Ausência de torcedores negros em mural do Arsenal surpreendeu atletas

Iniciativa do clube inglês há 28 anos buscava preencher espaço vazio do estádio

Rory Smith
The New York Times

A história do mural do Arsenal deslizou, com o passar dos anos, mais para a posição de mito do que de história. Detalhes que deveriam ser simples de averiguar se tornaram nebulosos, e relatos apócrifos predominam.

Algum tempo atrás, a maioria das pessoas relegaria a questão aos recessos da memória: uma forma de conhecimento irrelevante, uma curiosidade ociosa que remonta aos primeiros anos da era do futebol moderno na Inglaterra. Mas à medida que o esporte começa a se redefinir na era do distanciamento social e da justiça social, ela voltou a adquirir relevância.

Em todo o mundo, times e ligas estão estudando maneiras de fazer com que partidas realizadas em estádios imensos e vazios sejam mais atraentes em termos visuais, na esperança de reter algum vestígio do senso de espetáculo sobre o qual seus setores foram construídos.

As tentativas iniciais incluem entrevistas coletivas via Zoom na Dinamarca, montagens de vídeo na Alemanha, batuque robotizado na Tailândia e bonecas de fonte escusa na Coreia do Sul. A Premier League –que deve retomar seus jogos em 17 de junho– propôs mostrar as “reações ao vivo” dos torcedores em telões e ocultar os assentos vazios com faixas gigantescas.

Mas embora todos esses pareçam ser os primeiros e hesitantes passos rumo a um novo mundo que não agrada a ninguém, a situação não é novidade –não exatamente.

Há 28 anos, o Arsenal teve de abordar exatamente o mesmo problema, de um ângulo substancialmente diferente. A resposta que o clube encontrou pode oferecer alguma inspiração, quase três décadas mais tarde, mas também serve como uma espécie de alerta.

Um dia antes da partida de abertura da temporada de futebol de 1992 –e da primeira rodada de jogos na história da Premier League, que acabava de ser criada—, os jogadores do Arsenal se reuniram no estádio histórico do time em Highbury para um último treino. E não foi uma situação tão familiar quanto poderia parecer.

Um extremo do estádio, o North Bank (arquibancada norte), que tradicionalmente abrigava 15 mil dos mais ardorosos torcedores do Arsenal, estava oculta por trás de um imenso mural, que se estendia por quase toda a largura do campo.

O clube havia demolido a velha arquibancada, na pausa de verão, e uma nova estrutura, na qual os torcedores poderiam assistir ao jogo sentados, estava sendo construída. Mas ao menos inicialmente, o North Bank era um emaranhado de guindastes, tapumes e cimento.

O mural foi ideia do então vice-presidente executivo do Arsenal, David Dein. Ele era conhecido como um dirigente visionário –foi por ordem dele que o Highbury se tornou o primeiro estádio da Inglaterra a instalar telões– e estava ansioso por encontrar uma maneira de “camuflar” o canteiro de obras.

Dein contratou um estúdio de design, o January, e o estúdio encarregou um de seus artistas, Mike Ibbison, do projeto.

Ibbison fez um esboço a lápis, com cerca de um metro de largura, retratando o que a nova arquibancada seria: um bloco de 1.500 torcedores usando camisas do Arsenal e com lenços erguidos no ar. O uso de técnicas de perspectiva conferia profundidade à imagem, não importa de que ponto ela fosse observada.

Ibbison mostrou o esboço a Dein, e a ideia foi aprovada. O trabalho foi entregue a um ilustrador e pintado em acrílico, depois digitalizado, impresso sobre vinil e montado em um tapume. O processo todo demorou cerca de um mês. Dein ficou feliz ao ver a ilustração montada em Highbury. “Era certamente preferível, do ponto de vista óptico, a ver tapumes e betoneiras”, ele afirmou.

Um dia antes do início da temporada, o atacante Kevin Campbell, do Arsenal, estava se aquecendo no gramado com seu amigo e colega de equipe, Ian Wright. “Ele me encarou e perguntou se eu percebia alguma coisa de estranho no mural”, disse Wright ao The New York Times na semana passada. “Eu olhei, e respondi que não. E aí ele explicou: ‘Não tem nenhum rosto negro’."

“Não ficamos especialmente zangados, desapontados ou qualquer coisa assim”, disse Wright, que, como Campbell, é negro. “Mas foi uma boa observação, porque víamos rostos negros na torcida do Arsenal”. Quando Campbell encontrou uma oportunidade de fazer algo a respeito, portanto, ele fez.

Naquela manhã, Dein estava no estádio também. Estava cumprimentando os jogadores ao saírem do gramado, no final do treino, quando Campbell o puxou para uma conversa. “Ele me perguntou por que os irmãos dele não estavam no mural”, disse Dein. “Olhei e fiquei horrorizado. Ele tinha toda razão. Eu lhe disse que corrigiríamos o desenho imediatamente”.

Essa é a parte da história sobre a qual todos concordam. Ibbison e Dein insistem em que não foi uma omissão deliberada. No esboço original, Ibbison desenhou uma multidão –uma coleção de figuras com forma humana–, mas não designou “um gênero ou etnia” para qualquer delas. “Em nenhum momento me ocorreu”, ele disse, “que eu estava desenhando a classe média branca de Londres”.

Dein certamente cumpriu sua palavra. Naquela noite, o mural foi repintado a mão para retratar de forma mais fiel a diversificada torcida do Arsenal. Quando o Norwich City chegou para a partida do dia seguinte, as mudanças já tinham sido feitas.

Mas quem exatamente fez a pintura é um assunto controverso. Dein acredita que foi Ibbison, ou pelo menos seus colegas. Ibbison não se recorda de ter participado. Segundo ele, foi o Arsenal que mandou seus funcionários “subirem em escadas” para corrigir o mural.

E é nesse ponto que as coisas começam a ficar apócrifas. Uma reportagem de jornal, na época, citou Ibbison como tendo sugerido que seu desenho original incluía rostos negros, mas que a cor tinha sido perdida no processo de impressão. No entanto, ele nega que isso seja verdade.

Houve sugestões de que uma nova queixa foi apresentada, no sentido de que a torcida mostrada só continha homens, o que teria levado o Arsenal a fazer nova mudança. E a história prossegue dizendo que isso teria conduzido a ainda mais uma mudança, quando foi apontado que as crianças da imagem agora pareciam estar separadas de seus pais e guardiões.

E havia também as freiras: a lenda afirma que elas foram pintadas no mural, ao lado de um torcedor solitário do Manchester United, pelo artista, supostamente por vingança depois de se ver forçado a fazer tantas mudanças. Esses relatos tampouco procedem. Ibbison, o artista envolvido, torce para o Arsenal e diz que não participou de qualquer das alterações. Dein insistiu em que o mural tinha sido corrigido apenas uma vez.

Ian Wright, do Arsenal, disputa a bola com do Robbie Mustoe, do Middlesbrough, em jogo pela Premier League em 1995
Ian Wright, do Arsenal, disputa a bola com do Robbie Mustoe, do Middlesbrough, em jogo pela Premier League em 1995 - 20.ago.95/AFP

Esse não é o único mistério. Ninguém está muito certo do que aconteceu com o mural depois que ele foi removido e que a arquibancada norte, renovada e melhorada, foi reaberta para a torcida.

Ibbison ouviu dizer que a peça tinha sido cortada, dividida em quadrados, e que algumas das partes foram revendidas, mas se isso realmente aconteceu, ninguém no Arsenal –o que inclui Dein– recorda o fato. Ibbison não guardou nem mesmo seu esboço inicial a lápis.

Talvez tenha sido isso que ajudou a história do mural a entrar para o folclore. O mesmo vale para a interpretação de que ele era amaldiçoado. Antes do pontapé inicial daquele primeiro jogo contra o Norwich City, um paraquedista que saltou para o gramado quase colidiu com o mural, na cerimônia de abertura.

O Arsenal perdeu por 4 a 2, depois de um desempenho tão ruim que Dein brinca que “12 das pessoas do mural foram embora antes do final da partida”.

Foi só no final de setembro daquela temporada que Wright se tornou o primeiro jogador do Arsenal a marcar um gol diante do mural, e o clube concluiu o campeonato em um decepcionante décimo lugar.

Encontrar um torcedor do Arsenal que lamente a remoção do mural é praticamente impossível.

Tradução de Paulo Migliacci

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