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Matéria-prima do futebol brasileiro vira lucro para clubes da Europa

Jovens vão para times menores e são revendidos valorizados anos mais tarde

Jogador Malcon grita, de punho fechados, para comemorar seu gol com a camisa do Barcelona em amistoso
O brasileiro Malcom comemora um gol pelo Barcelona durante amistoso internacional - Cooper Neill/AFP
Alberto Nogueira Eduardo Geraque
São Paulo

​​A venda do jogador Malcom na atual janela de transferências é emblemática. O ex-corintiano de 21 anos saiu do Bordeaux (FRA) para o Barcelona por 41 milhões de euros (R$ 180,5 milhões).

O atacante fora vendido pelo Corinthians à equipe francesa em 2016, aos 18 anos, por 5,2 milhões de euros (R$ 22,85 milhões) —valores corrigidos pela inflação. Os franceses embolsaram uma valorização de 688% em relação ao valor pago ao time brasileiro.

O exemplo do corintiano é retrato de um fenômeno recente entre jogadores brasileiros. Vendidos jovens para clubes menores da Europa, são repassados para equipes de mais projeção anos depois, por valores muito maiores.

“O primeiro negócio [ida à Europa] é a conta de uma expectativa. Por isso que muitas vezes pode-se pensar que o valor é baixo. Quando o jogador está na Europa, com resultados e mostrando do que é capaz, ele acaba valendo mais”, diz Giuliano Bertolucci, empresário de jogadores, como Willian, do Chelsea (ING).

A chegada do volante Fred ao Manchester United (ING) é outro sinal de que são os europeus, e não os brasileiros, que estão lucrando com os jovens jogadores nacionais.

Os ingleses, nesta janela, investiram 59 milhões de euros (R$ 259,11 milhões) no jogador da seleção brasileira. O valor é 281% maior do que foi pago pelo Shakhtar (UCR) ao Internacional, em 2013, quando o time desembolsou 15,5 milhões de euros (R$ 68,07 milhões) pelo volante brasileiro.

Segundo Zé Maria, empresário do goleiro Alisson, um dos motivos da valorização do atleta do país em uma negociação entre clubes da Europa se dá por não existir mais a desconfiança se ele dará certo no futebol do continente.

“Eles [clubes] querem normalmente dois anos de experiência. Quando o jogador passa por isso [adaptação na Europa], que inclui desempenho e comportamento dentro e fora de campo, ele é valorizado”, afirma.

Allison, titular da seleção na Copa do Mundo, transferiu-se da Roma (ITA) ao Liverpool (ING) por 60 milhões de euros (R$ 263,42 milhões) e se tornou o goleiro mais caro da história. Sua saída do Internacional para a Itália foi em 2016, aos 23 anos, por 8,2 milhões de euros (R$ 35,98 milhões).

Outros times europeus também lucraram com brasileiros na última temporada.

A Lazio (ITA) pagou 7,8 milhões de euros (R$ 34,27 milhões) ao Santos pelo meia Felipe Anderson , então com 20 anos, em 2013, e o vendeu em julho deste ano ao West Ham (ING) por 38 milhões de euros (R$ 166,97 milhões).

O lateral direito e volante Fabinho foi outro jogador valorizado ao final da temporada 2017/2018. Na mais recente negociação em que foi envolvido, o brasileiro transferiu-se ao Liverpool (ING) e rendeu 45 milhões de euros (R$ 197,63 milhões) ao Monaco (FRA).

Ele deixou o Fluminense aos 18 anos, em 2012, para jogar no Rio Ave (POR), em uma transação de 534 mil euros (R$ 2,34 milhões). Depois, em 2015, foi vendido pelo clube português ao francês por 6,2 milhões de euros (R$ 27,23 milhões).

Para o advogado Marcos Motta, que tem o atacante Neymar entre os clientes, isso ocorre pois o Brasil é um “exportador de matéria-prima” e possui, assim como os demais países sul-americanos, uma liga de nível mais baixo se comparada às europeias.

“O mercado rejuvenesceu. A busca é sempre pelo jogador muito jovem. Somos vendedores de promessas”, diz.

Para Motta, o jogador só se torna o melhor quando enfrenta os melhores. O advogado afirma que costuma instruir os jovens a não irem para clubes de ponta da Europa na primeira transferência. Como a concorrência é grande, o atleta corre risco de não jogar.

Um clube que se aproveita disso é o Shakhtar. A equipe tem uma estrutura montada no Brasil com olheiro e empresário para levar atletas jovens a preços baixos e depois lucrar com uma venda futura.

Nesta janela, Maycon, 21, Fernando, 19, e Marquinhos Cipriano, 19, deixaram Corinthians, Palmeiras e São Paulo, respectivamente, rumo ao clube ucraniano. Dos três, o ex-volante corintiano é o mais conhecido.

Campeão brasileiro de 2017, foi negociado com os ucranianos por 6,6 milhões de euros (R$ 29 milhões).

Já o ex-palmeirense Fernando era considerado uma das pérolas da base do clube. A saída precoce do atacante rendeu 5,5 milhões de euros (R$ 24,5 milhões), dos quais o Palmeiras ficou com 90%. Ele tinha contrato até 2022.

O mais barato dos três foi o ex-são-paulino Marquinhos Cipriano, 19. Ele assinou pré-contrato com o Shakhtar seis meses antes do fim de seu vínculo com o clube. Poderia deixar a equipe sem pagamento de multa, mas o time do leste europeu pagou 1 milhão de euros pela liberação antecipada.

O São Paulo evitou passar situação parecida com o lateral e zagueiro Éder Militão, 20, negociado com o Porto (POR), outro clube acostumado a fazer dinheiro com a venda de jogadores brasileiros.

O são-paulino foi negociado por 7 milhões de euros (cerca de R$ 30 milhões). O São Paulo garantiu 10% de uma futura venda. De acordo com o clube, foi uma imposição para aceitar negociá-lo agora, que será usada sempre que possível em outros negócios.

Maycon, Fernando e Marquinhos Cipriano estão dentro do perfil procurado pelo Shakhtar, de jogadores jovens, rápidos, com passagens por seleções de base e considerados baratos. Ótimas oportunidades de lucro futuro, segundo fonte ligada ao clube.

A estratégia é bem diferente da praticada por gigantes como Real Madrid e Barcelona. Nessa janela, eles apresentaram Vinícius Junior (ex-Flamengo), 18, e Arthur (ex-Grêmio), 21, contratados por R$ 197,72 milhões e R$ 136,21 milhões, respectivamente.

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