Apoio de estatais ao esporte cai 50% em 2019, e mais cortes são esperados

A um ano e meio dos Jogos, federações e clubes amargam perda de R$ 189 milhões em patrocínios

Carlos Petrocilo Daniel E. de Castro
São Paulo

​Em meio à crise econômica e aos sinais dados pelo governo de Jair Bolsonaro sobre mudanças na política de patrocínios das empresas estatais, o esporte brasileiro se depara com dificuldades para renovar contratos, amarga perdas milionárias e projeta cenário ainda mais complicado nos próximos anos.

Em 2018, sete estatais investiram R$ 381 milhões em 73 contratos esportivos, de acordo com levantamento feito pela Folha. Desses contratos, 50 já se encerraram, 14 terminam ao longo de 2019 e somente 8 atualmente têm previsão de permanecer ativos ao menos até 2020, ano da Olimpíada de Tóquio.

Entre os patrocínios analisados pela reportagem, apenas o contrato da Petrobras com a equipe de F-1 McLaren não teve sua duração divulgada. A assessoria de imprensa da petrolífera afirma que uma cláusula de confidencialidade a impede de fazê-lo.

As perdas já contabilizadas totalizam R$ 189 milhões, 49,6% do valor investido pelas empresas em 2018. Com a tendência de não renovação dos patrocínios que terminam nos próximos meses, esse número deve crescer ao longo de 2019. Cerca de 27,5% do que foi investido em 2018 está previsto em contrato pelo menos até 2020.

“É muito difícil desenvolver o esporte, na estrutura que temos hoje, sem investimento público direto ou via estatais. Haverá rompimento nesse desenvolvimento se a política governamental não incentivar”,  diz Fernando Mezzadri, coordenador do programa Inteligência Esportiva, parceria entre a Universidade Federal do Paraná e o governo federal.

Em números absolutos, o futebol é quem amarga o pior revés. Desde o final do ano passado, os cartolas foram avisados de que os contratos com a Caixa Econômica Federal, então principal patrocinadora de 25 clubes do país, não seriam renovados. Eles totalizavam R$ 128 milhões.

No início do ano, o ministro da Economia, Paulo Guedes, eliminou qualquer esperança dos dirigentes. “Às vezes, é possível fazer coisas cem vezes melhores com menos recursos do que gastar com publicidade em times de futebol”, disse o ministro durante a posse do novo presidente da Caixa, que começou a investir  nos clubes em 2012. Desde então, o banco injetou R$ 663 milhões no futebol.

Outro corte de impacto feito pela instituição, responsável pelos maiores investimentos de estatais em 2018, foi na área de corridas de rua, projetos sociais e eventos pontuais, que havia recebido R$ 31 milhões no ano passado.

Permanecem até 2020 os patrocínios da Caixa ao próprio Comitê Paralímpico do Brasil (cerca de R$ 25 milhões anuais), às confederações de atletismo (R$ 15 milhões) e ginástica (R$ 5 milhões) e às ligas de basquete masculina e feminina (R$ 8 milhões somadas).

Há, no entanto, relatos de atraso na parcela que deveria ter sido paga pelo banco às entidades em janeiro, mas até o momento os dirigentes têm preferido contemporizar.

“Como acontece em toda gestão, quando muda tem um hiato. A Caixa é uma entidade muito séria, acreditamos que vá cumprir seus acordos. Pode até não querer renovar, como aconteceu no futebol, mas acho que vão honrar [os contratos em vigor]”, afirma Kouros Monadjemi, presidente da Liga Nacional de Basquete.

Em nota enviada pela assessoria, a Caixa diz que “os contratos de patrocínio do banco estão sob análise. Demandas relativas aos patrocínios e seus desdobramentos são tratadas diretamente com os proponentes ou patrocinados”.

Entre as confederações olímpicas, a de handebol (CBHb) foi a que sofreu queda mais brusca de receita publicitária nos últimos meses. Sem a parceria com o Banco do Brasil, encerrada em 2018, a entidade perdeu R$ 7,7 milhões que recebia por ano. Já o contrato dos Correios (R$ 1,6 milhão) acabou em janeiro.

A entidade sofreu abalos políticos em 2018, com denúncias de irregularidades que levaram ao afastamento do então presidente, Manoel Luiz de Oliveira, que estava no poder desde 1989. Em janeiro, o atual presidente da CBHb, Ricardo Souza, reconheceu que “há uma imagem arranhada”.

Um efeito do corte foi sentido em outubro, quando treinamentos programados para a seleção masculina foram cancelados por falta de verba.

Dos 6 contratos ativos dos Correios em 2018, 2 se encerraram e 3 estão próximos do fim. A entidade anunciou que manterá o patrocínio à CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos), para quem pagou R$ 5,6 milhões em 2018, mas ainda não informou os novos valores e o tempo de contrato.

A única estatal que já anunciou novos projetos para 2019 foi Furnas. Serão seis contratos, a maioria com projetos sociais, que somam R$ 1,6 milhão (crescimento de 24% em relação a 2018). A representatividade dos valores investidos pela subsidiária da Eletrobras no todo, porém, é pequena.

Entre os contratos mais duradouros se destacam o do Banco do Brasil com a CBV (Confederação Brasileira de Voleibol), que paga R$ 54,5 milhões anuais à entidade e se encerra no fim de 2020, e o do Time Petrobras, até 2021.

A petrolífera pagará R$ 9,8 milhões por 3 anos de vínculo a 20 atletas de várias modalidades, a maioria com chances de medalha em Tóquio-2020.

O professor de educação física da UnB Fernando Mascarenhas Alves classifica a debandada dos investimentos de estatais como uma tragédia, mas relaciona esse fato à falta de credibilidade das autoridades esportivas brasileiras.

“Os cartolas da maior parte das confederações tinham gestões de duas, três décadas, reproduzindo o modelo [do ex-presidente Carlos Arthur] Nuzman no COB: centralização no poder, ausência de alternância e corrupção”, diz.

Leandro Carlos Mazzei, professor de ciência do esporte da Unicamp, lamenta que os dirigentes não tenham tirado proveito durante a bonança de investimentos no período de preparação para a Rio-2016.

“Vivemos sete anos de vacas gordas, com investimentos públicos e privados acima do normal. As confederações deveriam ter utilizado parte desse valor para investir em um departamento de marketing, estruturar a gestão. A maioria não fez nada, agora vai sentar e chorar. Não vejo culpa das estatais”, afirma.

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