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Grupo de médicos defende tratamento sem eficácia comprovada contra Covid-19 em jornais

Governo federal e Ministério da Saúde defendiam uso de medicamentos do chamado 'kit Covid', mas baixaram o tom

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São Paulo

O grupo intitulado Médicos pela Vida - Covid-19 fez circular um anúncio nesta terça-feira (23) em diversos jornais do país, em defesa do chamado "tratamento precoce" da Covid-19, com o uso de medicamentos como cloroquina, ivermectina, zinco e vitamina D —remédios que já foram descartados pela comunidade científica e médica para o tratamento da doença por não demonstrarem em diversos estudos clínicos a capacidade de barrar o vírus, prevenir a doença ou tratá-la.

O governo federal e o Ministério da Saúde, que já defenderam o uso do 'kit Covid' abertamente, hoje baixam o tom com relação à divulgação dos medicamentos. A estratégia adotada pelo governo de difundir o tal tratamento é investigada pelo MPF (Ministério Público Federal), que também cobra do Exército e da Aeronáutica detalhes dos recursos usados na produção e na distribuição de cloroquina, e a ministra Rosa Weber, do STF (Supremo Tribunal Federal) enviou ao procurador-geral da República, Augusto Aras, uma notícia-crime contra Bolsonaro por distribuir cloroquina no tratamento da Covid-19.

O anúncio, que foi publicado em jornais como esta Folha e O Globo, afirma que o grupo está pautado em estudos científicos atualizados, na informação clara ao paciente e no seu consentimento livre e informado para o uso off-label de medicamentos com os quais têm experiência de longa data. O uso off-label ocorre quando um medicamento é usado para um fim diferente do descrito na bula.

O grupo Médicos pela Vida - Covid-19 lançou em maio de 2020 o seu “Protocolo de Tratamento Pré-Hospitalar Covid-19”. Com 39 páginas, o texto foi formalmente subscrito por 42 médicos e seus respectivos CRMs.

"Este protocolo nasceu da angústia dos médicos que se viram frente a frente com um inimigo desconhecido mas que, a exemplo de Dom Quixote, ergueram a lança e foram para cima do Dragão Covidiano ao grito de 'Vamos à luta para a implementação de um tratamento pré hospitalar!’”, diz o documento em sua apresentação.

Os coordenadores do protocolo são médicos pernambucanos, um oftalmologista, Antônio Jordão de Oliveira Neto, e uma especialista em medicina nuclear, Cristiana Altino de Almeida, com quem a reportagem tentou entrar em contato por email e telefone na época, sem sucesso. O grupo também não atendeu aos pedidos da Folha nesta terça-feira para se manifestar sobre os anúncios publicados em jornais.

Embora remédios como cloroquina e ivermectina sejam usados há décadas para outros objetivos, como o tratamento da malária e de doenças causadas por vermes, isso não significa que possam ser consumidos com segurança por todas as pessoas igualmente. As evidências mais recentes indicam, na verdade, que a cloroquina pode causar arritmia cardíaca, e o quadro pode se complicar ainda mais, uma vez que a infecção pelo coronavírus Sars-CoV-2 também pode levar a alterações maléficas no coração.

Cartelas de cloroquina e hidroxicloroquina - AFP

No início de fevereiro, a farmacêutica Merck (MSD no Brasil) divulgou um comunicado afirmando que não há evidências pré-clínicas nem clinicas de eficácia da ivermectina no combate à Covid-19. A empresa foi a produtora inicial da droga.

"As melhores evidências científicas demonstram que nenhuma medicação tem eficácia na prevenção ou no 'tratamento precoce'para a Covid-19 até o presente momento. Pesquisas clínicas com medicações antigas indicadas para outras doenças e novos medicamentos estão em pesquisa. Atualmente, as principais sociedades médicas e organismos internacionais de saúde pública não recomendam o tratamento preventivo ou precoce com medicamentos, incluindo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), entidade reguladora vinculada ao Ministério da Saúde do Brasil", diz trecho de texto divulgado em janeiro deste ano pela Sociedade Brasileira de Infectologia e pela Associação Médica Brasileira.

Médicos que trabalham com os pacientes de Covid-19 afirmam que o tratamento deve ser individualizado e pode, em alguns casos, incluir o uso de antibióticos (quando a infecção viral abre caminho para uma infecção bacteriana) e corticoides, que já demonstraram em pesquisas a capacidade de reduzir mortes pela doença em pacientes graves.

O CFM (Conselho Federal de Medicina) não recomenda o uso de medicamentos do chamado "kit Covid", como a cloroquina, para o tratamento da Covid-19, mas reconhece a autonomia do médico para prescrever o uso aos pacientes.

O conselho deliberou que é decisão do médico realizar o tratamento que julgar adequado, desde que com a concordância do paciente infectado —elucidando que não existe benefício comprovado no tratamento farmacológico dessa doença e obtendo o consentimento livre e esclarecido.

O presidente do conselho, Mauro Luiz de Britto Ribeiro, afirmou em artigo publicado na Folha em janeiro deste ano que "a ciência ainda não concluiu de maneira definitiva se existe algum benefício ou não com o uso desses fármacos".

A presidente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) Gulnar Azevedo, médica e professora no Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), afirmou que o anúncio é lamentável.

"Lamentamos que ainda existam médicos brasileiros que não reconheçam que já foi comprovado que não há eficácia para esses remédios. Pelo contrário, os estudos mostram que pessoas que fizeram o uso podem ter o quadro agravado", diz Azevedo.

"Nossa posição é de continuar seguindo o que a ciência tem mostrado, e é obrigação dos médicos tratar os pacientes da melhor forma possível, considerando as boas práticas no tratamento da Covid-19", afirma a médica.

Para Azevedo, o anúncio confunde a população, passa uma informação que não é verdadeira e induz respostas indesejadas em um momento em que a pandemia faz o país registrar mais de 30 dias seguidos com a média móvel acima de mil casos por dia.

A ANJ (Associação Nacional de Jornais) disse à Folha que não se manifestaria a respeito do anúncio. Ao Congresso em Foco a associação afirmou não ter uma posição específica sobre o caso. "Mas defendemos, naturalmente, a liberdade de expressão, que vale também para essa nota [anúncio]".

Na página de internet do grupo Médicos pela Vida há uma relação com nomes e números de registros (CRM) de quase 4.000 médicos que assinam o manifesto pelo uso do "tratamento precoce". Dos seis médicos que encabeçam o movimento, nenhum é infectologista.

A página disponibiliza também uma petição pela não obrigatoriedade das vacinas contra a Covid-19. Os imunizantes contra a doença atualmente distribuídos à população passaram por todas as fases de testes clínicos necessárias antes da aprovação para uso e, mesmo já aplicadas em milhões de pessoas ao redor do mundo, mantêm o perfil de segurança esperado pelas agências regulatórias e autoridades de saúde.​

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