Descrição de chapéu Tóquio 2020

Por que a seleção de vôlei masculino tem fama de bolsonarista?

Atletas posando a favor de presidente e processo contra jogadora que o criticou reforçam imagem

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Carlos Petrocilo Josué Seixas
Tóquio e Maceió

Nem só de aces vive a seleção brasileira de vôlei masculino. O time que está em Tóquio preserva também a fama de ser bolsonarista, essa menos celebrada. A cada partida relevante, como na vitória sobre a Polônia na final da Liga das Nações, em junho, chovem críticas nas redes sociais.

Nas Olimpíadas de Tóquio-2020 não tem sido diferente. O tema é um espinho na carne para a CBV (Confederação Brasileira de Voleibol). Episódios recentes, dentro e fora de quadra, aproximam a entidade do governo Jair Bolsonaro num momento em que o presidente atravessa sua pior popularidade.

Pesquisa Datafolha de julho aponta que a reprovação a Bolsonaro subiu para 51%, novo recorde. A associação começou em setembro de 2018, no Campeonato Mundial, a poucas semanas do triunfo bolsonarista nas urnas. Ao comemorar a vitória sobre a França, dois jogadores, o central Maurício Souza e o ponteiro Wallace, posaram para foto fazendo com os dedos o 17, número do então candidato.

Wallace e Maurício Souza saltam para o bloqueio contra a Itália, nos Jogos do Rio-2016
Wallace e Maurício Souza saltam para o bloqueio contra a Itália, nos Jogos do Rio-2016 - Yves Herman - 13.ago.2016/Reuters

As imagens foram publicadas na conta oficial da CBV no Instagram e depois removidas. Na ocasião, a confederação emitiu uma nota de repúdio e se comprometeu a “tomar providências para não permitir que aconteçam manifestações coletivas". Pouco adiantou. Dois anos depois, Carol Solberg, do vôlei de praia, gritou "fora, Bolsonaro" no microfone do canal SporTV após um jogo em Saquarema.

Veio outra nota de repúdio da entidade, considerada mais tempestuosa do que a anterior pelos críticos de Bolsonaro. Nela, a CBV afirmou que expressava "de forma veemente o seu repúdio sobre a utilização dos eventos organizados pela entidade para realização de quaisquer manifestações de cunho político”. E mais: "Aproveitamos ainda para demonstrar toda nossa tristeza e insatisfação” com a conduta da atleta.

Ao contrário de Maurício Souza e Wallace, Carol foi denunciada ao STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva), sob acusação de ter prejudicado a imagem da CBV. Teve de se defender sob risco de ser multada de R$ 100 a R$ 100 mil e ser suspensa por até seis partidas.

O caso transbordou o âmbito esportivo. O presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz, sem experiência no direito esportivo, decidiu assumir a defesa da jogadora.

São famosos os atritos entre Santa Cruz e Bolsonaro. O presidente já disse que um dia contaria como o pai do advogado desapareceu durante a ditadura militar —Fernando Augusto Santa Cruz de Oliveira foi preso por agentes do DOI-Codi em fevereiro de 1974 e nunca mais foi visto. Décadas depois, o filho foi ao STF (Supremo Tribunal Federal) cobrar explicações pela fala presidencial.

Já Carol recebeu multa de R$ 1.000, convertida em advertência pelo STJD. A entidade temeu que o episódio prejudicasse sua relação com o Banco do Brasil, parceiro da modalidade desde 1991. Somando os repasses entre 2017 até 2020, o banco destinou R$ 230 milhões para patrocinar atletas do vôlei de quadra e de praia, segundo a assessoria de imprensa da estatal.

Para os fãs do time, é uma injustiça atribuir à seleção a fama de pró-Bolsonaro com base no que consideram atos isolados. “Alguns atletas —o Wallace, o Maurício Souza e o William, que nem foi para a Olimpíada— já se posicionaram com apreço pelo eleito em questão. Os demais estiveram ali mais para jogar bola”, afirma o torcedor Edgar Neto, consultor de marketing.

“Há uma questão de decoro. Apesar de eu não gostar que o presidente da CBF [Confederação Brasileira de Futebol] entregue uma camisa para o Bolsonaro, por exemplo, entendo que a CBV tem a responsabilidade de respeitar o presidente da República”, diz o economista Vinicius Gholmie.

Nova ação reaqueceu a discussão em janeiro, quando o técnico Renan Dal Zotto e Radamés Lattari, vice-presidente da CBV, saíram numa foto segurando uma camisa da seleção com o nome de Arthur Lira (PP-AL) e o número 11, em alusão a seu partido, o Progressistas. Lira teve o apoio de Bolsonaro para assumir a presidência da Câmara dos Deputados.

Com a repercussão, Dal Zotto gravou um vídeo para dizer que tudo não passou de uma campanha de marketing. “Jamais passou pela minha cabeça tornar aquilo uma ação política, até porque nunca me envolvi em política. É uma ação de marketing que a CBV faz há muitos anos, presenteando algumas autoridades”, afirmou o treinador.

Para a alagoana Juliana Amaral, que foi praticante de vôlei e hoje acompanha o esporte, a seleção brasileira ganhou um reforço importante nos Jogos de Tóquio para se desvincular do rótulo bolsonarista: o ponteiro Douglas Souza. “Quem se manifestou a favor de Bolsonaro ficou impune, e a Carol foi multada, censurada. Os jogadores recuaram quanto às manifestações explícitas. É um misto de reações, mas o público do vôlei, agora, é mais sensato e cobra a CBV”, diz Amaral.

Reserva da seleção e homossexual assumido, Douglas tem feito sucesso ao mostrar os bastidores da seleção e as instalações da Vila Olímpica. Em menos de uma semana, conquistou mais de dois milhões de seguidores no Instagram com postagens e vídeos bem-humorados.

“O Douglas foi campeão em 2016, mas ele viralizou hoje com o reflexo da personalidade dele, o que significa um reflexo da evolução da sociedade em acolher atletas independentemente da sua orientação sexual”, diz Juliana. A CBV está satisfeita com a audiência de Douglas nas Olimpíadas, mas pediu que a comissão técnica reiterasse a diretriz: nada de expressar preferências políticas e partidárias.

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