Descrição de chapéu Campeonato Brasileiro

Faz muito tempo, mas Luxemburgo já inovou no Palmeiras

Do figurino ao sistema tático, técnico de 67 anos foi vanguarda nos anos 1990

São Paulo

Contratado para assumir o Palmeiras em 2020, Vanderlei Luxemburgo combate há algum tempo a pecha de ultrapassado. O treinador de 67 anos vai começar sua quinta passagem pelo clube alviverde tentando mostrar que tem a capacidade de repetir alguns de seus melhores momentos em verde e branco.

“Acho que me rotular como ultrapassado foi uma sacanagem que fizeram comigo”, disse o técnico, em entrevista recente, quando comandava o Vasco da Gama. “É só no futebol que se fala que o velho está ultrapassado. Na medicina, no direito, o cara fica melhor, mais sábio. Eu não me sinto ultrapassado. Eu me sinto bem atualizado.”

Vanderlei Luxemburgo, em 1993, seu primeiro ano à frente do Palmeiras - Acervo - 27.ago.93/Folhapress

No auge de seu sucesso, Luxemburgo foi visto e se vendeu como inovador. Da roupa usada à beira do gramado a um programa de computador com esquemas táticos, o técnico apresentou novidades na década de 1990.

“Ultrapassado? Para alguns, sim. Para os que trabalharam com ele, não”, elogiou o ex-goleiro Marcos, 46, entusiasmado com a volta do velho comandante.

Luxemburgo dirigiu o time alviverde em 1993-1994, 1995-1996, 2002 e 2008-2009. 

Na estica

Em sua primeira passagem pelo Palmeiras, Vanderlei Luxemburgo chamou a atenção por dirigir o time de terno. Não existia essa prática no Brasil, com temperaturas mais altas do que a registrada nos países da Europa onde isso já era habitual. Mas ver a Alemanha campeã do mundo de 1990 lhe deu a ideia.

“Na Copa do Mundo, o [técnico Franz] Beckenbauer parecia um poste na beira do túnel. No banco, ele colocava o braço em cima do banco, com aqueles ternos, e o pessoal achava fantástico todo aquele estilo. Era muito bonito. E eu falei: temos que fazer o mesmo no Brasil”, contou o fluminense de Nova Iguaçu.

Vanderlei Luxemburgo fazia questão de dirigir o time de terno - Rivaldo Gomes - 14.mar.09/Folhapress

Hoje, Luxemburgo já não trata o terno como obrigatório. Há jogos em que ele prefere trabalhar com uma camisa polo ou com um agasalho do clube, como vinha fazendo no Vasco, sua equipe no último Campeonato Brasileiro. Mas seu estilo influenciou toda uma geração de treinadores, agora mais preocupados com a própria imagem.

Falso 9

Não era exatamente algo inédito, mas a disposição tática do Palmeiras que enfileirou conquistas entre 1993 e 1994 (dois Paulistas, um Rio-São Paulo e dois Brasileiros) era diferente da usada pelos adversários. O time atuava com uma espécie de falso centroavante, recurso que passou a ser habitual nos anos 2000.

Na formação alviverde da época, essa função era executada por Evair, que fazia muitos gols, mas não era um típico camisa 9. Ele deixava bastante a área, o que abria espaço para as investidas de Edílson e Edmundo, em 1993. Um ano depois, Rivaldo substituiu Edílson na formação do ataque. Como se vê pelos nomes, não faltavam grandes jogadores a Luxemburgo.

Radinho e time 3-D

Em sua segunda passagem pelo Palmeiras, Luxemburgo colocou no clube Wagner Martinho, que bateu à porta com um programa de computador, o “Tática 3-D”. O software permitia a montagem gráfica da equipe para apresentações aos atletas e foi uma das ferramentas do histórico time campeão paulista de 1996, que marcou mais de cem gols.

Martinho passou a ajudar o técnico também com filmagens dos adversários, hoje ponto central do trabalho dos times, com grandes departamentos de análise de desempenho. Foi também nessa época que o comandante começou a se comunicar por meio de um rádio com um auxiliar que via o jogo de cima, de uma posição melhor para observações táticas.

Psicologia motivacional

Foi também trabalhando com Wagner Martinho que Luxemburgo aprimorou as técnicas para motivar os jogadores antes das partidas. Passou a usar vídeos, gravados em fitas, que apresentavam imagens dos familiares dos jogadores acompanhadas de frases que o técnico considerava impactantes, de filósofos antigos a autores modernos, como Paulo Coelho.

Até hoje, são célebres os discursos do treinador, que, se não exatamente inovadores, são certamente originais.

Antes da final do Campeonato Paulista de 2008, por exemplo, ele fez os atletas vestirem as faixas de campeão para que eles tivessem a certeza da vitória sobre a Ponte Preta. Entre gritos de "bota a faixa", o técnico conclui: “Se vocês tinham alguma dúvida, ela foi dissipada agora”.

Manager

Luxemburgo buscou, nas vezes em que dirigiu o Palmeiras, ter influência em decisões da diretoria e uma participação maior na montagem dos elencos. Ele sempre citava o termo “manager”, usado na Europa com os treinadores que cuidavam não apenas da parte técnica mas também tinham poderes administrativos.

A palavra passou a ser utilizada de maneira pejorativa por aqueles que criticavam essa busca do treinador por poder. Vanderlei questionou essas críticas e defendeu sua visão de futebol na última vez em que foi apresentado no clube alviverde, na virada de 2007 para 2008.

“Eu sempre trabalhei em todos os clubes auxiliando a diretoria nas contratações e na reestruturação do clube. Conheço gerenciamento e me coloco à disposição para ajudar os dirigentes”, disse, defendendo-se das insinuações de que seus objetivos não eram esportivos. “Não existe nada de negociata, falcatrua ou sacanagem no meu trabalho. Não tenho participação em negociações.”

Erramos: o texto foi alterado

O Palmeiras conquistou dois títulos paulistas em 1993 e 1994, não um, como havia sido informado anteriormente. O texto foi corrigido.

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