Enfermeiro engana ao dizer que médico morreu por efeitos da vacina de Oxford

Em vídeo, Anthony Ferrari Penza distorce dados sobre óbito de voluntário dos testes com o imunizante, que ocorreu por complicações do novo coronavírus

São Paulo

É falso que o médico voluntário no ensaio clínico da vacina de Oxford tenha sido “vítima da vacina”, como afirmou o enfermeiro Anthony Ferrari Penza em uma transmissão ao vivo pelo Facebook verificada pelo Comprova. De acordo com o atestado de óbito do jovem, obtido pelo Comprova, ele faleceu em decorrência de uma pneumonia viral causada pela Covid-19.

Veículos de imprensa, como a Folha, confirmaram que o voluntário recebeu apenas placebo –e não a vacina contra o novo coronavírus. O Comprova não conseguiu confirmar essa informação.

O enfermeiro ainda afirma no vídeo que os adjuvantes do imunizante, substâncias que buscam melhorar sua eficácia, poderiam causar Alzheimer, doença degenerativa que afeta a memória, e fibromialgia, que causa dor e fadiga. A afirmação é enganosa, já que não existem indícios científicos que indiquem que as vacinas e os adjuvantes causem qualquer uma das duas doenças, como explicou o pesquisador Rafael Dhália, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). Até o momento, não foram relatados efeitos colaterais graves nos 57 mil voluntários (10 mil deles no Brasil) que receberam a vacina de Oxford.

Cientista de avental branco e luva azul segura instrumento em laboratório de vacina
Cientista trabalha em laboratório que produz a vacina de Oxford em Buenos Aires, na Argentina - Juan Mabromata - 14.ago.2020/AFP

É importante ressaltar que o simples ato de se vacinar não significa que uma pessoa esteja imune a uma determinada doença. Nenhuma vacina existente proporciona uma proteção para todas as pessoas que receberem as doses. “Vacina não é uma medida de proteção individual e, sim, populacional”, explica Dhália. Isso significa que mesmo quem vier a receber a vacina ainda poderá adquirir a doença. “Quando o nível é ‘excelente’, a vacina tem uma proteção de 80%”, complementa o pesquisador. Com isso, os 80% da população imunizados servem como uma espécie de barreira para que os outros 20% que não foram imunizados estejam protegidos.

Procurado, Penza, que já apareceu em outras verificações, disse que não é contra a vacina ou contra os testes da vacina, mas que é “contra não avisar as pessoas que elas estão sendo testadas” e contra a “obrigatoriedade” dos testes. Na verdade, nenhuma pessoa é obrigada a participar dos testes e todos que aceitam são voluntários e assinam um termo reconhecendo a participação.

Em relação aos efeitos colaterais, ele voltou a afirmar que os artigos científicos mostram que os adjuvantes podem provocar Alzheimer. Porém, quando a reportagem pediu para que ele enviasse os artigos que supostamente comprovariam a afirmação, ele deixou de responder.

Verificação

Em sua terceira fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais tratando sobre políticas públicas do governo federal ou sobre a pandemia. Como ainda não existe uma vacina aprovada ou cura comprovada para o coronavírus, muitas das publicações verificadas estão relacionadas ao tema. Nos últimos meses, a grande politização em torno da vacina fez com que o número de conteúdos falsos e enganosos aumentasse muito.

O vídeo analisado foi publicado no perfil do Facebook do enfermeiro Anthony Ferrari Penza e teve cerca de 2,6 milhões de visualizações até ser excluído, no dia 29 de outubro. O mesmo vídeo foi publicado no YouTube e chegou a mais de 50 mil visualizações até 11 de novembro. Os conteúdos passam insegurança para as pessoas que, além de estarem assustadas com a pandemia, também ficam receosas em relação às vacinas, visto que o vídeo dissemina medo e não traz nenhuma informação concreta sobre os testes e resultados das vacinas que estão em andamento no Brasil.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para modificar o seu significado original e divulgado de maneira deliberada para espalhar uma mentira.

O Comprova fez esta verificação baseado em dados oficiais sobre o novo coronavírus disponíveis no dia 11 de novembro de 2020.

A investigação desse conteúdo foi feita por Niara, Piauí, Amazônia Real e Marco Zero e publicada na quarta-feira (11) pelo Projeto Comprova, coalizão que reúne 28 veículos na checagem de conteúdos sobre coronavírus e políticas públicas. Foi verificada por Folha, UOL, Jornal do Commercio, Estadão, Correio, Bereia, BandNews e GZH.

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