Em busca de visibilidade e dinheiro, esportes olímpicos mudam torneios

Competições tradicionais, como a Copa Davis e o Mundial de basquete, passam por reformulação

Troféu da Copa Davis
O troféu da Copa Davis é apresentado antes da disputa da final entre França e Bélgica, na edição de 2017 - Philippe HUGUEN - 23.nov.2017/AFP
Marcelo Laguna
São Paulo

As recentes mudanças aprovadas para a Copa Davis de tênis não foram um fato isolado no esporte internacional. Algumas modalidades olímpicas estão implementando alterações consideráveis em suas competições, buscando maior visibilidade para patrocinadores —e, por tabela, mais dinheiro.

A ITF (Federação Internacional de Tênis) aprovou em agosto profundas alterações em sua mais antiga competição, criada em 1900. Entre outras mudanças, o torneio terá fase final com sede fixa e 18 países participantes divididos em grupos, formato similar a competições de futebol.

Não por acaso. A alteração ocorreu com a promessa de investimento de US$ 3 bilhões (R$ 12,5 bilhões) nos próximos 25 anos pelo grupo europeu Kosmos, que tem entre seus acionistas o zagueiro Gerard Piqué, do Barcelona.

O zagueiro Piqué, do Barcelona e principal acionista do grupo Kosmos de investimento, comemora com David Haggarty (à direita), presidente da Federação Internacional de Tênis, as mudanças na Copa Davis
O zagueiro Piqué, do Barcelona e principal acionista do grupo Kosmos de investimento, comemora com David Haggarty (à direita), presidente da Federação Internacional de Tênis, as mudanças na Copa Davis - Gregg Newton - 16.ago.2018/AFP

Assim como no tênis, o basquete internacional também experimenta uma mudança radical em um de seus mais importantes torneios.

O Mundial masculino —rebatizado de Copa do Mundo— será realizado na China em 2019 com mais participantes e um novo formato. 

Além de aumentar o número de seleções de 24 para 32, a Fiba (Federação Internacional de Basquete) mudou o sistema de classificação, com jogos espalhados de novembro de 2017 a fevereiro de 2019, sistema parecido ao das eliminatórias do Mundial de futebol.

No próximo dia 13 de setembro, a seleção brasileira estreia na segunda fase do qualificatório das Américas enfrentando o Canadá na cidade de Laval. No segundo jogo desta janela, dia 16, receberá em Goiânia a equipe das Ilhas Virgens.

“A grande sacada da Fiba, na minha opinião, foi aproximar as seleções de suas torcidas”, afirmou Renato Lamas, gerente técnico das seleções masculinas da CBB (Confederação Brasileira de Basquete).

“No formato da antiga Copa América, com sede única, isso é mais complicado. Neste novo modelo, já jogamos no Rio, em Goiânia, vamos repetir Goiânia agora. Pode ser que em uma próxima janela a gente jogue em São Paulo ou Recife”, completou.

O pivô Anderson Varejão
O pivô Anderson Varejão sobe para fazer dois pontos na vitória do Brasil sobre a Venezuela por 72 a 60, no Rio de Janeiro, pela primeira fase do qualificatório das Américas da Copa do Mundo 2019, na China - Divulgação/FIBA - 27.nov.2017

A Fiba diz que o aumento de exposição das seleções foi o ponto principal para implementar as alterações.

“As competições de seleções nacionais estavam ocorrendo apenas entre agosto e setembro, reduzindo a visibilidade das equipes. Ao contrário de outros esportes coletivos, não havia jogos regulares para as seleções em casa”, afirmou a Fiba sobre as mudanças.

A entidade alega também que este novo sistema trará benefícios para os atletas, reduzindo, de acordo com seus cálculos, a carga de trabalho de 20% a 25%, dependendo do continente. A questão financeira sobre as mudanças nas eliminatórias, contudo, ainda é uma incógnita.

“Os gastos ainda são grandes. Vamos para o Canadá no dia 7 e faremos lá a preparação para o jogo, no dia 13. Depois, retornamos ao Brasil para o segundo jogo. Antes, com a Copa América, era uma viagem só para fazer toda a competição. Teoricamente, você compensa isso com a venda de ingressos e direitos de TV”, disse Lamas.

O queniano Richard Kipkemboi Mateelong (à direita) participa da prova dos 3.000 m com obstáculos, representando a equipe da África, durante a edição de 2010 da Copa Continental, em Split (CRO)
O queniano Richard Kipkemboi Mateelong (à direita) participa da prova dos 3.000 m com obstáculos, representando a equipe da África, durante a edição de 2010 da Copa Continental, em Split (CRO) - Darko Bandic - 5.set.2010/Associated Press

No atletismo, a revitalização de um antigo torneio veio acompanhada de uma bela compensação em dinheiro.

Disputada pela primeira vez em 1977, a antiga Copa do Mundo era um torneio por equipes dos cinco continentes e equipes individuais dos EUA, URSS (depois Rússia), Grã-Bretanha e uma equipe do país-sede. Ficou em segundo plano após a criação do Campeonato Mundial, em 1983.

Rebatizado pela Iaaf (Associação Internacional de Federações de Atletismo) de Copa Continental em 2010, o torneio é realizado a cada quatro anos, com a participação de equipes da Europa, Américas, África e Ásia/Pacífico.

Em sua terceira edição, marcada para Ostrava, na República Tcheca, nos dias 8 e 9 de setembro, a competição agora será embalada por uma premiação de US$ 2,5 milhões (R$ 10,4 milhões).

A Copa Continental tem como uma das estratégias para atrair as maiores estrelas do atletismo mundial prêmios para as 34 provas individuais.

O vencedor embolsa US$ 30 mil (R$ 124,5 mil), o segundo US$ 15 mil (R$ 62,2 mil) e assim por diante, até US$ 1 mil (R$ 4,1 mil) para o oitavo. Ou seja, todo mundo sai ganhando.

Como comparação, a Liga Diamante, principal circuito de provas de atletismo, distribuí US$ 100 mil (R$ 415,1 mil) em prêmios por prova, contra US$ 75 mil (R$ 311,4 mil) da Copa Continental.

O vôlei também mudou uma das principais competições de seu calendário internacional tendo a questão financeira como pano de fundo.

Jogadoras da seleção dos Estados Unidos comemoram a conquista da Liga das Nações de vôlei de 2018, após derrotar a Turquia na final, disputada em Nanjing (CHN)
Jogadoras da seleção dos Estados Unidos comemoram a conquista da Liga das Nações de vôlei de 2018, após derrotar a Turquia na final, disputada em Nanjing (CHN) - Li Xiang - 1.jul.2018/Xinhua

Neste ano, a Liga Mundial masculina e o Grand Prix feminino passaram a se chamar Liga das Nações. Em novo formato, agora com 16 participantes, o evento aumenta a exposição das seleções, com uma fase de classificação onde todos se enfrentam.

São distribuídos US$ 13 mil (R$ 53,9 mil) a cada partida, com o vencedor ganhando US$ 9 mil (R$ 37,3 mil) e o perdedor, US$ 4 mil (R$ 16,6 mil).

A grande novidade foi a igualdade na premiação para homens e mulheres. Tanto a Rússia (campeã da edição masculina) quanto os Estados Unidos (vencedores no feminino) receberam o prêmio de US$ 1 milhão (R$ 4,1 milhões).

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