Tabu antigo, camisa 24 é ignorada por clubes e jogadores no Brasil

Equipes da Série A não têm atleta com número relacionado à homossexualidade

Cássio com a camisa 24 na Libertadores de 2012
Cássio com a camisa 24 na Libertadores de 2012 - Rubens Cavallari/Folhapress
Marcos Guedes
São Paulo

Mais uma temporada se iniciou no futebol brasileiro, mais uma em que nenhuma das principais equipes terá um camisa 24. O número só aparecerá quando os times começarem a disputar as competições sul-americanas, nas quais a inscrição é obrigatoriamente feita de 1 a 30, e provavelmente será atribuído a atletas que nunca ou quase nunca jogam, como os terceiros goleiros.

Dos 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro, 11 (Atlético-MG, Ceará, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Goiás, Internacional, Palmeiras, São Paulo e Vasco) divulgaram a numeração fixa dos jogadores, todas sem um camisa 24. Outras duas, o Athletico Paranaense e o Santos, não publicaram essa relação, mas listam em seu site os uniformes de seu elenco. Mantém-se o padrão: nada de 24.

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O Avaí não adotou numeração fixa neste momento da temporada. As outras seis ainda não disponibilizaram a distribuição das camisas, porém parece seguro dizer que o número tabu –associado à homossexualidade por ser correspondente ao veado no Jogo do Bicho– continuará mantendo distância dos gramados.

“Isso não é uma novidade”, observa Luiza Aguiar dos Anjos, doutora em Ciências do Movimento Humano e autora de vários artigos que abordam a homofobia no esporte. “Esse número é evitado desde sempre, porque esse machismo, esse heterossexismo que a gente verifica no futebol tem suas modificações, suas transformações, mas é antigo.”

O que não é tão antigo é o questionamento sobre o tema. A pesquisadora comemorou ter sido indagada sobre o assunto pela Folha e observou que a imprensa vem tocando no assunto, o que já representa um avanço. Nesta semana, o portal mineiro Super Esportes também abordou a questão.

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“O fato de a gente estar conversando sobre isso, tentando refletir, é sinal de que tem muita gente incomodada com essa suposta tradição de que o esporte deva ser um ambiente em que se reafirme certa masculinidade a todo tempo, uma masculinidade viril, heterossexual, muitas vezes agressiva”, afirmou.

O assunto, porém, ainda é tratado como tabu nos clubes. Questionados, eles dizem que a escolha da camisa é uma opção do jogador entre os números disponíveis. E apontam que o 24 não é o único uniforme sem dono em suas listas. Uma análise comparativa, claro, exibe o óbvio: é só esse número, de 1 a 30, que não é usado em nenhum dos times.

No Palmeiras, por exemplo, o 4, o 22 e o 24 estão vagos. Quando a equipe for inscrever seus 30 atletas na Copa Libertadores, essas camisas terão de ser preenchidas. Segundo o clube, ficarão com elas três dos jogadores que hoje têm numeração superior a 30, como os recém-chegados Carlos Eduardo (37) e Arthur Cabral (39).

Em 2012, quando havia acabado de chegar e ainda era um desconhecido da torcida do Corinthians, Cássio foi inscrito na Libertadores com a camisa 24. Acabou ganhando a posição durante o torneio, fazendo defesas históricas, como aquela no chute do então vascaíno Diego Souza, e sendo decisivo na conquista corintiana. Terminada a competição, pediu o número 12.

O uso da camisa foi ironizado pelo programa CQC, que existia em 2012 na Band.

"Você trocou a camisa com o Dida por ser fã dele ou para se livrar da camisa 24 logo?", questionou o humorista do programa. "Os dois, mas isso daí já está com os dias contados, o número 24 vai mudar já", respondeu Cássio.

“Qualquer coisa que coloque em dúvida a masculinidade não só é rejeitada como vista enquanto uma ofensa”, disse Marcel Diego Tonini, doutor em História Social e autor de pesquisas diretamente ligadas ao futebol. “Mais do que um meio machista, o futebol reproduz um modelo de homem hegemônico: viril, forte fisicamente, bruto, destemido, poderoso, agressivo, insensível.”

Não será tão cedo, aposta Tonini, que surgirão jogadores brasileiros questionando esse padrão. Ele até acha que isso ocorrerá, mas “timidamente” e “provavelmente não nos próximos quatro anos”.

A opinião é compartilhada por Mauricio Murad, doutor em Sociologia do Desporto, que vê no esporte um reflexo acentuado da sociedade.

“O futebol, como um dos maiores e mais representativos fenômenos de nossa cultura coletiva, expressa as nossas realidades mais profundas, como o machismo, a exclusão, a desigualdade e o preconceito. Não é de se estranhar, portanto, que não tenhamos nenhum jogador de alto nível que tenha se assumido homossexual. Será que não há nenhum? Difícil acreditar”, afirmou Murad.

Em 2013, no auge de sua idolatria no Corinthians, o atacante Emerson publicou uma foto beijando os lábios de um amigo e condenou o “preconceito babaca” de quem o criticava. Em seguida, foi alvo de protesto com faixas como “aqui é lugar de homem” e acabou se retratando da seguinte maneira: “Foi só uma brincadeira com um grande amigo meu, até porque eu não sou são-paulino”.

Para Luiza Aguiar dos Anjos, nem estava em questão se o jogador era gay.

“Ninguém achou exatamente isso. Mas a atitude se tornou uma mancha na visão dos torcedores. Os próprios corintianos o levaram a se retratar, porque era um absurdo um atleta do Corinthians se posicionar daquele modo e ferir aquilo que se esperava dele. E os rivais se aproveitaram daquilo como um grande motivo de escárnio”, lembrou.

É um dos exemplos que fazem a pesquisadora considerar “muito difícil para um jogador se posicionar”. O ônus é tão grande que, segundo ela, só um atleta “da estirpe de um Neymar da vida”, de atributos futebolísticos quase inquestionáveis, poderia encarar. A solução, portanto, não seria esperar um boleiro levantar a bandeira.

“O nosso esforço tem que ser muito menos achar um herói para defender essa causa de um modo individual e mais pensar nas estruturas mesmo. Pensar em estruturas e instituições que sejam mais fortes do que o indivíduo talvez seja uma saída razoável”, disse Luiza, referindo-se à mídia, aos clubes e às federações. “Por exemplo, quando o Atlético-MG fez uma camisa rosa, foi alvo de crítica e zombaria. Mas o Atlético tem uma força para sustentar isso maior do que a capacidade de um atleta de fazer isso individualmente.”

Individualmente, no momento, ninguém parece disposto. Por isso, neste ano, mais uma vez, só haverá camisas 24 entre os clubes brasileiros por imposição dos regulamentos da Copa Libertadores e da Copa Sul-Americana.

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