Descrição de chapéu The New York Times

Djokovic relembra início difícil e quer deixar legado além da quadra

Vencedor de 17 Grand Slams, tenista diz que não joga mais para provar seu valor

Christopher Clarey
Monte Carlo | The New York Times

Diante de um edifício de escritórios não muito distante de onde Novak Djokovic mora, uma Lamborghini está estacionada em uma rua ladeada por hotéis de luxo, restaurantes e carros esportivos.

Do lado de dentro, o tenista fala sobre tempos difíceis.

“Dez marcos, eu me lembro. Dez marcos”, disse Djokovic, vencedor de 17 torneios de Grand Slam —o último conquistado na final do Australian Open no domingo (2).

Enquanto fala, ele bate a mão sobre uma mesa de reuniões, exatamente como seu pai, Srdjan, fez, segurando uma nota de dez marcos, na mesa da cozinha do apartamento apertado em que a família Djokovic vivia em Belgrado.

Isso aconteceu durante a violenta dissolução da antiga Iugoslávia, na década de 1990. Djokovic não se lembra exatamente de quando, mas recorda as palavras de seu pai.

“Dez marcos eram o equivalente a US$ 10, e meu pai disse que aquele era todo o dinheiro que tínhamos e que precisávamos nos manter unidos e descobrir como sair daquela enrascada. Foi um momento muito poderoso e muito impactante no meu crescimento, na minha vida e na vida de todos nós”.

Em 1999, Djokovic e sua família encontraram um modo de ele deixar a Sérvia, aos 12 anos de idade, para treinar na academia de tênis de Niki Pilic, em Munique, o começo de sua caminhada rumo ao topo de seu esporte.

Djokovic demonstrou resiliência e determinação notáveis, sempre estimulado pela lembrança de crescer em meio a conflitos, privações e incertezas.

Aos 32 anos, no entanto, depois de conquistar mais de US$ 100 milhões em premiações e centenas de milhões de dólares adicionais em contratos de patrocínio, ele está em um momento e em um lugar muito diferentes.

O tenista explicou que ele, sua mulher, Jelena, e seus filhos —Stefan, 5, e Tara, 2— começam a manhã dando bom dia ao sol na varanda de seu apartamento, que tem vista para o Mediterrâneo.

“Acordamos cedo, porque levo meu filho para a escola, preparamos nossos sucos na cozinha de manhã e, depois, saímos para ver o sol nascer e fazemos nossa sessão de abraços e nossa sessão de música”, ele disse. “E fazemos um pouco de ioga”.

Djokovic ri, meio sem jeito, mas acredita que esse ritual privado reflete o quanto ele mudou. Em sua opinião, ele já não joga tênis para provar seu valor, mas para melhorar e para melhorar a vida das pessoas que o cercam.

Nos primeiros 15 minutos de uma entrevista concedida em dezembro, não houve necessidade (ou oportunidade) de fazer perguntas. Djokovic, que raramente fala em detalhes sobre sua vida pessoal e gosta de discorrer longamente sobre os assuntos, apertou minha mão com firmeza, se acomodou e começou a falar, parando de vez em quando para pedir desculpas pelo monólogo.

“Todo mundo fala de troféus, realizações, recordes, históricos, e eu tenho a sorte de ser um dos caras em condição de falar disso, de participar desse tipo de conversa”, ele disse. “Sou muito agradecido pela carreira que tive, mas no momento o tênis é, para mim, mais uma plataforma que uma obse ssão sobre realizações individuais”.

E, no entanto, o mundo do tênis talvez jamais tenha se concentrado tanto em conquistas individuais, agora que Djokovic, Roger Federer e Rafael Nadal disputam não só títulos, como um lugar na história. Coletivamente, os três dominam o tênis masculino há uma década.

Nadal conquistou 19 títulos de Grand Slam na categoria simples, logo abaixo dos 20 títulos de Federer, o recorde do tênis masculino. Djokovic, com 17 títulos, vem em terceiro, mas tem boa chance de ganhar mais títulos se continuar a se movimentar, competir e sacar tão bem quanto vem fazendo recentemente. Ele é quase um ano mais novo que Nadal, e seis anos mais novo que Federer.

Djokovic, como Nadal, não dá destaque à corrida pelos títulos, mesmo que, diferentemente de Nadal, tenha deixado claro que bater o recorde de Federer é um objetivo. Ele reconhece que os números e sua durabilidade no esporte representam uma oportunidade.

“Não vejo mais o tênis só como a gana de estar lá, vencer títulos, realizar aquilo, e assim que acaba, acabou, e essa é a única razão para eu jogar”, disse. “Encerrei esse tipo de capítulo em minha vida. Acho que a evolução da minha vida chegou ao estágio em que é mais que isso”.

Ele e Jelena querem promover o crescimento de sua fundação, que tem por foco a educação inicial de crianças. Os dois querem terminar de escrever um livro sobre bem-estar e ajudar a responder às perguntas que Djokovic diz ouvir sobre como levar uma vida determinada e saudável.

Djokovic fala de modo semelhante ao de outro campeão quando estava na casa dos 30 anos: Andre Agassi, tenista americano outrora obsessivo que encontrou novas energias para o tênis depois de fundar uma escola em sua cidade de origem, Las Vegas.

Djokovic jamais se sentiu tão dividido quanto Agassi sobre o tênis. Mas Agassi, 49, ajudou a treinar o sérvio durante um dos momentos mais difíceis de sua carreira —2017 e o começo de 2018—, antes que uma cirurgia no cotovelo o ajudasse a enfim superar um período de depressão. Agassi, que jamais teve um contrato formal com Djokovic, disse que achava que o amigo demorou demais a fazer a cirurgia. Os dois continuam próximos, e Djokovic diz ver paralelos em suas vidas e carreiras.

Novak Djokovic e seu então treinador Andre Agassi antes de Roland Garros-2017
Novak Djokovic e seu então treinador Andre Agassi antes de Roland Garros-2017 - Christophe Simon - 26.mai.17/AFP

“Ele foi uma das pessoas mais influentes na minha vida, e me ajudou a chegar a todas essa compreensão”, disse Djokovic, acrescentando que “se você olha as coisas de uma perspectiva mais larga, é interessante que vejamos do mesmo jeito qual deve ser o próximo passo na vida. Serei eternamente grato a ele”.

Dois dos três maiores tenistas atuais são relativamente fáceis de rotular. Nadal é o lutador, que aposta tudo na competição do momento. Federer é o homem que tenta agradar, sobrenaturalmente elegante em movimento ou em repouso. Djokovic, porém, menos amado em escala mundial que seus rivais, é mais difícil de definir. Talvez a descrição para ele deva derivar dessa qualidade fugaz. Podemos descrevê-lo como o buscador.

"Ele é um buscador", disse Marian Vajda, seu treinador de longa data e confidente. "Parece que as coisas estão perfeitas, mas de repente ele quer mudar de alguma forma."

Ao longo dos anos, Djokovic adotou uma dieta que exclui o glúten e os laticínios, praticou meditação e visualização e alterou repetidamente —e nem sempre com sucesso— a mecânica de seu saque. Ele usou uma câmara hiperbárica pessoal durante os torneios. Mais recentemente, demitiu um consultor de dados, em parte porque Goran Ivanisevic, um dos treinadores de Djokovic, acreditava que eles precisavam “voltar ao básico” e não confiar demais “naqueles números todos”.

Djokovic, porém, continua adepto da experimentação.

“Há tantos atletas, tantos tenistas que jogam muito bem nos treinos e nem tanto quando chega o jogo”, ele disse. “Você pode ter uma ou duas boas partidas, um ou dois bons meses, mas consegue jogar bem consistentemente? O tônico ou fórmula do sucesso é como o cálice sagrado para qualquer atleta. Como posso otimizar tudo e estar em um estado mental equilibrado, de corpo e alma, a cada temporada pelo resto da minha carreira, e como ser capaz de atingir o pico quando preciso?”

“Acho que o maior requisito é um desejo constante e a mente aberta para a dominar, melhorar e evoluir em todos os aspectos. Sei que Roger vem falando nisso, e é algo que sinto que a maioria dos grandes atletas de todos os esportes acredita. Estagnação é regressão”, disse o tenista.

Para Vajda e Djokovic, essa inquietação ajuda a explicar os atrativos da filosofia. Djokovic está tentando canalizar parte de seu fogo interior, e também dominá-lo.

“Tivemos anos em que ele estava muito impaciente”, disse Vajda. “Ele se perguntava o tempo todo quando chegaria ao primeiro posto do ranking. E eu respondia que aconteceria quando acontecesse, e que ele fosse paciente, porque precisava fazer certas coisas da maneira certa para chegar lá”.

Tradução de Paulo Migliacci

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