Descrição de chapéu DeltaFolha Coronavírus

Imunidade de rebanho está longe, mesmo com avanço das vacinas, dizem especialistas

Velocidade de imunização e duração de proteção são entraves; há discussão se reabertura deva acelerar após vulneráveis já estarem vacinados

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São Paulo

A tão esperada imunidade de rebanho, que pode recolocar as atividades sociais próximas do normal, não deve ser atingida neste ano, mesmo com o avanço da vacinação contra a Covid-19.

O entendimento vem ganhando força entre pesquisadores nos Estados Unidos devido especialmente à insuficiente velocidade na vacinação e à possibilidade do surgimento de novas variantes, mais transmissíveis e agressivas. Modelos estatísticos reforçam essa avaliação.

O panorama pessimista levanta a discussão de como as sociedades deverão agir nos próximos meses, dado que a proteção ideal não deve vir tão cedo. A questão discutida é se será possível retomar atividades sociais a partir do momento que populações vulneráveis já estejam vacinadas, sem esperar que o patamar de imunização geral esteja perto de 80% .

A situação no Brasil é mais crítica, pois o ritmo de vacinação é menor do que nos EUA, e as vacinas aplicadas atualmente têm eficácia mais baixa, o que dificulta a chegada à imunidade de rebanho.

Esse termo significa o momento em que uma população está suficientemente protegida, e o vírus não consegue mais se propagar em velocidade. Tradicionalmente, essa proteção é alcançada por meio da vacinação.

Como o novo coronavírus se espalhou rapidamente, parte dos epidemiologistas coloca como hipótese que o grande número de infectados também possa contribuir para a imunidade de rebanho (o que não é consenso, pois a imunidade dos contaminados pode ter duração e proteção menores do que dos vacinados).

Cientista de dados formado no MIT, Youyang Gu apresentou neste mês modelo estatístico que projeta a população americana protegida nos próximos meses, seja por vacinação, seja por contaminação.

Hoje na casa dos 30%, o total de imunizados, segundo o modelo, não chegará nem em janeiro de 2022 a 80%, o patamar usado com frequência em estudos embora não haja um número oficial para definir o rebanho.

Youyang utiliza machine learning (técnica em que o computador "aprende" a encontrar padrões em grandes bases de dados) para estimar a evolução de vacinados e infectados. O cientista ficou conhecido por ter desenvolvido um dos melhores modelos estatísticos para indicar o real impacto da Covid, com resultados usados por órgãos oficiais, como o CDC (Centro de Controle de Doenças).

Em sua projeção, os EUA imunizaram 7% da população até o momento. A estimativa dele considera eficácia de 85% das vacinas (patamar ajustado esperado para as doses da Pfizer e Moderna, que têm sido as distribuídas naquele país).

O cálculo busca identificar a quantidade de americanos efetivamente imunizados, o que é diferente do número de vacinas distribuídas, que podem não ter sido ainda aplicadas ou podem ter sido perdidas no processo de logística, além de considerar o tempo para que o imunizante comece a fazer efeito (três semanas).

Os americanos distribuíram cinco vezes mais doses do que os brasileiros, já ponderando pelos tamanhos das populações. E as vacinas distribuídas no Brasil, a Oxford/AstraZeneca e a Coronavac, têm eficácia menor do que as presentes nos EUA.

Quanto menor a eficiência da vacina, mais gente precisa dela para se alcançar a imunidade de rebanho.

Num estudo publicado no sábado (20) pelo New York Times, o grupo americano de pesquisa chamado PHICOR mostrou diferentes projeções para que aquele país chegue ao número mágico. A previsão mais otimista é que seja em julho, mas os próprios pesquisadores são céticos.

Um dos temores é que as pessoas infectadas percam em pouco tempo a imunidade, o que postergaria a chegada ao patamar ideal.

Israel tem sido apontado como exemplo de como a vacinação pode ajudar no combate à pandemia. O país já vacinou cerca de 50% da população, e entre os maiores de 60 anos, o índice passou de 80%. Mortes e hospitalizações começaram a cair.

Mas o ritmo de imunização contra a Covid que os israelenses imprimiram parece improvável de ser replicado no curto prazo (o país foi atrás de diferentes laboratórios, de forma agressiva, antes mesmo de as vacinas estarem disponíveis).

Israelenses em fila para receber dose da vacina da Pfizer em um ginásio na cidade de Petah Tikva - Jack Guez - 01.fev.2021/AFP

Diante da dificuldade de se atingir a imunidade de rebanho, o cientista de dados Youyang defende que deve ficar em segundo plano o objetivo de se alcançar grandes proporções de vacinados na população como um todo, e que a meta passe a ser reduzir mortes e hospitalizações.

A volta ao normal, afirmou o pesquisador à Folha, deve ocorrer assim que sejam vacinados todos os que precisam e que queiram (e não apenas quando ao menos cerca de 80% da população total esteja com alguma proteção).

A avaliação do cientista de dados é compartilhada pelo epidemiologista Marc Lipsitch, professor da Universidade Harvard.

Num debate online realizado em dezembro pelo Jama (periódico da Associação Médica Americana), ele defendeu que a vida possa voltar razoavelmente ao normal nos EUA quando estiverem imunizados todos os mais vulneráveis, o que pode representar entre 20% e 40% da população geral, segundo ele.

“Não precisamos ter transmissão zero para termos uma vida decente. Há doenças sendo transmitidas a todo o momento, matando pessoas, nem por isso fechamos tudo”, afirmou.

Segundo o pesquisador, se a população mais vulnerável estiver vacinada, “com uma vacina realmente efetiva”, para as demais pessoas a Covid passará a ser simplesmente uma doença contornável. “É um caminho mais claro para chegarmos perto de algo do normal, em vez de perseguirmos a real imunidade de rebanho.”

O epidemiologista disse explicitamente que a proteção deve ocorrer por meio da vacinação eficaz dos vulneráveis. Ele chamou de loucos os que defendem que o vírus deva circular livremente, para que a proteção chegue via grande número de contaminados.

Médicos têm defendido que, mesmo quando as atividades sociais começarem a ser retomadas, as pessoas deverão continuar seguindo regras de distanciamento social e uso de máscara, pois a proteção ideal estará longe de ser atingida.

Ana Luiza Bierrenbach, conselheira técnica sênior da iniciativa Vital Strategies, concorda que a vida social possa começar a ser retomada desde que as populações mais vulneráveis estejam imunizadas —ainda que se deva seguir buscando a vacinação de grandes proporções da população.


​Em geral, são apontados como vulneráveis idosos e pessoas com comorbidades. Bierrenbach afirma que as populações mais pobres devam ser incluídas nessa categoria e, portanto, passem a ser prioritárias para a vacina.

Essa população sofre mais dificuldade em se manter em isolamento social, pois mora em geral em locais muito densos e está em ocupações em que há poucas possibilidades para home office. “É uma discussão que precisa ser feita. Ao fim desta primeira etapa que prioriza idosos e profissionais de saúde, quem serão os próximos?”, questiona.

A epidemiologista diz ser normal as pessoas pensarem na vacina como uma proteção individual, mas, especialmente neste momento de escassez, a imunização precisa ser pensada de forma coletiva —ou seja, deve-se buscar o maior impacto que cada dose vai ter. “Imunizar os mais vulneráveis é um apoio para toda a sociedade.”

Professor de imunologia da Unicamp, Alessandro de Farias é cético em relação à ideia do retorno às atividades sem que haja grande parcela da população vacinada.

“Quanto mais gente infectada, maior a chance de termos variantes. Até agora, elas são mais transmissíveis, mas não mais graves. E se começarem a aparecer formas mais graves ou que infectem crianças?”, afirmou. “O que está em jogo é o risco que queremos correr.”

Para Leonardo Weissmann, infectologista do Instituto Emilio Ribas, se entre 60% e 80% da população estiver imunizada, o objetivo estará alcançado. “Mas é impossível afirmar com precisão qualquer previsão de data, muito provavelmente será depois de 2021.”

Os especialistas locais ouvidos afirmaram que o Brasil teria condição de estar numa velocidade muito maior de vacinação do que a atual. O país é referência em campanhas nacionais de imunização, chegando a vacinar em média mais de um milhão de pessoas por dia contra a gripe, expertise que os EUA , por exemplo, não têm.

Atualmente, são cerca de 200 mil vacinados contra a Covid diariamente no Brasil. O problema é que não houve aquisição de vacinas para alimentar o sistema de forma plena.

“É necessário planejamento e maior quantidade de vacinas, para todos os países. Enquanto isso, as pessoas precisam continuar respeitando as orientações de precaução para a transmissão do vírus, como distanciamento físico, uso de máscaras e higienização frequente das mãos”, disse Weissmann.

A imunidade

Há dúvidas sobre como chegar à imunidade de rebanho. Além de não haver percentual consagrado que indique que a população esteja realmente protegida, também há incerteza sobre os fatores que levariam a essa proteção.

As vacinas têm mostrado boa eficácia em evitar que as pessoas adoeçam, mas ainda é incerto o quanto evitam a transmissão do vírus —confirmado um cenário pessimista, vacinados seguiriam contaminando muitas pessoas.

Também há dúvidas sobre o período em que as pessoas ficam protegidas, considerando os vacinados e, especialmente, os infectados.

Em Manaus, epicentro da primeira onda de mortes no Brasil (em maio), o índice de infecção chegou a 76% da população, segundo estudo publicado na revista Science com dados até outubro. A cidade, porém, voltou a ser um epicentro na segunda onda, a atual, com média diária de mais de cem mortos.

Entre as hipóteses para o fenômeno estão as de que os números sobre infectados no estudo seriam incorretos e a nova onda decorreria da variante local do vírus. Mas é possível, também, que isso tenha ocorrido por o período de proteção de um infectado ser pequeno.

Por outro lado, na Índia, a imunidade de rebanho por meio de infectados é uma das hipóteses levantadas para o rápido declínio no número de novos casos desde o fim do ano passado, meses após o rápido crescimento de infecções confirmadas no país.

Colaborou Leonardo Diegues

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