Com mais de 95% de ocupação, Einstein adota mudanças para não faltarem leitos

Transferência de cirurgias para unidade Perdizes e priorização de pacientes de SP são algumas das estratégias

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São Paulo

​Quase dez meses após registrar o primeiro caso de Covid-19 no Brasil, o Hospital Israelita Albert Einstein (SP) enfrenta o desafio diário de gerenciar o aumento de internações pela infecção, as outras emergências médicas e as cirurgias inadiáveis, como as oncológicas, as cardiológicas e as neurológicas.

Diferentemente do auge da primeira onda do coronavírus, em que as cirurgias eletivas foram praticamente paralisadas, dessa vez a alta de casos encontrou o Einstein cheio de pacientes de outras especialidades que haviam adiado seus procedimentos no auge da pandemia.

Há um temor entre os médicos da instituição que, diante da pressão da Covid-19, faltem leitos clínicos e cirúrgicos e que seja preciso suspender procedimentos novamente.

Uma série de medidas vem sendo tomadas para aumentar a oferta de leitos, como a transferência de cirurgias menos complexas para a unidade do Einstein em Perdizes (zona oeste).

A instituição também tem recusado pacientes graves de outros estados, com Covid-19 ou outras doenças, que demandem UTI. A decisão ocorreu após o hospital registrar uma fila de espera de 15 pessoas por um leito de UTI.

Foi criado ainda um time de cirurgiões de várias especialidades para agilizar as altas. Muitas vezes, o cirurgião do paciente demorava para passar no quarto e liberá-lo, atrasando o giro de leitos. Agora, caso o médico aceite, essa nova equipe o coloca em contato com o paciente por meio da telemedicina e, se houver aval para a liberação, já autoriza a alta logo cedo.

A Folha visitou o Einstein na última quarta (9) e participou de uma reunião do comitê de crise, na qual profissionais de várias áreas fazem o diagnóstico da situação da Covid-19, com dados internos e externos, como taxa de ocupação de leitos e de positividade de exames, alta de casos e índice de isolamento social do município.

A instituição tem trabalhado diariamente com mais de 95% de ocupação, mas ainda há possibilidade de criar leitos extras. Dos 624 leitos operacionais, 600 estavam ocupados. Dos 132 destinados à Covid-19, só 3 estavam livres.

Na UTI destinada à Covid-19, 35 dos 37 leitos abrigavam pacientes em ventilação mecânica. Entre eles, uma família: pai, mãe e uma filha de 45 anos intubados, lutando contra os efeitos graves da infecção no pulmão e em outros órgãos. Por uma questão de sigilo médico, eles não foram identificados.

A partir de dados acumulados ao longo da pandemia, a equipe consegue projetar todos os recursos disponíveis de acordo com cada caso; estima o tempo de permanência do paciente no leito e faz uma previsão das necessidades nas próximas semanas.

“Nenhum paciente que chega na porta do pronto-socorro deixa de ser atendido. Seja ele Covid ou não Covid. Na primeira fase, vimos pacientes chegarem infartados, já sem possibilidade de tratamento, ou os oncológicos que perderam a janela do diagnóstico e de tratamento”, diz Claudia Laselva, diretora de operações e de enfermagem.

Quando há um aumento inesperado da demanda por leitos, algum freio é necessário, como ocorreu em relação ao veto aos pacientes graves de outras praças para evitar que falte lugar para os de São Paulo.

Na reunião de quarta, um médico do corpo clínico quis saber se o hospital pretende estabelecer um teto de agendamento cirúrgico. Disse que um colega que tinha tentado marcar uma cirurgia para um paciente com câncer de pulmão, e não teve sucesso.

“Esses casos têm prioridade para marcar”, assegurou Nam Jin Kim, gerente de cirurgias e novos serviços do Einstein.

Alesandra Bokor, gerente de pacientes cirúrgicos, explicou que a equipe tem feito um agendamento das demandas da semana, negociando diretamente com os cirurgiões.

“Os [pacientes] oncológicos inadiáveis, a gente vai fazer [o agendamento]. Mas, em algum momento, vamos ter que negociar datas e horários. Quinta e sexta são os dias mais complicados, de maior preferência dos cirurgiões. Vamos tentar jogar isso para outros dias da semana.”

Ela disse que o hospital também aumentou a capacidade da unidade de Perdizes para fazer cirurgias menos complexas. “Já começamos a levar pacientes para lá e a agendar procedimentos.”

O presidente do Albert Einstein, Sidney Klajner, afirma que o hospital está limitando em 110 o número de cirurgias agendadas por dia na unidade do Morumbi. A decisão foi tomada após um pico de 155 procedimentos em um só dia.

“Mas o agendamento não tem passado de 99 cirurgias diárias. Tem muito mais um medo [do corpo clínico e cirúrgico] de limitação do que ela ter que ser exercida de fato. Aí começa a boataria [entre os médicos] na hora do almoço de que vai privilegiar leito clínico ou leito cirúrgico”, conta Klajner.

Ele diz que, até o momento, não foi necessário recusar internação de pacientes de São Paulo e que a tendência nos próximos dias é de queda das cirurgias eletivas devido ao Natal e ao Ano Novo. Se a alta de casos de Covid-19 em São Paulo piorar e, com isso, aumentar ainda mais a pressão por leitos, Klajner vê a possibilidade de cancelamentos de cirurgias adiáveis.

A enfermeira Claudia Laselva espera que isso não aconteça e aposta na capacidade que o hospital adquiriu na gestão dos leitos e na redução dos desperdícios —por exemplo,quando há atraso de uma cirurgia porque um exame não ficou pronto a tempo.

Atualmente, segundo ela, a equipe sabe, em cada tipo de cirurgia, o tempo que o paciente deverá ficar internado.

Uma área do subsolo, antes destinada aos pacientes de quimioterapia, está hoje dedicada aos procedimentos ambulatoriais. “Quando voltam do centro cirúrgico, se recuperam em uma área do hospital que tem vigilância, cuidado, mas não é propriamente um leito hospitalar.”

Outros procedimentos, como a infusão de certas medicações, que demandavam internação, têm sido feitos na casa do paciente por uma equipe treinada.

Segundo Vanessa Teich, superintendente de economia da saúde do Einstein, as projeções feitas no início da pandemia usavam dados internacionais e eram catastróficas, o que fez com que muitos procedimentos necessários fossem adiados —principalmente por medo do paciente.

“É isso que a gente não quer que aconteça. Com o aprendizado da primeira fase, fizemos novas projeções, mas baseadas no nosso próprio histórico de tempo de internação dos pacientes Covid.”

A partir disso, é definido quantos leitos podem ser liberados para as outras especialidades e isso é adequado com a demanda por procedimentos cirúrgicos, segundo explica Nam Jin Kim.

Em uma sala cheia de monitores e telas com gráficos, Laselva e sua equipe conseguem monitorar vários indicadores assistenciais dos pacientes que estão sendo operados, os internados ou os que estão sendo atendidos no pronto-socorro.

Como os todos os prontuários são eletrônicos e os cuidados com o paciente ali registrados, as informações chegam em tempo real para a equipe, composta pelo pessoal da enfermagem e analistas de dados.

Por meio de algoritmos, é possível saber, por exemplo, quais são os medicamentos do hospital que estão atrasados ou se um paciente diabético que está com glicemia elevada não recebeu insulina ou ainda se uma pessoa está com muita dor no pronto-socorro e não foi medicada com analgésico ou anti-inflamatório em até 30 minutos.

“Faço a intervenção imediatamente com o profissional responsável da área, que faz a correção”, explica Laselva. Além de maior segurança ao paciente, o monitoramento também colabora para que ele não fique no hospital mais tempo do que o necessário.

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