Não há tratamento prévio para Covid-19, ao contrário do que sugere médica

No Instagram, profissional afirma que não é o momento das vacinas e que, se população tomar hidroxicloroquina e ivermectina, circulação do vírus acaba até o inverno

São Paulo

São falsas as afirmações sobre o fim da circulação do novo coronavírus feitas por uma médica em um vídeo no Instagram. Na gravação, verificada pelo Comprova, ela cita as vacinas, mas diz que ainda não é o momento das imunizações, e diz, erroneamente, que, se a população tomar hidroxicloroquina e ivermectina, estará protegida contra a Covid-19 e, assim, a circulação do vírus vai acabar antes da chegada do inverno. Não é verdade.

Até agora, não há nenhum medicamento que evite o contágio da doença, segundo autoridades de saúde. Sobre a cloroquina e a hidroxicloroquina (que é um derivado da primeira), a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) afirma que “os estudos conduzidos até o momento têm um número de pacientes muito reduzido e ainda é arriscado afirmar que vai funcionar no tratamento da Covid-19” e que, o órgão, “da mesma forma que a FDA (Food and Drug Administration, autoridade sanitária dos Estados Unidos), não recomenda o uso indiscriminado desses medicamentos sem a confirmação de que realmente funcionam”.

A médica Raissa Soares, de blusa vermelha e casaquinho cinza. Ela tem os cabelos compridos e usa óculos. Está falando em um microfone e gesticulando com a mão esquerda
A médica Raissa Soares, em agosto, durante cerimônia sobre a Covid-19 no Palácio do Planalto - Pedro Ladeira - 24.ago.2020/Folhapress

A Opas (Organização Pan-Americana da Saúde), ligada à OMS (Organização Mundial da Saúde), tem posicionamento similar em relação às drogas. Em seu site, a entidade destaca que “a maioria das pesquisas até agora sugere que não há benefício e já foram emitidos alertas sobre efeitos colaterais do medicamento”.

Associações como a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia e a Sociedade Brasileira de Infectologia já publicaram em comunicados que nenhum desses medicamentos, nem a ivermectina, tem eficácia comprovada contra a doença. Especificamente sobre a ivermectina, a Anvisa afirma, em nota, que “as indicações aprovadas são aquelas constantes da bula do medicamento” –nenhuma é para a Covid-19 e, como a própria autora diz no vídeo, uma das indicações é para o tratamento de piolho.

De acordo com o infectologista Eduardo Sprinz, professor de medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e atual chefe do Serviço de Infectologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, a insistência em tentar tornar esses fármacos como alternativa de tratamento pode ter ligação com “negacionismo, fake news, mídias sociais e razões políticas”. “Não é questão de ser contra ou a favor, e sim de haver indicação. Neste momento, não há indicação.”

O epidemiologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Ricardo Kuchembecker, corrobora com o posicionamento de Sprinz. “Não há evidências científicas de que hidroxicloroquina ou ivermectina, utilizadas individualmente ou em associação, sejam capazes de evitar, bloquear ou reduzir a circulação do Sars-Cov-2, seja no organismo, seja entre as pessoas. Estudos clínicos controlados demonstraram ausência de efeito preventivo e terapêutico na Covid-19. A ivermectina não foi testada em humanos em relação à Covid-19. Ela só foi avaliada em estudos em laboratório (in vitro).”

No vídeo, a médica complementa ser importante que cada indivíduo esteja com níveis altos de vitamina D e que “vitamina C, fruta, legume e exercício físico” são fundamentais para evitar a transmissão. Também não é verdade. Novamente, de acordo com a Anvisa, entre as medidas preventivas recomendadas estão o uso de máscara e a lavagem frequente das mãos –o órgão não cita as ações indicadas pela profissional.

A autora do vídeo que viralizou no Instagram é a médica Raissa Soares. A reportagem tentou contatá-la, mas não obteve retorno até a publicação deste texto.

Quem é a médica

Em seu perfil pessoal no Instagram, Raissa Oliveira Azevedo de Melo Soares afirma ser formada pela Universidade Federal de Minas Gerais. Foi no estado que ela fez seu primeiro registro no Conselho Regional de Medicina, em 1994. Desde março do ano passado, o registro ativo é do Conselho Regional de Medicina da Bahia, com especialidade em clínica médica.

Em junho deste ano, Raissa foi citada em uma verificação do Comprova, classificada como enganosa. Em um vídeo, compartilhado no Facebook, ela defendia o uso da cloroquina para tratamento do coronavírus, com base em experiências pessoais.

Na ocasião, Raissa trabalhava no Hospital Regional Deputado Luis Eduardo Magalhães, em Porto Seguro, era contratada da prefeitura do município e também atuava no Hospital Navegantes. Ela chegou a pedir, por vídeo, ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) que enviasse caixas de hidroxicloroquina para a cidade de Porto Seguro. O pedido foi atendido.

Em sua conta no Instagram, Raissa tem feito postagens que defendem o uso de medicamentos para o que chama de “tratamento precoce”. Em agosto, ela participou do evento Brasil Vencendo a Covid, no Palácio do Planalto, em Brasília. Entre os dias 2 e 4 de outubro, a médica organizou em Porto Seguro o encontro Força Médica Nacional contra a Covid-19.

Como já explicado por especialistas ouvidos nesta verificação, não há comprovação científica da eficácia de um tratamento precoce, profilático, como defende Raissa. O Conselho Regional de Medicina da Bahia, onde ela possui inscrição ativa desde março de 2019, condena a prática adotada por médicos de fazer prescrições públicas e em massa –exatamente o que Raissa faz no vídeo verificado.

Em julho, o conselho publicou em seu site um alerta aos médicos para a “inadequação de prescrição pública ou em massa” –em redes sociais, por exemplo. O texto, publicado no site do conselho, chama a atenção para a o problema da prática não só do ponto de vista ético e legal, mas também pelo risco a que está exposto o paciente medicado por indicação coletiva. Para o Cremeb, esta prática “foge aos limites éticos da medicina”.

“Prescrever indiscriminadamente, em uma rede social, por exemplo, não contempla preceitos básicos da prescrição médica, tais como a individualidade biológica de cada paciente, a possibilidade de monitorar os efeitos adversos e de emitir as advertências de acordo com a situação específica de cada indivíduo. Realizar a orientação em massa ignora também a realização da anamnese, procedimento imprescindível para decisão do caminho terapêutico a ser adotado”, informa o Cremeb.

A reportagem não encontrou processos disciplinares envolvendo Raissa Soares no site do Cremeb e o conselho informou, por meio da assessoria, que não se pronuncia sobre casos específicos, embora a recomendação se aplique ao vídeo da médica.

Verificação

Em sua terceira fase, o Comprova verifica conteúdos ligados às políticas públicas do governo federal e à pandemia. Como estamos em ano eleitoral, em que as disputas políticas estão acirradas, a Covid-19 tornou-se tema de debates em todos os campos e a desinformação que circula nas redes sociais pode custar vidas.

Não obstante, informações sem embasamento científico podem contribuir para que a população acredite em medicamentos sem eficácia comprovada para o tratamento do novo coronavírus, abrindo mão de cuidados com higiene e distanciamento social — ações recomendadas por especialistas e autoridades para conter a doença.

O vídeo divulgado pela médica Raissa no Instagram pregando, erroneamente, o uso profilático de cloroquina e ivermectina teve cerca de 61 mil visualizações até 6 de novembro.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

O Comprova fez esta verificação baseado em dados oficiais sobre o novo coronavírus disponíveis no dia 6 de novembro de 2020.

A investigação desse conteúdo foi feita por Folha, Correio, Poder360 e GZH e publicada na sexta-feira (6) pelo Projeto Comprova, coalizão que reúne 28 veículos na checagem de conteúdos sobre coronavírus e políticas públicas. Foi verificada por UOL, Jornal do Commercio, Mural, Bereia, BandNews e Estadão.

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