Descrição de chapéu Coronavírus

Após meses fotografando a pandemia, desabei na vacinação de idosos em SP

Meu coração esquentou, e tudo que vi nesse ano de coronavírus foi canalizado em choro, misto de alegria e desabafo, um nó na garganta

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Karime Xavier
São Paulo

Desde que a pandemia começou não parei nenhum dia (faz parte da profissão de fotógrafa, que escolhi como meio de compreender o funcionamento do mundo e, dessa maneira, dar um pouco mais do sentido às coisas).

Na última terça-feira (9), o meu coração esquentou, e tudo que vi nesse um ano de coronavírus foi canalizado em choro, misto de alegria e desabafo, um nó passando pela garganta. E eu tentando não deixar acontecer, não queria chorar em pauta. Não deu. Desabei ao fotografar os velhinhos sendo vacinados em São Paulo.

A quietude deles dentro do carro, as mangas das blusas sendo levantadas, aqueles braços fininhos, os olhares de respeito aos técnicos que aplicavam as vacinas... não havia palavras, havia somente olhares em um silêncio de agradecimento.

Fiquei imaginando meus pais tomando a vacina e chorei de novo. Lembrei que meses atrás eu estava ali, naquele mesmo lugar, cobrindo morte, choro, pessoas saindo do hospital de campanha com lágrimas nos olhos, sendo amparadas por familiares e amigos. Me lembrei dos moradores de rua que vivem colados aos muros do local onde a vacinação está acontecendo agora.

Veio tudo à memória e ao coração: os motoboys e suas marmitas magrinhas, os caixões que não paravam de chegar na Vila Formosa, os trens e metrôs vazios, as transexuais na Praça da Sé, pedindo para serem fotografadas (alheias à gravidade de tudo que estava acontecendo), o baile funk de Fortaleza lotado e todos sem máscaras, o choro dos que se curaram e o choro de gente que perdeu gente, o medo do vírus em cada pauta... veio tudo.

Fiquei pensando, também, que quando eu tomar a vacina, bem na hora, vou fazer um “uhhhuuuu”, fazer selfie e sair gritando “viva o SUS”, “viva a ciência” e viva o que tiver de viver.

Voltando à pauta, olho novamente para os velhinhos, alí, quietinhos, passando por essa história e me perguntando: por quê?

É isso, esses dias são tão confusos. Mas, por acaso, a vida é simples?

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