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Mundial de Clubes 2019

Flamengo muda Mundial de Clubes porque é o sul-americano que ataca

Decisão deste sábado será diferente de todas as outras dos últimos 23 anos

Paulo Vinicius Coelho
Doha

Jorge Jesus tinha apenas uma certeza antes de enfrentar o Liverpool: “Se passarmos pelo Al-Hilal, é claro, vamos atacar.” Disse isso logo depois da entrevista coletiva que antecedeu ao confronto da semifinal.

Neste sábado (21), Flamengo e Liverpool decidem o título mundial, às 14h30 (de Brasília).  O duelo terá transmissão ao vivo pela TV Globo e SporTV.

Antes de sair das conferências de imprensa, Jorge Jesus sempre conversa com os jornalistas portugueses. ​

Encostei, à espreita. Cumprimentou-me, e foi a chance de uma conversa rápida, muito melhor do que as entrevistas formais. “Você diz que, na Europa, não ligavam para o Mundial de Clubes. Mas nem em Portugal?”, pergunto.

“Não...”, responde com certo olhar de desprezo. “Era a taça da chave. Tu te lembras? Entregavam a chave do carro para o vencedor. Agora é muito mais importante e será muito mais difícil no futuro, quando a Fifa fizer o torneio com 24 clubes."

Também não é bem verdade que em Portugal se desprezasse o torneio. Quando o Porto venceu, em 2004, havia festa na Baixa, a região central da cidade, e recepção no aeroporto para os campeões mundiais. Em 1987, os portistas também se definiram campeões mundiais.

Tinha relevância. O que não tira a razão de Jorge Jesus ao afirmar que o Mundial ganhará mais importância quando for disputado de quatro em quatro anos, com 24 times e muito mais difícil de se vencer.

O Mundial mudou muito desde 1996, e essa foi a segunda parte da conversa com o treinador português, na saída do centro de imprensa de Doha.

A fronteira do futebol moderno é o ano em que o belga Jean-Marc Bosman ganhou ação contra o Liège, da Bélgica, que o impediu de mudar de emprego e aceitar o convite do Dunkerque, da França.

Na ação, a Uefa definiu que todo jogador europeu, como todo engenheiro, médico ou advogado, tinha o direito de trabalhar livremente em qualquer país da comunidade europeia. Na prática, isso significou o fim do limite de estrangeiros e a passagem livre para jogadores sul-americanos com passaporte europeu.

Jorge Jesus reage à observação com uma pergunta: “Tu estás a dizer que o Mundial mudou depois disso?”. A resposta foi afirmativa, porque a tese é que, aos poucos, depois de 1996, os europeus com os maiores craques passaram a atacar sul-americanos que se defendiam e tentavam vencer na estratégia.

Mesmo os três clubes brasileiros vencedores contra europeus defenderam-se e contra-atacaram. Tite montou o Corinthians com pressão média, marcou Lampard e deixou a bola sair por Mikel, de menos qualidade de passe. Ao ouvir o exemplo, Jorge Jesus reage outra vez: “Mas eu vi esse jogo. Foi um milagre!”.

Quer dizer que o Corinthians só venceu porque Cássio fez defesas espetaculares. Mais ou menos. O Corinthians venceu porque teve estratégia. Mas não porque tinha os maiores craques. Esses eram do Chelsea. Fernando Torres, Juan Mata, David Luiz, Frank Lampard...

O melhor em campo em Internacional 1 x 0 Barcelona foi o zagueiro Fabiano Eller, e em São Paulo 1 x 0 Liverpool, Rogério Ceni. Até hoje, em Fortaleza, Rogério leva o quadro com sua incrível defesa da cobrança de falta de Steven Gerrard.

Jorge Jesus na semifinal do Mundial de Clubes, contra o Al-Hilal
Jorge Jesus na semifinal do Mundial de Clubes, contra o Al-Hilal - Ibraheem Al Omari - 17.dez.19/Reuters

O Flamengo muda o Mundial porque é o sul-americano que ataca, digo a Jorge Jesus. É quando responde que tem uma certeza: vai atacar. Isso implica riscos. Defender, exclusivamente, carrega outro tipo de problema. A chance de perder aumenta muito, quando você chama os melhores jogadores para seu campo de defesa.

O Flamengo não fará isso. Pretende atacar. O Mundial deste sábado será diferente de todos os outros dos últimos 23 anos.

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