Regeneron pede uso emergencial de coquetel contra Covid após elogios de Trump

Medicamento ainda está em fase de testes; Brasil é um dos seis países que participam de pesquisas

São Paulo

A farmacêutica Regeneron disse na noite de quarta-feira (7) que enviou à FDA (agência de regulação de medicamentos nos EUA) um pedido de aprovação de uso emergencial do coquetel experimental de anticorpos que o presidente americano Donald Trump chamou de a "cura" do novo coronavírus, apesar da falta de evidências científicas para tanto.

A empresa disse que, a princípio, o acesso ao tratamento seria limitado, com doses suficientes para 50 mil pacientes, número muito longe das centenas de milhares de doses que Trump citou em vídeo divulgado na quarta-feira. Segundo o presidente, os remédios seriam disponibilizados aos americanos gratuitamente em breve.

No vídeo, Trump disse ainda que foi sua infecção foi uma “bênção de Deus” e que o coquetel o fez se sentir melhor de repente. “Eu me senti inacreditável”, disse ele. “Eu me senti bem imediatamente.”

Não há evidências de que o tratamento seja o motivo de ele estar se sentindo melhor, e os médicos que o acompanham disseram que ele tomou outros medicamentos.

O coquetel da Regeneron é composto por dois anticorpos monoclonais (REGN10987 e REGN10933), ou seja, cópias de um único anticorpo com a função de combater um patógeno específico, e cada um se liga a partes diferentes da proteína da coroa espinhosa que reveste o coronavírus, explica Lenio Alvarenga, médico da Roche Farma Brasil. “Um anticorpo não interfere na ação do outro, mas eles se ajudam para bloquear o vírus”, diz.

Farmacêutica Regeneron em Tarrytown, Nova York; Trump elogiou droga experimental da empresa - Reuters

Para desenvolver a terapia, os cientistas fazem uma investigação dos anticorpos gerados pelo organismo de pessoas recuperadas da doença, testando as diversas moléculas dessa biblioteca de defesa.

Os experimentos são feitos em culturas de células infectadas pelo vírus. O candidato mais potente para barrar a infecção pode seguir para os testes em animais e pessoas. Uma vez aprovado, é necessária a produção de uma célula que seja capaz de fazer a multiplicação daquele anticorpo, funcionando como uma fábrica.

Além de plasma de pacientes curados da Covid (parte líquida do sangue que contém os anticorpos contra o vírus), os cientistas da Regeneron usaram também ratos modificados geneticamente para produzir anticorpos humanos quando infectados pelo vírus.

O desenvolvimento do coquetel e os primeiros testes foram descritos em dois artigos publicados em agosto na revista científica Science.

A gigante farmacêutica suíça Roche anunciou um acordo com a Regeneron em agosto para desenvolver, fabricar e distribuir o medicamento globalmente.

Testes no Brasil

O Brasil é um dos seis países no mundo que participam dos estudos com o coquetel para avaliar a eficácia contra a Covid-19 e os mecanismos de ação da substância. Os outros são os Estados Unidos, Chile, México, Moldávia e Romênia.

Até o mês de novembro, três estudos com o medicamento REGN-COV2 devem estar em andamento no país. Um deles, que pesquisa o efeito sobre pessoas internadas com a Covid-19, já teve início e está na fase de inclusão de pacientes pelo Instituto de Pesquisa Clínica de Campinas, no interior de São Paulo.

Os outros dois estudos que devem começar até o próximo mês vão avaliar a eficácia do remédio em casos mais leves da doença e o uso do coquetel para prevenir a infecção. Além disso, a pesquisa britânica Recovery também está testando o coquetel.

Segundo a Regeneron, os testes da droga usaram a linhagem de células 293T, derivada do tecido renal de um feto abortado na década de 1970. Pelo menos duas empresas que correm para produzir vacinas contra o coronavírus, Moderna e AstraZeneca, estão usando a mesma linhagem. O Remdesivir, outra droga também usada por Trump no tratamento da Covid-19, também foi testada nessas células.

“Os 293Ts foram usados ​​para testar a capacidade dos anticorpos de neutralizar o vírus”, disse Alexandra Bowie, porta-voz da Regeneron. “Eles não foram usados ​​de nenhuma outra forma, e o tecido fetal não foi usado na pesquisa.”

Em junho de 2019, o governo Trump suspendeu o financiamento federal para a maioria das novas pesquisas científicas envolvendo tecido fetal derivado de abortos. ​

O pedido de aprovação do Regeneron no mesmo dia em que Trump elogiou efusivamente a droga intensificou temores de que o presidente esteja pressionando as agências federais de saúde a tomar decisões que possam beneficiá-lo politicamente. No vídeo, Trump repetiu seu desejo de aprovar uma vacina antes da eleição, embora os próprios fabricantes de vacinas tenham dito que isso é muito improvável.

Apesar do temor de que a fala do presidente pressione as agências reguladoras, os primeiros resultados sobre o medicamento parecem promissores. Em um comunicado à imprensa, a empresa afirmou que o coquetel reduziu os níveis de vírus, especialmente em pessoas que não haviam feito seus próprios anticorpos, mas a farmacêutica ainda não divulgou dados detalhados dos estudos sobre o coquetel. Os ensaios clínicos ainda não foram concluídos.

O presidente da farmacêutica Regeneron, George Yancopoulos, disse que, apesar da falta de evidências, Trump pode ter, de fato, respondido ao tratamento. Mas há outras explicações possíveis.

​Segundo Alexandre Naime Barbosa, chefe do setor de infectologia da Unesp (Universidade Estadual de São Paulo) e consultor da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), Trump usou terapias experimentais, sem aprovação, por causa da posição que ocupa. "Ocorreu um acesso expandido de uma droga da qual não se tem pleno conhecimento, mas que pode ter eventual benefício. Isso é feito extrapolando a falta de resultados."

De toda forma, o infectologista afirma que a droga já está na fase 3, a última antes da aprovação, e, mesmo sem resultados definitivos até o momento, "obviamente é uma potencial candidata ao tratamento da Covid-19".

Com o New York Times

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