Crise faz jogadores de basquete trocarem Argentina pelo Brasil

Dobra número de atletas que deixaram a La Liga para atuar no NBB nesta temporada

Daniel E. de Castro
São Paulo

Enquanto a Argentina se orgulha da campanha do vice-campeonato da seleção de basquete na Copa do Mundo, a La Liga (principal competição nacional) convive com o aumento no número de jogadores migraram para clubes brasileiros.

Dez atletas que estavam em equipes argentinas até a última temporada, nascidos no próprio país ou de outras nacionalidades, já foram confirmados como reforços de times do NBB (Novo Basquete Brasil) para a edição 2019/20. Um aumento em relação às edições anteriores. Foram 2 em 2017 e 5 no ano passado que deixaram a liga argentina para atuar no Brasil.

Entre os fatores que explicam o crescimento desse fluxo está a severa crise econômica pela qual passa a nação presidida por Mauricio Macri. No fim de agosto, o governo decidiu declarar moratória (adiar o prazo de pagamento) de parte de sua dívida de curto prazo.

Atualmente, 1 dólar equivale a 57 pesos argentinos, cenário que torna difícil o fechamento de contratos em moeda estrangeira com jogadores de fora e traz insegurança financeira para muitos atletas.

Lucas Faggiano, 30, foi um que deixou uma equipe da La Liga para jogar no Bauru na próxima temporada do NBB, que começa dia 12 de outubro.

“Os clubes na Argentina refletem o que o país vive no momento. Então, em períodos de dificuldade econômica, eles também se veem afetados de maneira direta e indireta nos ingressos, patrocinadores e na montagem de elenco”, diz o armador.

Lucas Faggiano, do Bauru, arremessa bola em jogo contra o São José, no ginásio Panela de Pressão, pelo Campeonato Paulista
Lucas Faggiano, do Bauru, arremessa bola em jogo contra o São José, no ginásio Panela de Pressão, pelo Campeonato Paulista - Victor Lira - 3.set.19/ Bauru Basket

Enrique Agosti, dirigente do Estudiantes de Concordia, cidade com cerca de 200 mil habitantes localizada na província de Entre Ríos (a cerca de 430 km de Buenos Aires), concorda com o atleta.

“A verdade é que é muito difícil fazer basquete profissional na Argentina, ainda mais em um clube de bairro [equipes menores]”

Historicamente, não havia uma diferença muito grande na média dos salários pagos nos campeonatos de primeira divisão de Brasil e Argentina. Atualmente, porém, a variação do câmbio torna a comparação com os rivais sul-americanos favorável aos brasileiros, ainda que as equipes do NBB também sofram com as oscilações econômicas e os contratos firmados em dólar.

“Infelizmente, nossa economia ainda não nos permite ampliar e melhorar a qualidade das nossas contratações como é feito hoje, por exemplo, na Espanha. Mas de certa forma conseguimos manter um número considerável de bons jogadores estrangeiros por aqui”, afirma Sérgio Domenici, CEO da Liga Nacional de Basquete (LNB), que organiza o NBB.

Há outras razões, além da situação econômica, que ajudam a explicar o aumento no êxodo dos argentinos. Em geral, a elite do basquete brasileiro leva vantagem sobre os vizinhos na estrutura física dos ginásios e principalmente na parte logística.

Na Argentina, os times jogam mais vezes durante a temporada e costumam encarar centenas de quilômetros de estrada para entrar em quadra. Segundo Agosti, no caso do Estudiantes apenas distâncias acima de 600 km são percorridas de avião. Para trechos mais curtos, o clube utiliza um motorhome.

Também contribuíram com esse crescimento o aumento do limite para quatro jogadores estrangeiros por equipe no NBB (era de três até a última temporada) e a possibilidade de sucesso evidenciada por alguns dos argentinos que chegaram ao Brasil nos últimos anos.

O armador do Flamengo Franco Balbi, 30, é um bom exemplo. Além de conquistar o título brasileiro com a equipe rubro-negra em junho, ele foi eleito o melhor jogador de sua posição e o melhor atleta estrangeiro do torneio logo em seu primeiro ano no país.

Nicolás Laprovíttola, 29, também ganhou projeção no Flamengo, que defendeu de 2013 a 2015, antes de seguir para a Europa. Eleito o melhor jogador da última liga espanhola, o armador estava no elenco da Argentina no último Mundial. A seleção vice-campeã foi treinada por Sergio Hernández, que comandou o Brasília em 2013/14.

Apesar de no momento o basquete brasileiro estar na posição de importador em sua relação com os argentinos —são raras as saídas de jogadores daqui para lá—, a La Liga (criada em 1984) foi e ainda é usada como exemplo para o desenvolvimento da LNB (nascida em 2008).

“Sempre os visitamos para buscarmos conhecimento, afinal eles acumularam muita experiência e sucesso. Em todos esses anos, sempre nos receberam muito bem, e até hoje mantemos uma forte amizade e parceria”, diz Domenici.

No último fim de semana, o Bauru sagrou-se campeão do torneio de pré-temporada Interligas, disputado entre equipes dos dois países.

Com dificuldades para manter seus melhores atletas, a La Liga se orgulha de ter revelado os atletas responsáveis pelas gerações mais vitoriosas do basquete argentino, que acumula dois vices Mundiais e uma medalha de ouro na Olimpíada no século. Dos 12 integrantes do time que acaba de ser vice-campeão, 3 ainda atuam em equipes do país.

“A liga permitiu o desenvolvimento de jogadores que depois podem crescer em outras partes do mundo, e isso levou a um salto na qualidade quando se fala em seleção argentina”, afirma Faggiano.

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