partir dos números obtidos dessas plataformas que estados e municípios divulgam as estatísticas diárias da doença.

A diferença de um dia para o outro foi tão grande que mesmo estratégias matemáticas usadas para suavizar a variação sazonal dos dados não funcionaram bem.

A média móvel, por exemplo, para o dia 21 era de 338 casos. Para o dia 22, era de 2.621. Para calcular a média móvel, soma-se o número dos últimos sete dias e divide-se por sete. No dia seguinte, os dados do dia mais recente são acrescentados e os do dia mais antigo, excluídos.

Mesmo modelos estatísticos que consideram períodos maiores de tempo para avaliar a situação da epidemia ficam prejudicados. O monitor da Folha, por exemplo, se baseia em métricas de 30 dias, com maior peso para os dias mais recentes.

Com dados que indicavam queda de casos por cerca de uma semana, a ferramenta apontou que cidade de São Paulo estava em estágio desacelerado em um dia. No dia seguinte, com o grande pico de registros, a situação mudou para acelerada.

A prefeitura credita o descompasso nos números a instabilidades nos sistemas do Ministério da Saúde. Há dois principais: o Sivep-Gripe, no qual são informados os casos de internação, e o E-SUS, em quesão contabilizados os casos leves. É a partir do download dos dados dessas plataformas que as secretarias divulgam os números diários.

O problema não aconteceu só na secretaria municipal. No último dia 28, o Governo de São Paulo não divulgou os números da Covid-19 para aquela data sob a justificativa de que mudanças promovidas pelo Ministério da Saúde no Sivep-Gripe impossibilitaram a consolidação dos dados.

“Em virtude da inserção de novos campos no sistema Sivep por parte do Ministério da Saúde, as equipes estaduais estão trabalhando na readequação da rotina de extração das informações deste sistema, uma vez que as alterações impactaram no processo de extração automatizada realizada diariamente pela pasta estadual”, informou a secretaria na ocasião.

No dia seguinte, a pasta estadual divulgou os registros acumulados de casos e mortes para as duas datas.

Devido a isso, aquele foi o dia com maior quantidade de novas mortes: 1.554, número que circulou nas redes sociais como um recorde de óbitos em 24 horas.

Situação similar aconteceu no dia 22, desta vez com o número de casos. Foram mais de 65 mil em 24 horas. Naquela quarta-feira, as secretarias informaram os totais represados, gerando um falso recorde de testes positivos em um só dia.

Isso porque, nos dias anteriores, estados como Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Alagoas, Bahia e Piauí relataram problemas com as plataformas do Ministério da Saúde, especialmente o E-SUS, e deixaram de divulgar os números reais de novos casos.

Segundo Jaqueline Correia Gaspar, diretora do núcleo de informação e vigilância epidemiológica da Secretaria de Saúde do estado de São Paulo, instabilidades no E-SUS são relativamente comuns.

Para tentar contornar o problema, a área técnica da secretaria faz downloads escalonados ao longo do dia. “Se eu deixo para fazer só uma vez ao dia e naquele horário o sistema apresenta instabilidade, fico sem dados”, diz.

Ela diz que divergências de números entre estado e a prefeitura da capital —na quarta (4), a prefeitura contabilizava cerca de 30 mil casos a mais no total acumulado— acontecem por questões tecnológicas e que as equipes estão em contato entre si e com o Ministério da Saúde para tentar identificar o que pode estar ocorrendo.

Algumas hipóteses são o horário em que a extração dos dados é feita. “Se eu baixar em horários diferentes, já tenho diferença no números de casos”, afirma.

Segundo a secretaria estadual, os casos estão sendo devidamente notificados e considerados para a análise da situação epidemiológica, bem como de medidas de prevenção e controle da doença.

A secretaria municipal, por sua vez, afirmou que o problema na extração de dados foi normalizado e que as oscilações não afetaram a política de saúde.

"O núcleo técnico, responsável pela análise da situação epidemiológica, utiliza curvas epidêmicas com dados referentes à distribuição dos casos e óbitos por data de início dos sintomas, tendo em vista que assim é possível aferir os períodos de exposição da doença e transmissibilidade", afirmou, em nota.

O Ministério da Saúde reconheceu problemas no E-SUS apenas no fim de semana dos dias 18 e 19 de julho. A pasta afirmou que “prontamente auxiliou na resolução do problema” junto aos estados que relataram dificuldades.

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