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The New York Times

Kobe Bryant tinha determinação de Jordan e sabia ignorar críticas

Reputação do astro era mais complicada do que suas realizações indicariam

Marc Stein
The New York Times

Kobe Bryant, que saltou diretamente do segundo grau para uma carreira reluzente de 20 anos de duração com o Los Angeles Lakers e se tornou um dos grandes jogadores da história do basquete, foi um dos nove mortos em uma queda de helicóptero ao norte de Los Angeles, no domingo (26). Ele tinha 41 anos.

A queda também matou Gianna Bryant, 13, a segunda das quatro filhas de Kobe Bryant com sua mulher Vanessa. Eles estavam viajando da casa da família no condado de Orange, Califórnia, a Thousand Oaks, 50 quilômetros a noroeste de Los Angeles.

Gianna, que estava se tornando uma estrela do basquete juvenil, tinha um jogo naquela tarde com seu time de viagem, treinado por seu pai na Kobe Bryant’s Mamba Sports Academy.

A notícia da morte do astro previsivelmente abalou a NBA, cujos elencos atuais estão repletos de jogadores que cresceram assistindo aos jogos de Bryant, que conquistou cinco títulos com os Lakers e marcou 81 pontos em um único jogo.

Alimentado por um reservatório de autoconfiança aparentemente inesgotável, Bryant foi uma figura gigantesca praticamente desde o momento em que chegou à liga, aos 17 anos, como 13º selecionado no draft da NBA em 1996.

Filho de Joe “Jellybean” Bryant, também jogador da NBA, Kobe foi selecionado pelo Charlotte Hornets por obra de um acordo entre o time e os Lakers, e nunca tentou esconder sua ambição de superar as realizações do lendário Michael Jordan. Os Hornets haviam concordado em entrar no draft, escolher Bryant e trocá-lo com o Lakers pelo veterano pivô Vlade Divac.

Durante as 20 temporadas seguintes, Bryant foi selecionado para o All-Star game 18 vezes, conquistou o prêmio de melhor jogador (MVP) da temporada regular em 2008 e dois prêmios de MVP das finais da liga, além de seus cinco títulos.

Em meio a tudo isso, uma acusação de agressão sexual contra ele, em 2003, mudou a maneira pela qual muita gente via Bryant, ainda que ele tenha se mantido imensamente popular junto aos torcedores da NBA e especialmente entre os moradores de Los Angeles —os Lakers foram o único time pelo qual ele jogou, ainda que tivesse chegado a exigir uma troca em 2007.

A troca que fez de Bryant jogador dos Lakers foi uma manobra do então diretor geral do clube, Jerry West, que se encantou de imediato com o destemor e o talento prodigioso de Bryant.

Grande destaque no time da Lower Merion High School, nas cercanias de Filadélfia, Pensilvânia, Bryant participou de uma demonstração no Lakers antes do draft, envolvendo uma série de jogadas nos quais foi marcado por Michael Cooper, que foi um dos grandes defensores da história da NBA e na época, aos 40 anos, era treinador assistente dos Lakers.

Apenas alguns jogadores saídos do segundo grau tinham começado direto na NBA, àquela altura, e Bryant se tornaria o primeiro armador a fazê-lo. Mas West deixou a sessão de treino cedo, dizendo já ter visto o suficiente. “Ele é melhor que todos os jogadores do nosso time atual”, disse aos seus colegas da equipe dos Lakers sobre o desempenho de Bryant, em uma declaração que se tornou famosa.

Como West previu, Bryant de fato ajudou a restaurar a glória do Lakers, mas encarou muito tumulto ao longo do caminho. Ele inicialmente o fez em companhia de Shaquille O’Neal, pivô que já se tornou parte do Hall da Fama do basquete, por três temporadas dramáticas e coroadas com títulos em 1999-2000, 2000-2001 e 2001-2002.

Mais tarde, se tornou o líder inquestionável do time nos títulos de 2008-2009 e 2009-2010. Com uma determinação que rivalizava com a de Jordan e uma capacidade de ignorar as críticas por seu domínio excessivo da bola e falta de critério na seleção de arremessos. Bryant foi a figura central e mais duradoura de uma das novelas mais absorventes no mundo do esporte profissional moderno.

Michael Jordan, à esquerda, e Kobe Bryant conversam durante jogo das estrelas da NBA em 2003
Michael Jordan, à esquerda, e Kobe Bryant conversam durante jogo das estrelas da NBA em 2003 - Alan Mothner - 9.fev.2003/Reuters

Quando encerrou sua carreira na NBA em abril de 2016, depois de um jogo de despedida inesquecível contra o Utah Jazz no qual marcou 60 pontos, Bryant havia criado um legado incomparável, que persuadiu os Lakers a aposentar os números das camisas que ele havia usado durante os primeiros e os últimos 10 anos de sua carreira, os números 8 e 24.

Aquele jogo de 60 pontos –que ele marcou em 50 arremessos—, no dia final da temporada regular de 2015-2016, foi um último floreio de Bryant e desbancou do noticiário a vitória do então campeão Golden State Warriors sobre o Memphis Grizzlies, que valeu ao time a melhor temporada regular na história da NBA, com 73 vitórias e 9 derrotas.

A expectativa é de que Bryant seja selecionado imediatamente para o Naismith Memorial Baskteball Hall of Fame, no final de agosto, a primeira ocasião em que ele será elegível. Bryant foi o cestinha da liga em duas temporadas e encerrou a carreira com 33.643 pontos na temporada regular, o que lhe deu o terceiro ponto posto entre os maiores cestinhas da NBA, atrás apenas de Kareem Abdul-Jabbar (38.387) e Karl Malone (36.928), até que a marca dele fosse superada recentemente por LeBron James, dos Lakers, na noite de sábado (25) em Filadélfia.

Bryant tuitou suas congratulações a James na noite de sábado, cerca de 15 horas antes da queda do helicóptero, escrevendo: “Continuando a avançar o esporte @KingJames. Muito respeito, irmão”.

Quando Bryant começou a se tornar um dos cestinhas da liga, O’Neal apelidou o ousado adolescente de “Showboat” [exibido], e não era um elogio. Os veteranos daquela equipe tentaram, em vão, manter modestas as ambições do estreante –especialmente O’Neal, que parecia particularmente determinado a provar que ele era o verdadeiro alfa da equipe.

Mas era impossível cercear Bryant. Depois de alguns fracassos notáveis nos playoffs, ele enfim se tornou campeão, em sua quarta temporada na NBA, formando uma parceria devastadora com O’Neal sob a tutela do treinador Phil Jackson.

“Kobe não queria saber de vida noturna ou nada disso”, disse Del Haris, que treinou Bryant em suas duas primeiras temporadas e no início de sua terceira temporada na NBA, em entrevista ao The New York Times em dezembro de 2017. “Só tinha um interesse. Seu único foco era ser o melhor que pudesse. E em sua cabeça isso queria dizer desafiar Michael Jordan."

“As pessoas podem debater sobre se ele chegou ou não perto disso”, prosseguiu Harris. “Mas não resta dúvida de que realizou todos os seus sonhos."

Bryant marcou 81 pontos contra o Toronto Raptors em janeiro de 2006, a segunda maior pontuação em uma partida na história da liga, abaixo apenas do jogo de 100 pontos que Wilt Chamberlain teve em 1962.

Mas a reputação de Bryant era mais complicada do que todos os seus elogios e realizações indicariam.
Ele enfrentou uma acusação criminal por agressão sexual, em 2003, por um incidente em um hotel do Colorado no qual Bryant foi acusado de estuprar uma mulher de 19 anos que trabalhava no lugar como recepcionista.

A procuradoria de Justiça terminou abandonando o caso quando a mulher declarou que não deporia. Bryant mais tarde divulgou um pedido de desculpas, afirmando compreender que a mulher, diferentemente dele, não havia visto o encontro como consensual. Um processo que a mulher abriu contra Bryant foi mais tarde encerrado por acordo.

Nos estágios finais da carreira de Bryant, muito depois dos dias em que era conhecido como “Showboat”, ele começou a adotar apelidos, como “Black Mamba” e, mais tarde, “Vino”.

As viagens frequentes de helicóptero que ele fazia para chegar aos jogos no Staples Center, no centro de Los Angeles –para evitar o trânsito e maximizar o tempo que tinha em casa– só serviam para reforçar sua mística.

Tradução de Paulo Migliacci

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