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Com apenas 9% na elite, Copa SP revela escritor, juiz e professor na Tailândia

Segundo levantamento da Folha, uma minoria dos que jogam o torneio atinge o topo da pirâmide

O inglês Seth Burkett, segundo da direita para a esquerda, com seus companheiros na época de Sorriso
O inglês Seth Burkett, segundo da direita para a esquerda, com seus companheiros na época de Sorriso - Arquivo pessoal
São Paulo

Torneio de base mais tradicional do Brasil, a Copa São Paulo de Futebol Júnior ainda é a principal vitrine para que jovens atletas de todo o país se aproximem do sonho de jogar profissionalmente. A parcela que consegue dar o salto à elite é ínfima.

Segundo levantamento da Folha, apenas 9% dos jogadores que disputam o torneio chegam à equipe principal de clubes grandes do Brasil ou médios/grandes do futebol europeu.

A reportagem analisou a trajetória de todos os 1.939 atletas que disputaram a competição de 2010, edição mais antiga com dados públicos à disposição para o levantamento.

Naquele torneio, surgiram nomes que hoje são destaques no cenário local e internacional, como Dudu, do Palmeiras, eleito o melhor jogador do último Campeonato Brasileiro, e o volante Casemiro, titular do Real Madrid (ESP) e da seleção brasileira.

Tanto o palmeirense, que disputou aquela Copinha pelo Cruzeiro, como Casemiro, que jogou pelo São Paulo, são dois dos privilegiados na minoria que alcançou o topo.

Cerca de 82% dos atletas não chegaram a assinar sequer contratos com clubes de destaque em ligas sem grande tradição ou times de ligas tradicionais que dificilmente conquistam títulos.

Considerando onde estavam no fim de 2018, aproximadamente 43% nem constavam nas principais bases de dados utilizadas como fontes para a análise da Folha, como Wyscout, Transfermarkt, e O Gol.

 

Um caso emblemático que ilustra a dificuldade de chegar à elite e se manter nela é o de Lucas Gaúcho, atacante campeão pelo São Paulo e artilheiro da edição de 2010.

Companheiro de Casemiro e de Lucas, então Marcelinho e hoje no Tottenham (ING), ele subiu para o profissional do time tricolor naquela mesma temporada, na qual marcou dois gols em cinco jogos. Seu futuro no futebol, porém, seria bem longe do Morumbi.

Passou por São Bernardo, Portuguesa, Luverdense, Espanyol B (ESP), São José, Tero Sasana, da Tailândia, Hai Phong, do Vietnã, Al Shabab, de Omã, Zalgiris, da Lituânia, Thespakusatsu Gunma, da segunda divisão japonesa, Bnei Sakhnin, de Israel, e Jorge Wilstermann, onde está desde 2018.

Aos 27 anos, já é um andarilho da bola. Mas Lucas Gaúcho, ao menos, continua jogando. Outros que compartilham a sua faixa etária seguiram caminhos distintos e, alguns deles, bem curiosos.

É o caso, por exemplo, de Yuri Costa, 26, que disputou a Copa São Paulo de 2010 pelo Vilavelhense, do Espírito Santo, e hoje é professor de uma escolinha de futebol em Bancoc, capital da Tailândia.

Volante, Yuri se profissionalizou logo após o torneio e chegou a jogar o estadual capixaba com o time. No ano seguinte, em 2011, seu contrato com o Vilavelhense se encerrou e ele foi buscar a sorte no futebol tailandês, onde tinha o contato de um amigo.

Em pé, primeiro da direita para a esquerda, o ex-volante Yuri Costa posa para foto com crianças tailandesas da escolinha em que trabalha
Em pé, primeiro da direita para a esquerda, o ex-volante Yuri Costa posa para foto com crianças tailandesas da escolinha em que trabalha - Arquivo pessoal

"No Espírito Santo as coisas são mais difíceis em relação ao futebol. Eu vim [pra Tailândia] sem nada a perder, com a cara e a coragem e graças a Deus consegui um time na 3ª divisão aqui", diz Yuri, à Folha.

O ex-atleta jogou seis temporadas pelo Kasem Bundit FC, clube da universidade homônima, o que lhe rendeu até uma bolsa integral para estudar administração, em inglês, bancada pela instituição.

Há dois anos, Yuri teve uma lesão no tendão de aquiles que, segundo ele, não teve recuperação ideal na Tailândia. O tendão rompeu de novo no ano passado. Foi quando ele decidiu parar.

"Fiquei seis meses no Espírito Santo tratando a lesão e tive a oportunidade de voltar pra cá como treinador de futebol em uma escolinha. É o que eu faço atualmente. Quero me preparar fora dos campos porque sou novo ainda. Falo inglês e tailandês muito bem, vejo meu futuro por aqui", completa.

O ex-volante João Bosco Rodrigues, 27, esteve naquela Copa São Paulo de 2010 e durante algum tempo alimentou o sonho de se tornar jogador profissional de futebol.

Jogou na base do Corinthians (juvenil), no Paraná e até no Benfica (POR), onde seu irmão também tentou a sorte. Na Copinha, jogou pelo Comercial de Mato Grosso do Sul e sagrou-se campeão estadual naquele mesmo ano, já como profissional.

O rompimento dos ligamentos do joelho esquerdo, em 2012, foi o ponto de partida para o abreviamento da carreira. Em 2014, já formado em Educação Física, parou de jogar. Mas segue dentro de campo.

"O Comercial não pagava em dia, atrasava muitos salários. Quando eu estava machucado quis estudar, pra não ficar em casa parado à toa. Tinha um professor que é inspetor de arbitragem da CBF e disse que teria um curso de arbitragem", conta João, que a princípio frequentou o curso para somar horas complementares necessárias para se formar.

"Ele disse 'Pô João, você tem altura, porte de árbitro, sabe a malandragem do jogador.' Ele foi me ganhando. Aí comecei a apitar joguinho de criança aqui, outro ali. Fui pro amador e em 2016 entrei para o quadro de árbitros da federação do Mato Grosso do Sul", recorda o hoje quarto árbitro, que ainda busca trabalhar como o juiz principal de um jogo profissional masculino.

No centro, o ex-volante e hoje árbitro João Bosco Rodrigues, em partida entre Athletico-PR e Coritiba na base
No centro, o ex-volante e hoje árbitro João Bosco Rodrigues, em partida entre Athletico-PR e Coritiba na base - Arquivo pessoal

Entre essas histórias de jogadores da Copa São Paulo de 2010 que atualmente se dedicam a outras atividades, a mais inusitada de todas provavelmente seja a de Seth Burkett, 27. A começar pelo fato de que ele é inglês.

Burkett veio ao Brasil em 2009 para disputar com seu clube na época, o Stamford AFC, a Copa 2 de Julho, torneio sub-17 de Salvador. A viagem aconteceu com a ajuda do empresário brasileiro Anderson da Silva.

Na Bahia, o garoto que jogava de lateral esquerdo foi convidado para um período de treinos com o Vitória. O bom desempenho impressionou o técnico Emerson Mattheus, que treinaria no ano seguinte os garotos do Sorriso Esporte Clube, do Mato Grosso. Seth Burkett foi com ele.

"Meus companheiros de time na Inglaterra pensaram que eu estava louco de ir ao Brasil. Eu não podia dizer não. Sempre amei o futebol brasileiro, cresci idolatrando Roberto Carlos e Ronaldinho", diz à Folha o inglês.

Com o Sorriso, Seth não chegou a entrar em campo na Copa São Paulo, mas participou da equipe que disputou o Matogrossense em 2010, que marcou o fim de sua aventura no Brasil.

Ele até gostaria de permanecer, mas, sem sucesso ao tentar obter visto, em poucos meses já estava de volta à Inglaterra, onde passou a jogar futsal, esporte que pratica até hoje.

Sua experiência por aqui rendeu um livro escrito por ele mesmo, o primeiro de cinco que ele já publicou na curta carreira como escritor: "The Boy in Brazil -- Living, loving and learning in the land of football" (O garoto no Brasil -- Vivendo, amando e aprendendo na terra do futebol, em inglês).

"Eu mantive um diário no Sorriso. Quando voltei [à Inglaterra], li o que havia acontecido e percebi que era uma história maluca. Havia corrupção, um dos dirigentes foi assassinado. Tentei aprender português, mas não fui muito longe. A coisa mais difícil era o calor. Sou de um lugar em que acham 20º C muito quente! Esse livro levou a mais livros. Nada disso seria possível sem o Brasil", comenta.

Como se não bastasse a experiência no futebol brasileiro, ele ainda descobriu que um tio-avô seu jogou no Arsenal, no Manchester City e treinou o Fluminense no início do século passado.

A história foi publicada no programa (revista oficial vendida no dia do jogo) do amistoso entre Brasil x Irlanda, disputado no Emirates Stadium, casa do Arsenal, em 2010.

Bruno Rodrigues , Daniel Mariani , Fábio Takahashi e Marcos Guedes
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