Nuzman estava no Brasil em dia citado por Cabral em confissão

Ex-governador diz que discutiu com cartola propina a membros do COI

Italo Nogueira
Rio de Janeiro

​O ex-presidente do COB (Comitê Olímpico do Brasil) Carlos Arthur Nuzman fez uma rara passagem pelo Brasil no período em que o ex-governador Sérgio Cabral (MDB) afirma ter discutido com ele propina a membros do COI (Comitê Olímpico Internacional) pela escolha do Rio como sede da Olimpíada de 2016.

A reunião ocorreu, segundo o emedebista, na primeira quinzena de agosto de 2009, no Palácio Guanabara. Foi justamente entre 4 e 10 de agosto de 2009 que Nuzman voltou ao Brasil e interrompeu uma sequência de viagens internacionais iniciada no fim de maio daquele ano para fazer campanha junto aos eleitores do COI.

Cabral confessou no último dia 4 ter pago US$ 2 milhões (R$ 7,61 milhões) ao senegalês Lamine Diack, membro do COI, sob a promessa de garantir até nove votos para o Rio de Janeiro. Segundo o ex-governador, a sugestão para o pagamento foi feita por Nuzman e o então diretor da Rio-2016 Leonardo Gryner.

O comitê eleitoral do COI era composto por 98 eleitores e a votação para escolha da sede é secreta. Disputavam com o Rio de Janeiro, Madri, Tóquio e Chicago. A cada rodada de votação, a menos escolhida era eliminada.

De acordo com Cabral, o objetivo da propina era garantir votos suficientes para não serem eliminados no primeiro turno da votação. Nele, a cidade brasileira teve 26 votos, enquanto Chicago foi eliminada com 18. Caso a candidatura carioca tivesse perdido os nove votos supostamente comprados, a cidade não teria passado.

Após a primeira rodada, o Rio manteve larga vantagem sobre as demais, tendo atraído a maioria dos votos dos eleitores das cidades eliminadas. Na última votação, superou Madri com 66 a 32 votos.

O ex-governador identificou o período do encontro com Nuzman e Gryner no palácio usando como referência o intervalo entre os Mundiais de esportes aquáticos, realizado em Roma e encerrado em 2 de agosto, e de atletismo, ocorrido em Berlim a partir do dia 15 do mesmo mês.

“Ele [Nuzman] precisava do meu ok anterior para ir lá [em Berlim] combinar com Diack e garantir as tratativas da vantagem indevida e dos votos que eles dariam a nós”, disse Cabral. O senegalês era presidente da federação internacional de atletismo, organizadora do Mundial.

Lamine Diack, ex-presidente da federação internacional de atletismo, durante Mundial de 2009 em Berlim
Lamine Diack, ex-presidente da federação internacional de atletismo, durante Mundial de 2009 em Berlim - Fabrice Coffrini - 14.ago.09/AFP

A campanha olímpica foi dividida em fases. Até maio de 2009, o comitê de candidatura se concentrou em melhorar aspectos técnicos da proposta para a visita do comitê de avaliação do COI, realizada naquele mês.

Foi após a visita dos técnicos do COI que os dirigentes da Rio-2016 passaram a viajar para encontrar os 98 eleitores da entidade.

Nuzman saiu do país em 26 de maio, a caminho de Marrakech (Marrocos). Passou por países da África, Ásia e Europa até 13 de julho, quando voltou ao Brasil. Uma semana depois, retomou o tour até o dia 4 de agosto. No dia 10, embarcou para Berlim para o Mundial de atletismo e só retornou após a vitória carioca em Copenhague, em 3 de outubro.

O ex-presidente do COB afirmou em depoimento à Justiça que uma das estratégias adotadas pelo comitê de candidatura era visitar todos os membros do COI em seus respectivos países. O objetivo era mostrar dedicação e respeito aos eleitores.

“Fui na casa de todos os membros. A grande reclamação do pessoal de países pobres, distantes, é que as candidaturas não iam lá, mandavam carta. Eu aprendi de ir lá”, disse Nuzman. As informações sobre as viagens foram apresentadas pela defesa de Nuzman ao juiz Marcelo Bretas. Ele e Gryner visitaram pessoalmente Lamine Diack em Dacar, capital do Senegal, no dia 29 de agosto.

O pagamento ocorreu no fim de setembro, quando o empresário Arthur Soares depositou US$ 2 milhões (R$ 7,61 milhões) em contas de empresa de Papa Massata Diack, filho de Lamine.

O advogado João Francisco Neto, defensor de Nuzman, disse que no período em que esteve no Brasil em agosto foram realizadas reuniões com o ex-governador e outras autoridades e membros do comitê.

“Nuzman rodou o mundo com as autoridades brasileiras durante a campanha e não pode se responsabilizar por ações autônomas do senhor Sérgio Cabral. Nuzman nunca intermediou nem teve conhecimento dessa suposta tratativa. O ex-governador esteve em reuniões individuais com vários membros do COI, inclusive o senhor Lamine Diack. Não apenas ele, mas todas as outras autoridades das cidades candidatas”, declarou o advogado

Gryner negou em depoimento ter participado de pagamento de propina.

“Ficou claro que Cabral falta com a verdade e não apresenta qualquer prova de seus relatos, mantendo-se íntegra a prova produzida na instrução criminal que isenta Leonardo Gryner de qualquer responsabilidade. Se houve compra de votos, ele não participou”, afirmou a defesa do ex-diretor da Rio-2016.

A defesa de Soares disse estar à disposição da Justiça.

Carlos Arthur Nuzman é preso preventivamente em outubro de 2017; ele foi solto 15 dias depois
Carlos Arthur Nuzman é preso preventivamente em outubro de 2017; ele foi solto 15 dias depois - Bruno Kelly - 5.out.17/Reuters
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