Sampaoli trabalha como um 'manager' e dita regras no Santos

Time enfrenta o São Paulo neste sábado (10) e pode abrir vantagem na liderança

Klaus Richmond
Santos

O argentino Jorge Sampaoli, 59, é bem mais do que o estilo de jogo por trás do Santos que lidera o Brasileiro com 32 pontos, 4 a mais do que o segundo colocado Palmeiras. Com o treinador, o time, que enfrenta o São Paulo, às 17h, no Morumbi, teve arrancada de sete vitórias consecutivas na competição. Com oito meses de trabalho, o técnico tem poderes de ‘manager’ e controla quase tudo no CT Rei Pelé, pedindo a demissão de funcionários antigos e afastando jogadores. O clube, porém, nega que as demissões tenham sido de responsabilidade do treinador.

Idolatrado pelos torcedores e celebridade na cidade, Sampaoli mantém relação distante com membros da comissão técnica permanente do clube, encabeçada por Serginho Chulapa. Ele só se dirige aos profissionais de sua confiança, caso dos argentinos Jorge Desio, com quem trabalha há mais de 25 anos, Pablo Fernández, Carlos Desio e Marcos Fernández.

Sampaoli foi o primeiro técnico em anos a mudar a própria sala de trabalho no clube. Ocupa um espaço compartilhado com o departamento de análise e estatística.

Jorge Sampaoli durante treino do Santos no CT Rei Pelé
Jorge Sampaoli durante treino do Santos no CT Rei Pelé - Ivan Storti

Durante a paralisação para a Copa América, solicitou um vestiário exclusivo para a sua comissão. O auxiliar técnico Chulapa e outros funcionários foram avisados que deveriam utilizar outro espaço, bem mais modesto, dividido com outros departamentos.

O Santos confirma que os profissionais foram remanejados para outro vestiário momentaneamente, mas justificou que o espaço, assim como outros do CT Rei Pelé, passam por modernizações.

No dia a dia, o argentino impôs que funcionários que não participam dos trabalhos no campo não assistam aos treinamentos. Tem receio de que informações sejam vazadas.

Ele tem obsessão pelo seu método de trabalho. Pediu para ser sempre consultado quando o time feminino pretende utilizar o campo da Vila Belmiro ou do CT para treinos, e várias vezes já vetou seu uso. O argentino desconfia que possa haver espiões.

Na Copa de 2014, quando trabalhava na seleção chilena, transformou a Toca da Raposa, centro de treinamentos do Cruzeiro, em uma espécie de quartel-general, com esquema rígido de segurança.
Na ocasião, trouxe ao país carabineros, policiais militares chilenos, e pediu a instalação de outdoors para que ninguém pudesse ver seus trabalhos, nem mesmo de longa distância. No ano seguinte, montou esquema similar para a disputa da Copa América.

No Santos, não é diferente. Pediu a contratação de Gabriel Andreata como gerente de futebol. Eles trabalharam juntos no Coronel Bolognesi, do Peru, em seu início de carreira. Andreta também atua como outro par de olhos para  Sampaoli dentro do CT.

O clube gastou quase R$ 80 milhões para trazer nomes aprovados pelo técnico como os do meia-atacante venezuelano Yeferson Soteldo (R$ 13 milhões), o zagueiro colombiano Felipe Aguilar (R$ 15 milhões) e o peruano Cueva (R$ 26 milhões). Ainda pediu a chegada de um goleiro que tivesse bom jogo com os pés. Éverson foi contratado do Ceará por R$ 4 milhões e Vanderlei foi relegado à reserva.

O Santos trouxe 14 jogadores. Os últimos foram os acertos com o lateral direito Pará, liberado pelo Flamengo, do zagueiro Luan Peres e do atacante Lucas Venuto.

A contratação de Pará, por exemplo, foi para atender a um pedido do treinador, que não aceitou outras opções. O volante Jobson, trazido pela diretoria após se destacar no Paulista, jamais jogou após mais de um mês no clube.

A quantidade de reforços adquiridos não é unanimidade no clube. Os gastos com o departamento de futebol profissional foram questionados por relatório da comissão fiscal referente ao primeiro trimestre deste ano. Em março, os gastos com a folha de pagamento, incluindo impostos e direito de imagem, foi de R$ 13,6 milhões. Os conselheiros consideram o valor fora da realidade do Santos.

Ao contrário do que acontecia na passagem de Cuca pelo clube, o presidente do Santos, José Carlos Peres, evita enfrentamentos com Sampaoli.

No último ano, o atual técnico do São Paulo criticou a gestão do Santos após a eliminação na Libertadores, impulsionada por um erro na escalação do uruguaio Carlos Sánchez. Ele citou que o clube deveria melhorar administrativamente. Peres rebateu dizendo que ao treinador caberia apenas “tocar a parte técnica”, enquanto a diretoria a parte administrativa e financeira.

Sampaoli já se queixou de promessas não cumpridas e de não ser ouvido por Peres.

“Sou muito insistente com a diretoria. A diretoria, na realidade, eu nem conheço. Conheço o presidente, que é quem decide. Passei a necessidade [de reforços] há mais de dois meses. Seis ou sete nomes [de meias] para vir dois e não veio nenhum. O clube não teve condições de compartilhar comigo essas decisões dos três jogadores [recém-contratados]. Foi um trabalho sem sentido”, afirmou.

Antes, já havia dito não ter sido consultado sobre a contratação de Paulo Autuori como novo diretor de futebol. Dirigentes do Santos tentam melhorar a relação com treinador, para evitar um fim precoce para a relação.

O clube já viveu relação semelhante com outros técnicos. Na primeira década do século, Vanderlei Luxemburgo, hoje no Vasco, tinha liberdade para indicar contratações e atuar no planejamento.

Poderoso, Sampaoli se sente à vontade na cidade. Toma café da manhã em padarias, costuma ir de bicicleta para os treinos e vai está diariamente à praia para praticar esporte ou passear com os quatro cachorros que trouxe da Argentina, junto com sua esposa e o amigo Gustavo Pinelli.

Quando não pedala, ele utiliza uma BMW cedida pelo clube para circular pela cidade.

Por onde passa, encontra torcedores santistas que pedem para tirar fotos com ele.

No CT Rei Pelé, criou relação próxima com um grupo de crianças que acompanham de cima de uma árvore os treinos. O técnico diz lembrar da própria história quando, ainda no início da carreira, pelo Clube Atlético Belgrano, de Casilda, sua cidade natal, foi expulso de um jogo e comandou a equipe vendo o jogo de cima de uma árvore.

Ele já presenteou as crianças com pares de chuteiras, roupas e permite que elas assistam às atividades, fechadas em sua maior parte.

Trabalhador incansável, Sampaoli já buscou desafios em diversas modalidades de praia. O futevôlei foi a que mais gostou, esporte no qual tem se dedicado em aulas com um atleta profissional. Também tem praticado tamboréu —variação do tênis, jogado com um pandeiro, prática muito popular em Santos.

O argentino não conseguiu se separar da areia desde a chegada. Passou os primeiros meses em um hotel com vista para o mar bancado pelo clube, mas depois mudou-se para uma mansão em um condomínio fechado, no morro Santa Terezinha, uma das regiões mais caras da cidade.

Não se adaptou ao condomínio e abdicou do lugar para morar novamente próximo à praia, em uma cobertura que pertenceu ao goleiro Rafael Cabral, campeão da Libertadores em 2011 e hoje está na Sampdoria, da Itália.

A vista não parece ter convencido o argentino sobre sua permanência no clube. Questionado recentemente sobre seu contrato, deixou em dúvida se ficaria para o próximo ano —o acordo com o Santos vai até o final de 2020. Enquanto estiver no clube, a liderança de Sampaoli se estenderá para além da quatro linhas.

A Folha tentou entrevistar Jorge Sampaoli, mas ele não quis falar com a reportagem. Segundo sua assessoria de imprensa pessoal, ele não tem intenção de conceder entrevistas individuais no Brasil.

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