Comitê antidoping recomenda nova suspensão olímpica para a Rússia

Decisão será tomada em dezembro e pode deixar país fora de eventos por 4 anos

Tariq Panja
Nova York | The New York Times

Um comitê da Agência Mundial Antidoping (Wada, na sigla em inglês) recomendou que a Rússia seja suspensa por quatro anos das competições esportivas internacionais, depois que investigadores descobriram que dirigentes russos excluíram resultados de exames antidoping que haviam flagrado atletas do país de um banco de dados submetido às autoridades antidoping internacionais.

As recomendações, caso aprovadas, resultarão em que atletas e equipes russos sejam excluídos não só da Olimpíada de Tóquio, no ano que vem, mas de uma série de outras grandes competições.

Nos termos das recomendações, os atletas russos competiriam pela segunda Olimpíada consecutiva usando uniformes neutros e receberiam quaisquer medalhas conquistadas sem que a bandeira de seu pais seja hasteada ou seu hino nacional executado.

Logo do Comitê Olímpico da Rússia no prédio da entidade em Moscou
Logo do Comitê Olímpico da Rússia no prédio da entidade em Moscou - Kirill Kudryavtsev/AFP

As punições propostas foram incluídas em um relatório produzido por um comitê da Wada presidido pelo advogado britânico Jonathan Taylor.

O comitê vinha investigando há diversos anos o cumprimento pela Rússia das regras antidoping internacionais, depois de um escândalo anterior; entre as conclusões a que o comitê chegou está a de que a Rússia deliberadamente manipulou um banco de dados de resultados de exames antidoping entregue à Wada como parte de um acordo sobre uma investigação anterior por doping, a fim de ocultar exames nos quais atletas russos foram apanhados usando doping.

Uma decisão final sobre as punições propostas deve ser tomada até o dia 9 de dezembro, quando o conselho da Wada se reunirá em Paris. A expectativa é de que as recomendações sejam aceitas. Qualquer decisão pela Wada estaria sujeita a recurso junto ao Tribunal Arbitral do Esporte.

Um porta-voz da Wada se recusou a comentar sobre o relatório ou suas conclusões.

A decisão de suspender a Rússia e impor restrições aos seus atletas e equipes é o mais recente capítulo em um escândalo que emergiu inicialmente em 2015, com revelações sobre um amplo programa de doping patrocinado pelo Estado e notável por sua escala e sofisticação.

Se o conselho da Wada concordar com as recomendações de Taylor, como se espera, os atletas russos só poderão competir em Tóquio em condições semelhantes às que vigoraram na Olimpíada de Inverno de Pyeongchang, na Coreia do Sul, em 2018.

Atletas russos competiram sob a bandeira do Comitê Olímpico Internacional em Pyeongchang-2018
Atletas russos competiram sob a bandeira do Comitê Olímpico Internacional em Pyeongchang-2018 - David W Cerny - 25.fev.18/Reuters

Naqueles jogos, as federações esportivas individuais foram autorizadas a liberar participantes específicos, e o mesmo padrão pode ser aplicado no ano que vem, de acordo com pessoas diretamente informadas sobre o conteúdo do relatório. Em Pyeongchang, atletas russos com históricos limpos nos exames antidoping marcharam sob a bandeira do Comitê Olímpico Internacional (COI) e competiram sob uma designação especial, “atleta olímpico da Rússia”.

Mas as penalidades propostas afetarão os esportes russos muito além dos Jogos Olímpicos. De acordo com pessoas que viram o relatório, a recomendação é que a Rússia seja excluída de todas as competições internacionais por quatro anos, pelas federações esportivas que são signatárias do código da Wada, o que inclui a Fifa, a organização que comanda o futebol mundial, organizadora da Copa do Mundo de 2022 no Qatar.

O relatório também pede que integrantes do governo russo sejam proibidos de comparecer a eventos esportivos internacionais e que o país seja proibido de organizar eventos esportivos internacionais, ou se candidatar a organizá-los, por quatro anos, o que significa que o exílio da Rússia como organizadora duraria ainda mais, de acordo com pessoas informadas sobre o assunto. As fontes recusaram autorização para que seus nomes fossem divulgados porque não tinham autorização para falar publicamente sobre o conteúdo do relatório.

Mas a perspectiva de ter centenas de atletas russos competindo em Tóquio –mesmo que eles tenham sido liberados pelas autoridades antidoping– deve ser criticada por algumas organizações de atletas e agências antidoping nacionais, que continuam zangadas por a Rússia não ter sido suficientemente responsabilizada pela execução de um imenso programa de doping que colocou resultados em questão em diversos Jogos Olímpicos e em dezenas de outras competições.

Mas a decisão se enquadraria à preferência de Thomas Bach, o presidente do COI, que se opõe a qualquer coisa que se assemelhe a uma exclusão geral.

“Nosso princípio é de que os culpados devem ser punidos com todo o rigor possível, e os inocentes devem ser protegidos”, disse Bach na semana passada.

Sob regras adotadas em 2018, a Wada tem completa autoridade para punir a Rússia, algo que não era o caso quando o escândalo emergiu inicialmente, depois da Olimpíada de Inverno de Sochi, em 2014.

Na época, as federações esportivas individuais e o COI foram autorizados a lidar com a trapaça russa como preferissem. Os resultados foram controversos, com diversas federações deixando de agir decisivamente, e o COI acolhendo a Rússia de volta quase imediatamente depois da Olimpíada de Pyeongchang, mesmo que o país ainda não tivesse sido liberado pela Wada.

A Wada enfim restaurou os poderes da agência antidoping russa no ano passado, ainda que tenha reservado o direito de impor punições mais fortes se a Rússia não fornecesse dados sobre atletas obtidos pelo laboratório em Moscou, que teve posição central no escândalo.

Em setembro, investigadores da Wada descobriram que os dados submetidos haviam sido alterados, e a organização disse à Rússia que esta precisava oferecer uma justificativa convincente para as alterações, sob pena de punição severa.

O comitê de Taylor considerou a resposta russa inadequada e preparou um relatório que foi enviado aos membros do conselho da Wada no final da semana passada.

A severidade da punição, que quase certamente será alvo de recurso se o conselho da Wada adotar as recomendações do comitê de Taylor, imediatamente criou incerteza quanto a outros grandes eventos esportivos, como a Eurocopa de futebol, na metade do ano que vem. A Rússia está classificada para o torneio e proverá uma das cidades sedes.

Yury Ganus, presidente da Rusada, a Agência Antidoping da Rússia
Yury Ganus, presidente da Rusada, a Agência Antidoping da Rússia - Dimitar Dilkoff - 22.out.19/AFP

As punições se alinham a recentes comentários de Yuri Ganus, presidente da agência antidoping russa, que criticou fortemente a condução da crise de doping pelo seu país e previu uma suspensão de anos de duração.

Ganus disse que, ao apagar os dados, as autoridades russas haviam criado a “maior crise” da história para o esporte do país, que continua a sofrer as consequências de um programa de trapaça que era comandado por Grigory Rodchenkov, o antigo presidente da agência antidoping russa, com apoio dos serviços de inteligência do país, de acordo com uma investigação independente.

Rodchenkov agora vive nos Estados Unidos, depois de revelar o esquema que criou e ter fugido da Rússia.

Não se sabe quanto atletas russos poderiam ficar excluídos de competições se as novas recomendações conduzirem a uma série de revisões de elegibilidade. Mas dirigentes da Wada disseram que identificaram os russos cujos dados foram excluídos do banco de dados manipulado fornecido à organização.

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