Cientista tem que liderar batalha contra desinformação, diz brasileira titular em Harvard

Demógrafa participa de grupo que divulga informação científica por redes sociais; em entrevista, ela fala sobre diversidade, vacinas e retrocesso no Brasil

Bruxelas

Cientistas têm que sair da academia e liderar a batalha contra a desinformação, defende Marcia Castro, 56, primeira mulher de seu departamento a obter uma cátedra ("tenure", na hierarquia americana) na faculdade de Saúde Pública da Universidade Harvard (EUA).

Uma das principais pesquisadoras de doenças transmissíveis no Brasil, a professora diz que “a época em que professores tinham lá sua salinha, davam sua aula, publicavam seus artigos e ficavam famosos já era”.

O momento é de se engajar com políticos, os próprios pares, líderes comunitários “e, principalmente, com quem discorda de você”, afirma a carioca, que tem participado de grupos de combate a desinformação sobre a epidemia de Covid-19 no Brasil.

Moça de óculos, cabelos castanhos escuros longos repartidos no meio, blusa branca e casaco preto
A brasileira Marcia Castro, 56, professora titular da faculdade de saúde pública da Universidade Harvard (EUA) e pesquisadora de doenças como malária, zika e dengue - Arquivo pessoal

Em Harvard, Castro está envolvida em um programa para aumentar diversidade e inclusão em seu departamento, do qual é também a chefe desde o ano passado.

Segundo ela, ainda que seja um problema discutido há décadas nos EUA, houve pouco avanço em políticas que ataquem suas raízes.

De sua casa nos arredores de Boston, onde trabalha remotamente, Castro contou à Folha o único episódio de discriminação desde que chegou aos EUA, em 1998.

Falou também sobre retrocessos na saúde pública brasileira e o risco de que o país não fique imune ao novo coronavírus mesmo que uma vacina eficaz seja descoberta.

*

Como é o projeto de diversidade que está sendo implantado em sua escola em Harvard? Estamos mapeando a diversidade entre funcionários, alunos e professores, e comitês vão estimular a discussão de como ampliá-la. Combater desigualdades estruturais tem que ir além de rodar um modelo e botar uma variável raça. Isso não resolve nada.

Aonde querem chegar? Espero que isso atraia uma diversidade maior de alunos. Quantas minorias nem se inscrevem na seleção da nossa escola porque acham que vão se sentir deslocadas? Espero que esse momento não se perca, não seja só uma moda.

Não é uma questão já consolidada nos EUA? Mas não habita todos os ambientes.

A segregação dos hospitais só acabou nos anos 1960. Foi ontem. E os problemas não se resolveram.

Olhe para o “redlining” [literalmente “traçar linhas vermelhas”, o termo designa a negação da oferta de serviços públicos ou privados, como banco, saúde ou comércio, em regiões com alta proporção de minorias, principalmente negros, nos EUA].

Se você pega os mapas do “redlining” e coloca sobre as cidades hoje, são as mesmas áreas em que há mais violência, mais crimes, em que não há árvores, que sofrem mais nas ondas de calor.

A lei pode ter banido o “redlining”, mas ficaram as linhas vermelhas.

Quando matam um negro, as pessoas vão para rua, mas nada de concreto acontece. A discussão não persiste, não leva a ações que alterem a raiz dos problemas.

É como numa epidemia de dengue. Tem um mosquito, você vai lá, joga um spray, matou o mosquito. Resolveu? Não, porque a cumbuca de água continua descoberta no quintal, e vão vir outros mosquitos.

Você é mulher e estrangeira e virou chefe do seu departamento. Está nos EUA desde 1998. Sentiu algum tipo de resistência ou discriminação? Passei dois anos na Carolina do Sul em 2004. Eram poucos alunos negros, todos a primeira geração da família a chegar à faculdade, e os serviços, da limpeza ao caixa da cantina, eram feitos apenas por negros.

Foi também o único lugar em que vivi um evento de discriminação, vinda de um aluno branco e rico.

Ele tirou uma nota ruim, tentou recorrer e, quando não conseguiu, me escreveu: “Volta para Cuba!”. Demorei para entender que era por causa do meu sobrenome Castro [que, na verdade, tem origem em Portugal, de onde seu pai emigrou para o Brasil].

Qual a sua reação?

Mandei um e-mail para o orientador dele, para o meu chefe de departamento e para o chefe do departamento dele. Ele era da antropologia, imagine, um antropólogo pensando assim…

A primeira vez que acontece é esquisito. E é uma coisa mínima, né? Não chega nem perto do tipo de discriminação e racismo que outras pessoas enfrentam.

Com meus alunos aqui em Harvard nunca houve problemas, até porque dedico bastante atenção a eles [fã de Star Wars —"May the Force be with you" ("Que a Força esteja com você") é sua assinatura no WhatsApp—, ela já foi descrita por um aluno como "a perfeita mestre Yoda"].

Com meus pares, se houve, nunca percebi. O que realmente acontece é, numa reunião com os que já são renomados, geralmente homens brancos, você diz algo e ninguém escuta. Logo em seguida, um deles diz a mesma coisa, e todos elogiam ‘uau, que ideia bacana’.

Mas talvez minha experiência não seja representativa, porque eu sou grande, durona...

Quanto você mede?

Nem é tanto assim, 1,74 metro, mas entre as mulheres do departamento talvez eu seja a mais alta [risos].

E o inverso? Ocupar uma posição de destaque numa universidade de ponta mudou a forma como você é tratada no Brasil?

Eu costumava dizer que a gente sabe quem são os amigos quando você está no momento difícil. Vi que isso também acontece quando você está celebrando uma conquista. O que teve de gente que nunca tinha se importado comigo e de repente passou a me tratar como se fôssemos melhores amigos.

Mas já tinha uma demanda no Brasil, porque meu trabalho é lá. Surgiu uma demandazinha extra, todo mundo quer que você dê aula inaugural, essas coisas. Você vai ficando mais velha e menos coisas te surpreendem na vida, mas eu fui surpreendida um pouquinho, sim. Não achei que ia ser tanto.

Quando um cientista de ponta sai do país, há quem lamente a fuga de cérebros, enquanto para outros isso aumenta a conexão intelectual. O quanto é ganho e o quanto é perda na saída de cientistas do Brasil?

No cenário em que não há verba para pesquisa no Brasil e a saída é a única alternativa, acho péssimo.

No cenário normal, depende do contexto.

Muito brasileiro sai, vai para uma instituição de ponta e não mantém relações com o Brasil. Às vezes nem estuda Brasil. E, pior, às vezes só fala mal do Brasil.

Para que em vez de “brain drain” [fuga de cérebros] seja “brain gain” [ganho de cérebros], faço minha pesquisa toda no Brasil.

Quando entrei na escola em 2006, ninguém nem falava no Brasil. Criei uma ponte, muitos brasileiros ficam aqui de três meses a um ano, alguns conseguem bolsas e trabalham comigo.

Porque não dá para esperar um brasilianista na área de saúde. Se tiver sorte, vai achar isso na antropologia, na sociologia, mas na saúde é muito difícil.

Ter uma pessoa para dar destaque ao Brasil e abrir a porta para os que no futuro vão estar na liderança, tomando decisão, esse é um modelo que vale a pena.

O da pessoa que sai e esquece suas raízes é um “brain drain”. O Brasil não ganha nada com isso.

Por que se engajou em projetos de informação durante essa pandemia?

Décadas atrás os acadêmicos tinham lá sua salinha, davam sua aula, publicavam seus artigos e ficavam famosos. Essa época já era.

Quem está na academia tem que estar preparado para se engajar com os políticos, os pares, líderes comunitários e, principalmente, com quem discorda de você.

É extremamente desconfortável, mas, se a gente só conversa quem concorda com a gente, a conversa é ótima, você se sente superbem, mas não muda a cabeça de ninguém.

A sra. tem conversado com quem pensa diferente?

Comecei a fazer isso. Quando viajo, nas cidades do Amazonas, tive algumas conversas com pessoas locais e gestores.

É importante para entender o que faz cada um pensar do jeito que pensa. Ajuda a encontrar a melhor forma de falar, os melhores argumentos.

Se só continuar a ouvir quem concorda com você, só terá argumentos muito simples, sem efeito.

Na batalha da comunicação, qual o risco de o país retroceder com os movimentos antivacina? A gente já está retrocedendo. A cobertura vacinal do Brasil, que era um modelo internacional, tem caído nos últimos anos. Isso preocupa porque a gente pode ter a reintrodução de doenças que já foram eliminadas, como aconteceu em 2018 com o sarampo. É um retrocesso enorme.

Preocupa-me muito a reintrodução da pólio, em que sempre tivemos cobertura grande, mas está caindo.

E preocupa também porque a gente talvez tenha uma vacina muito boa para dengue, que o Butantã está desenvolvendo.

Tenho esperança muito grande nessa vacina.

Mas será que as pessoas vão querer tomar? O índice de confiança do brasileiro na imunização era de 76% em 2015 e no ano passado caiu para 56%.

Pode afetar a imunização contra a Covid-19 também, certo? Muito, porque provavelmente as primeiras vacinas ainda não serão as mais eficazes, e pode ser que a gente precise de muitas campanhas de vacinação.

E a decisão individual de não tomar uma vacina tem um custo um coletivo, de não chegar ao número suficiente de imunizados para para bloquear uma transmissão.

Como reverter? A gente da academia tem uma obrigação de preencher o espaço, que infelizmente foi deixado vazio, de campanhas públicas. Eu cresci na ditadura, que não é exemplo para nada, mas tinha a campanha do Sujismundo; na escola a pior coisa era alguém te chamar de Sujismundo, aquele cara com a mosca na cabeça, todo sujo. Isso fica, principalmente para as crianças.

Quando você viaja pela Amazônia, descobre que o Zé Gotinha agora tem família, os filhos do Zé Gotinha. Mas não aparece na TV. A gente precisa resgatar as campanhas, trazer artistas, atletas, pessoas em que a população vai acreditar, vai ouvir o que elas estão falando.

Talvez o principal mecanismo de mudança que qualquer cidadão tenha seja o voto. Mas o voto sem informação deixa de ser um direito do cidadão, para a ser só a obrigação cívica.

E aí, para que servem as eleições se os votos são dados sem a informação correta? Ou, até pior, com a informação errada?

Demógrafa achou solução para impasse de professores

A trajetória de Marcia Castro como referência no uso da análise espacial para entender a dinâmica de doenças transmissíveis começou no mestrado.

Sua orientadora no Cedeplar/UFMG, Diana Sawyer, estudava a transmissão de malária em um assentamento agrícola em Rondônia com Burton Singer, pesquisador de doenças infecciosas de Princeton (EUA).

A pesquisa dos dois, porém, esbarrava na dificuldade em achar um padrão para os dados.

Singer propôs a Castro que ela enfrentasse esse problema num doutorado em Princeton, orientado por ele.

Ela chegou à Amazônia pela primeira vez em 1999 e, desde então, estuda em campo a transmissão da malária.

A solução para o impasse de seus professores veio da análise de imagens de satélite. Ao dividir a região do assentamento em áreas menores, descobriu o componente geográfico que faltava para dar sentido aos dados.

O uso de geolocalização em saúde pública, que se tornou sua especialidade, foi usado também para melhorar o controle de dengue em Fortaleza.

Sua pesquisa mostrou que a doença se distribuía ao longo dos meses nos anos sem epidemia, o que levou a cidade a reforçar a vigilância nas estações secas, e não só nas chuvosas.

Os estudos de Castro se concentram em identificar riscos sociais, biológicos e ambientais associados a doenças transmitidas por vetores nos trópicos e identificar estratégias para combater o contágio.

Na Amazônia, estuda mobilidade humana e infecções assintomáticas de malária e impactos potenciais de eventos climáticos extremos na transmissão da doença.

Na África, investiga o uso de imagens de sensoriamento remoto para prever a malária urbana em Dar es Salaam (Tanzânia) e pesquisa saúde, pobreza e desigualdade em Accra (Gana).

Castro também investigou por que algumas prefeituras têm dificuldade para aumentar a cobertura dos programas de Saúde da Família; entre as causas, descobriu que o alinhamento político entre prefeitos e governadores afeta os resultados.


RAIO X

Marcia Castro, 56,

chefia o departamento de saúde global e população e é professora titular da Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard (EUA), onde dá aulas desde 2006. Formada em estatística na Uerj, fez mestrado em demografia na UFMG e doutorado em Princeton (EUA). Pesquisa malária no Brasil desde 1999 e é uma das principais especialistas no uso de análise espacial para entender a dinâmica de doenças infecciosas. Nesta pandemia, trabalha com o time técnico do Ministério da Saúde e integra o Observatório Covid-19 BR, que divulga informação científica por redes sociais.

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