Presença de anticorpos contra a Covid no leite materno leva mães vacinadas a reiniciar a amamentação

Vários estudos mostram que leite materno contém anticorpos, mas como exatamente os anticorpos protegem o bebê da Covid não está claro

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Heather Murphy
The New York Times

Assim que Courtney Lynn Koltes voltou para casa depois de tomar a primeira dose da vacina contra Covid-19, pegou uma bomba de tirar leite. Ela havia parado de amamentar sua filha cerca de dois meses antes, mas recentemente soube de pesquisas que sugerem que anticorpos de uma mãe vacinada podem ser transmitidos ao bebê por meio do leite.

Conseguir que o leite fluísse de novo —processo conhecido como relactação— não foi fácil. Ela planejava bombear de duas em duas horas entre as 7h e as 23h. Mas Koltes e seu marido estavam ansiosos para finalmente apresentar sua filha de quatro meses aos parentes, e como as crianças ainda não podiam se vacinar ela decidiu tentar.

"Começo a ver um progresso muito lento, mas tudo é válido se significar que posso protegê-la", disse Koltes, que vive em Orange County, na Califórnia, nove dias depois de receber a primeira dose da vacina da Pfizer-BioNTech.

Em parte por ser fisicamente cansativa, a relactação não é comum —muitas vezes exige medicação. Mas nas últimas semanas fóruns online dedicados à relactação foram inundados por mães recém-vacinadas como Koltes. Algumas tinham parado de amamentar mais de um ano atrás.

"Estou contente por não ser a única aqui tentando relactar por esse motivo!", escreveu uma mulher em um grupo privado no Facebook. "Vai, time da vacina!", escreveu outra.

Em forte contraste, outros fóruns de criação de filhos e amamentação estão cheios de preocupações de que o leite de uma mãe recém-vacinada possa ser perigoso. Não só os céticos da vacinação têm encorajado esses temores, que segundo os pesquisadores são infundados; alguns pediatras e administradores de vacinas têm pedido que as mães lactantes descartem seu leite depois que são vacinadas.

Então o que é melhor? O leite de uma mulher vacinada é uma espécie de elixir capaz de afastar a Covid? Nesse caso, as mães recém-vacinadas que estão colocando seu leite nos cereais das crianças mais velhas, ou dividindo-o com bebês de amigas, têm alguma razão? Ou as mães lactantes devem parar de amamentar após serem vacinadas?

A resposta, segundo seis pesquisadores, é que as mães recém-vacinadas estão certas por sentir que têm um novo superpoder. Diversos estudos mostram que seus anticorpos gerados após a vacinação podem realmente ser transmitidos pelo leite materno. E, como em tantas coisas ligadas ao coronavírus, seria bom ter mais pesquisas. Mas não há um motivo concreto para que as novas mães adiem a vacinação ou joguem fora seu leite, segundo eles.

O "leite materno vacinado" contém anticorpos?
Sim, vários estudos mostram que ele contém anticorpos. Como exatamente os anticorpos protegem o bebê da Covid não está claro.

Nos primeiros nove meses da pandemia, cerca de 116 milhões de bebês nasceram no mundo todo, segundo estimativas da Unicef. Isso deixa os pesquisadores em dificuldade para responder a uma pergunta crítica: o vírus poderia ser transmitido pelo leite materno? Algumas pessoas achavam que sim.

Mas vários grupos de pesquisadores testaram o leite e não encontraram vestígios do vírus, só anticorpos, sugerindo que tomar o leite poderia proteger as crianças da infecção.

A próxima grande pergunta para os pesquisadores do leite materno era se os benefícios protetores de uma vacina para Covid poderiam ser transmitidos para os bebês. Nenhum dos testes da vacina incluiu mulheres grávidas ou lactantes, por isso os pesquisadores tiveram de encontrar mulheres lactantes que se qualificassem para a primeira vacina distribuída.

Por meio de um grupo no Facebook, Rebecca Powell, uma imunologista de leite humano na Escola de Medicina Icahn no Mount Sinai em Manhattan, encontrou centenas de médicas e enfermeiras dispostas a compartilhar periodicamente seu leite. Em seu estudo mais recente, que não foi publicado formalmente, ela analisou o leite de seis mulheres que tinham recebido a vacina da Pfizer-BioNTech e quatro que tinham tomado a da Moderna, 14 dias depois de elas receberem a segunda dose. Ela descobriu um número significativo de um determinado anticorpo, chamado IgG, em todas elas. Outros pesquisadores tiveram resultados semelhantes.

"Há motivos para estar entusiasmados", disse a doutora Kathryn Gray, especialista em medicina fetal maternal no Hospital Brigham and Women’s em Boston, que conduziu estudos parecidos. "Nós supúnhamos que pudesse conferir um certo grau de proteção."

Mas como saber com certeza? Uma maneira de testar isso —expondo os bebês ao vírus— é antiética, é claro. Alguns pesquisadores tentaram responder à pergunta estudando as propriedades dos anticorpos. Eles são neutralizadores, ou sejam, impedem que o vírus infecte células humanas?

Em um esboço de um pequeno estudo, um pesquisador israelense descobriu que eram. "O leite materno tem a capacidade de impedir a disseminação viral e bloqueia a capacidade dos vírus de infectar células que resultarão em doença", disse Yariv Wine, imunologista aplicado na Universidade de Tel Aviv.

A pesquisa também é prematura para que mães vacinadas que estão amamentando ajam como se seus bebês não possam ser infectados, disse Kirsi Jarvinen-Seppo, chefe de alergia pediátrica e imunologia no centro médico da Universidade de Rochester. A doutora tem conduzido estudos semelhantes. "Não há evidência direta de que os anticorpos para Covid no leite materno estejam protegendo o bebê, só pedaços de evidência sugerem que isso esteja ocorrendo", disse ela.

Quanto tempo a proteção pode durar?
Enquanto o bebê estiver consumindo o leite materno contendo anticorpos.

Os gêmeos de Destiny Burgess nasceram prematuros. Ela e seu marido voltaram ao trabalho em Asheville, na Carolina do Norte. Um de seus filhos mais velhos está no jardim de infância. Dois estão em creches. Tudo isso deixa a mãe preocupada com seus bebês, hoje com três meses.

Quando uma amiga vacinada se ofereceu para compartilhar seu leite com os gêmeos, ela aceitou.
"Sinto que tenho um novo superpoder", disse a amiga, Olivia de Soria. Além de amamentar seu bebê de quatro meses e colocar um pouco de seu leite no achocolatado do filho de três anos, De Soria agora divide o leite com outras cinco famílias.

"Elas não podem ser vacinadas, então isto me dá um pouco de tranquilidade", disse Burgess. Mas ela se pergunta quanto "leite vacinado" seria necessário para fazer diferença.

A resposta não satisfatória é que não está claro. O que os pesquisadores concordam é que um bebê que consome leite materno o dia todo tem maior probabilidade de estar protegido do que um que só recebe uma pequena quantidade ocasional. Mas nenhum deles rejeita a ideia de dar um pouco para crianças mais velhas, se não for um problema.

Eles também concordam que os benefícios protetores do leite materno funcionam mais como uma pílula que você tem de tomar todos os dias do que uma injeção que dura uma década. Essa defesa em curto prazo, conhecida como "proteção passiva", pode durar apenas horas ou dias após a última "dose" do bebê, disse a doutora Powell. "Não é a mesma coisa que o bebê ser vacinado", ela acrescentou.

Isso significa que "assim que você parar de amamentar não há proteção, ponto", disse Antti Seppo, outro pesquisador de leite materno na Universidade de Rochester. Seppo também descobriu que levou cerca de duas semanas depois da primeira dose de vacina para que os anticorpos aparecessem no leite, e que eles atingiram o pico depois da segunda dose.

Como sabemos se o "leite materno vacinado" é seguro?
Pesquisadores dizem que sabem o suficiente sobre como as vacinas costumam afetar o leite materno para não se preocuparem.

Vários pesquisadores envolvidos no estudo de leite materno e da vacina para Covid deram ligeiras variações da mesma opinião. "Não há motivo para pensar que haja algo nesta vacina que possa causar danos, e há motivos para se acreditar que possa ser benéfica", disse Christina Chambers, codiretora do Centro para Melhores Começos na Universidade da Califórnia em San Diego.

Então por que os fóruns de pais estão cheios de casos sobre pediatras que dizem às mães para esperar para tomar a vacina quando seu bebê for mais velho ou jogar fora o leite depois da vacinação? Na maioria, porque as mães lactantes não foram incluídas em testes de vacinas, por isso os pesquisadores não puderam estudar os riscos concretamente.

Mas a confiança dos pesquisadores em que o leite de mães vacinadas para Covid-19 é seguro vem do que se conhece em geral sobre como as vacinas funcionam.

"Ao contrário da gravidez, onde há preocupações de segurança teóricas, realmente não há preocupações sobre a lactação e a vacinação", disse Kathryn Gray.

Tanto o produto da Moderna como o da Pfizer-BioNTech são vacinas de mRNA. "Os ingredientes na vacina são moléculas de mRNA que têm um período de vida curto e não têm como chegar ao leite", disse Seppo.

Então a relactação realmente vale a pena?
Talvez não, decide uma mãe que em princípio estava entusiasmada.

Quase duas semanas depois, Koltes, do Orange County, só estava conseguindo bombear algumas gotas de leite em cada sessão. Uma troca de emails com seu pediatra reforçou que ela não podia ter certeza, mesmo que conseguisse extrair o leite, de que seria seguro deixar parentes sem máscara e não vacinados segurarem sua filha. Ela aplaudiu outras mulheres que tiveram mais sucesso na relactação, mas para ela estava terminado.

"Dá a sensação de que um peso foi retirado", disse ela sobre abandonar o rígido esquema de bombeamento. Agora só resta esperar por uma vacina verdadeira para sua filha, disse ela. A Pfizer e a Moderna começaram recentemente a testar suas vacinas em bebês de 6 meses.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.