Haverá mobilização se próximo governo cortar verbas, diz presidente do COB

Paulo Wanderley Teixeira teve de reduzir custos da entidade, que perdeu patrocinadores

Marcelo Laguna
São Paulo

Quando Paulo Wanderley Teixeira, 68, assumiu o comando do COB (Comitê Olímpico do Brasil), há um ano, os bastidores do esporte olímpico brasileiro estavam de cabeça para baixo.

O ex-presidente da CBJ (Confederação Brasileira de Judô) encontrou uma entidade com a credibilidade abalada, punida pelo COI (Comitê Olímpico Internacional) e com problemas para encontrar novos patrocinadores.

O presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Paulo Wanderley Teixeira, em entrevista na sede da entidade
O presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Paulo Wanderley Teixeira, em entrevista na sede da entidade - Ricardo Borges-13.out.17/Folhapress

Teixeira era vice de Carlos Arthur Nuzman, que comandou a entidade por mais de duas décadas e renunciou após acusação de participar de compra de votos para a eleição do Rio como sede dos Jogos de 2016 —o que ele nega.

Nos 12 meses seguintes, o dirigente deu início a um processo de enxugamento das contas. Demitiu funcionários, diminuiu delegações para eventos e ainda tenta mudar a sede da entidade do prédio atual na Barra da Tijuca (no qual precisa pagar aluguel) para o Parque Aquático Maria Lenk, administrado pelo COB.

Começando o segundo ano do mandato (que termina em 2020), o dirigente mostra preocupação quanto a cortes de verbas que podem ocorrer no esporte após a eleição presidencial e não descarta mobilizar forças para evitá-los.

Sem patrocínios que façam aporte significativo no comitê, a entidade depende quase exclusivamente de verbas federais oriundas da Lei Piva —que repassa parte da arrecadação com loterias para os esportes olímpicos.

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Folha - Qual o balanço que você faz de seu primeiro ano na presidência do COB? 
Paulo Wanderley Teixeira - Estamos avançando. Hoje o COB está sendo melhor visto por todos os segmentos, não apenas o esportivo. Fizemos enxugamento da folha de pagamento, mudança estatutária, tivemos a chegada de novos diretores... Passei muito tempo sozinho aqui dentro, o que foi uma coisa positiva, porque eu tive um intensivo do COB nos primeiros meses.

A reestruturação financeira foi a parte mais complicada?
Foi a mais trabalhosa, mas que era algo que eu tinha que fazer de forma emergencial. Em função de contenção de recursos, reduzir custos era fundamental para otimizar nossos investimentos.

Qual foi a porcentagem desta redução? 
Em um ano, o COB reduziu 15% o número de funcionários, 30% de folha de pagamentos [salários e encargos] e 30% no valor dos contratos firmados pelo comitê.

Há algum temor pelo que pode vir do novo presidente da República em relação ao esporte? 
Só espero que quem vencer [Jair Bolsonaro ou Fernando Hadadd] tenha a sensibilidade para manter avanços que o esporte teve no Brasil nos últimos anos. Quero acreditar que os candidatos estão pensando de forma positiva no esporte brasileiro, apesar de não estarem comentando abertamente. Não seria razoável encolher o esporte.

A ameaça de retirar verbas para o esporte de base, feita pelo atual governo este ano, é um sinal de que o segmento esportivo pode esperar por redução de orçamento a partir do ano que vem?
A edição da Medida Provisória 841 [que dava parte da arrecadação das loterias federais para a segurança pública e diminuía os recursos destinados ao esporte], que deu toda aquela turbulência, serviu para o esporte se unir em uma causa comum e fortaleceu essa união. Estamos atentos, mas temos que esperar as pessoas sentarem e tomarem posse no novo governo. Se for o caso, novamente o esporte irá se mobilizar e buscar uma solução que não caminhe para trás.

O COB conseguiu captar algum patrocinador neste último ano?
Ainda não. Estamos prospectando e vendo um cenário que começa a ficar positivo, nada fechado ainda.

A que você deve essa saída de apoiadores do COB? Ao final do ciclo olímpico anterior ou à saída de Nuzman sob acusação de corrupção? 
Todos esses pontos têm influência no processo. A situação política e econômica do país, retração de mercado, tudo tem ligação. Quando termina um megaprojeto, como foi a Olimpíada, é natural que as empresas promovam uma certa retração, mas essa nuvem está se dissipando.

Qual foi a importância da revogação da punição do COI ao COB [suspendeu o comitê e congelou repasse de R$ 7 milhões] em fevereiro nesse processo?
Na verdade, o COI quis se resguardar com a punição, mas as medidas imediatas que estávamos tomando em relação à questão estatutária e outras inovações, ajudou também a solucionar essa questão, três meses e pouco após a sanção. Foi um reflexo positivo.

Por que foi adiada a opção de mudar o local da sede do COB para o Parque Aquático Maria Lenk?
Verificou-se o que precisaria ser feito, e o estudo foi levado para o conselho de administração do COB, que então optou para que a mudança ocorra no segundo semestre de 2020. Avaliou-se a questão de ocupação do espaço, algumas reformas estruturais que precisariam ser feitas, cabeamento de internet etc.

Por que programar a mudança só para depois da Olimpíada de Tóquio?
Porque o foco estará todo nos Jogos. Faremos a mudança de forma total, não ficará nenhum puxadinho do COB aqui no prédio atual [localizado na Avenida das Américas, na Barra da Tijuca]. O incômodo que uma mudança dessas causaria em plena fase de preparação olímpica também foi levada em conta.

O judô teve um desempenho muito abaixo do esperado no último Mundial. Exemplos como esse ligam um sinal de alerta?
Aconteceu um deslize neste Mundial, alguma coisa dentro da CBJ, e não conseguiram repetir os resultados anteriores. Mas a equipe teve a presença de atletas mais novos, o que aponta um bom caminho para 2020 e 2024, como Daniel Cargnin, Jéssica Pereira e a Beatriz Souza. Nem tudo foi terrível. Tenho certeza que a CBJ irá corrigir a rota.

O COB já chegou a falar em enviar 250 atletas para os Jogos de Tóquio. Seria um número semelhante à delegação que esteve em Londres-2012. Você imagina que esse número possa aumentar?
Deverá ficar em 250, porque nossa delegação no Rio foi atípica. Esse total de 465 atletas não acontece sempre. O mundo ideal seria ter mais atletas na delegação, com reais chances de medalha. Faríamos todo o esforço para levar todo mundo, mas evidentemente foge de nossa realidade econômica. Até porque você não descobre grandes talentos a apenas dois anos dos Jogos Olímpicos. Só se for um ET que esteja escondido por aí.

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