Algoz do Real Madrid, Ajax vende e cria novos talentos com a mesma rapidez

Com goleada por 4 a 1, time eliminou equipe espanhola nas oitavas da Liga dos Campeões

O ex-goleiro Edwin van der Sar é diretor-executivo do Ajax, - Emmanuel Dunand/AFP
Rory Smith
Amsterdã

Na metade do ano passado, sete dos astros mais brilhantes do Ajax foram chamados a uma sala no centro de treinamento do clube holandês. Edwin van der Sar, ex-goleiro transformado em presidente-executivo, e Marc Overmars, antes um ala muito veloz e hoje diretor de futebol do Ajax, tinham um vídeo para mostrar a eles.

A premissa era simples. Cada um dos jogadores era comparado a uma figura emblemática da ilustre história do Ajax — alguém que jogava na mesma posição, vinha do mesmo país ou (em um dos casos) era membro da mesma família. O goleiro Andre Onana, por exemplo, foi comparado a van der Sar. O atacante Kasper Dolberg a Zlatan Ibrahimovic. Justin Kluivert ao seu pai, Patrick. O par de Frenkie de Jong era Christian Eriksen, e o de Matthis de Ligt era Barry Hulshoff, zagueiro do time imensamente vitorioso do Ajax na década de 1970.

A ideia, disse Van der Sar, era “mostrar a eles como se tornarem lendas no Ajax, e na Holanda”. O vídeo foi concebido para persuadir os jogadores, os jovens mais talentosos do clube, a resistir à tentação de uma transferência para a Inglaterra, Espanha ou Itália por pelo menos mais um ano, a “ficarem juntos, conquistarem prêmios e troféus aqui e depois darem o próximo passo”.

A tática funcionou. Seis dos sete jogadores defenderam o Ajax nas oitavas de final da Liga dos Campeões, quando a equipe eliminou o Real Madrid da Champions League. De Ligt comandou a defesa; De Jong, o ataque.

Apenas um dos sete estava ausente: Kluivert resistiu ao apelo emotivo do clube e seguiu os passos de seu pai. Recusou-se a estender seu contrato e foi vendido à Roma. O Ajax compreende sua decisão, mas quando o nome de Kluivert é mencionado no clube hoje em dia, é com um tom de pesar, uma ponta de frustração.

Não por ele ter partido, mas por ter partido cedo demais. “Se um jogador sai depois de apenas um semestre no time principal, como aconteceu com Kluivert, nos decepcionamos”, disse Said Ouaali, diretor da De Toekomst, a famosa academia de formação de juvenis do Ajax.

Em janeiro, o Ajax produziu um novo vídeo. Desta vez, era para consumo público, postado nos canais de mídia social do clube. Com pouco mais de um minuto, o vídeo demonstrava o que Erik ten Hag, o atual treinador do Ajax, define como “qualidades especiais” de Jong. O vídeo levava o título de “Frenkie Futuro”, e foi veiculado para celebrar a confirmação da transferência do jogador de 21 anos ao Barcelona, que acontecerá depois do final da atual temporada.

De Jong é a luz mais brilhante no time do Ajax, um jogador tão promissor que foi comparado mais de uma vez à lenda Johann Cruyff. Mas não havia pesar pela sua partida. “Barcelona, curta o futuro como nós fazemos”, postou o Ajax em sua conta oficial no Twitter.

Os sentimentos serão os mesmos no final da atual temporada, quando Ligt, que está no Ajax desde os oito anos de idade, provavelmente deixará o clube. Zagueiro de 20 anos de idade visto por alguns olheiros da Premier Legue como o jogador mais promissor do planeta, em qualquer posição, de Ligt pode se unir ao seu amigo no Barcelona, ou talvez vá parar na Juventus.

Frenkie De Jong em ação com a seleção da Holanda
Frenkie De Jong em ação com a seleção da Holanda - Piroschka Van de Wouw/Reuters

De qualquer forma, não haverá tristeza, e nenhuma sensação de perda quanto ao que poderia ter sido. Ten Hag às vezes se permite pensar no que aconteceria se “eu pudesse mantê-los por dois ou três anos” como jogadores maduros, ele admite, mas a coisa não passa disso.

“Terei orgulho”, ele disse. “Os olheiros que os descobriram terão orgulho. Marc Overmars terá orgulho. Todos terão. Caso se transfiram a grandes clubes, todos ficarão felizes por eles”.

Porque foi isso que o Ajax sempre fez, é claro. Desde que Cruyff o deixou pelo Barcelona, em 1973, o clube vem criando uma corrente constante de talentos de que outras equipes desfrutaram: Johan Neeskens, Marco van Basten, Frank Rijkaard, Clarence Seedorf, Edgar Davids, Kluivert, Wesley Sneijder, Rafael van der Vaart, Eriksen, Ibrahimovic, Jan Vertonghen, Luis Suárez. A lista de jogadores formados pelo Ajax é um verdadeiro quem é quem do futebol moderno.

A fórmula que permitiu que o clube o faça pende da parede do escritório de ten Hag, diante de retratos em branco e preto de Rinus Michels, o treinador que comandava o grande time dos anos 70; Cruyff, o astro daquela equipe; e Louis van Gaal, o homem que reconduziu o Ajax ao pináculo do futebol europeu na década de 1990, com um time formado quase inteiramente em De Toekomst.

Ten Hag ri, olhando pra a parede das fotos. “Isso dita um padrão”, ele disse, fazendo uma careta. Mas fala sério ao comentar sobre o Ajacied, uma combinação de credo e declaração de propósitos do clube.
São traços que o clube busca instilar em todos os jogadores que vestem sua camisa ou que passam por De Toekomst, bem como em sua comissão técnica. Há 11 regras, e elas são organizadas no esquema tático de um time; porque estamos falando do Arsenal, a formação é um 4-3-3.

As regras falam sobre assumir a responsabilidade, tomar a iniciativa, manter a disciplina, e sobre a necessidade de diversão.

A abordagem evidentemente funciona. Nenhum clube da Europa produz mais jogadores profissionais que o Ajax. Os números do clube o colocam adiante do Partizan Belgrado e do Dínamo de Kiev. De acordo com Ouaali, espantosos 86% dos jogadores que passam por De Toekomst aos 16 anos terminam fazendo carreira no futebol profissional.

Mas isso não significa que os métodos não tenham sido alteradas, adaptados e ajustados ao longo dos anos. O processo começou em 2011, quando Cruyff voltou a um clube que “já não parecia o Ajax”, segundo van der Sar.

Cruyff e o quadro de ex-jogadores que ele levou com ele ao clube queriam não só restaurar o foco no desenvolvimento das categorias de base, dispensando jogadores mais velhos e de salários altos, mas mudar a maneira pela qual o Ajax trabalhava.

“Nosso foco é sempre o indivíduo”, disse Ouaali. “Não pensamos em faixas de idade, como a federação holandesa e os outros clubes. Pode ser difícil para os treinadores, porque eles também querem resultados — querem sucesso, querem subir de nível — mas tentamos encontrar treinadores que se concentrem no desenvolvimento de jogadores, que pensem no indivíduo e não no time”.

O clube também reconheceu que precisava trabalhar mais rápido do que no passado. Os jogadores já não ficam na Eredivisie, a primeira divisão holandesa, até os 23 ou 24 anos; agora, saem aos 20 ou 21 anos, ou até mais cedo. “Aos 19 anos, eles precisam estar prontos para jogar no time principal”, disse ten Hag. “Porque aos 20 eles saem”.

Isso significa mais trabalho físico em idades mais baixas, e também que os jogadores agora estudam no Ajax, para que possam maximizar as horas que passam nas salas de aula e no campo de treino.

O Ajax usa ideias do método Montessori para combinar faixas de idade, e a sua equipe sub-18 foi abolida, para “aumentar a pressão sobre os talentos”, disse Ouaali.

O segundo time do clube, o Yong Ajax, que joga na segunda divisão holandesa, deixou de ser formado por jogadores no seus anos finais de preparação; agora, a equipe é formada por adolescentes, em sua maioria. “Tivemos de acelerar o processo”, disse ten Hag. “Eles precisam melhorar mais rápido”.

Tudo isso é um reconhecimento do lugar do Ajax no firmamento do futebol do século 21. É revelador, por exemplo, que Ouaali veja seu papel, e o papel da De Toekomst, não como o de produzir jogadores para a equipe principal, mas de produzi-los para “o Ajax, e a seleção holandesa, e para o nível mais alto do futebol internacional”.

A ordem é importante. O Ajax não quer apenas desenvolver jogadores; quer também ganhar. Van der Sar, especialmente, está muito ciente da necessidade de manter os jovens do clube por tempo suficiente para que o time se beneficie. É por isso que ele elevou o orçamento para salários, a fim de convencer os jogadores de que ficar por um ano ou dois a mais é atraente. É por isso que o clube está procurando expandir sua presença internacional, com um escritório em Nova York; por isso que o Ajax está comandando a formação de juvenis do Guangzhou R&F, um clube da Super League chinesa; e é a isso que se devem seus esforços para monetizar a marca Ajax.

De Jong e Ligt fizeram o que o clube pediu, depois de verem o vídeo do ano passado. Podem não ter conquistado um título, mas ao levar o Ajax às oitavas de final da Champions League, contra o Real Madri, “eles recompensaram o clube”, disse van der Sar.

Quando os dois —e outros dos jogadores do grupo dos sete— partirem, levarão com eles os melhores votos do clube, e o processo recomeçará.

Afinal, é esse o verdadeiro dom do Ajax: não a capacidade de produzir um grande jogador, ou uma geração deles, mas a de continuar a fazê-lo. É o que faz com que a saída de jogadores seja não só desejável como necessária.

“Temos de abrir espaço para o próximo da fila”, disse van der Sar. “Se um jogador fica por tempo demais, o seguinte não pode jogar. A coisa toda trava”.

Ele citou um exemplo de apenas dois anos atrás. Davy Klaassen era o capitão do Ajax, então. Tinha 24 anos. O clube tinha grandes esperanças quanto a um jovem meio-campista, Donny van der Beek, mas ele precisava de um lugar em campo.

“E Donny dizia, ‘tudo bem, Davy, é hora de você sair’”, contou van der Sar.

Klaassen saiu: foi para o Everton. Nas oitavas de final, van der Beek foi titular contra o Real Madrid. Mais um jogador saído da linha de montagem, e recompensando o clube por seus esforços.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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