Descrição de chapéu The New York Times

Remadora paraolímpica morta em viagem solo encontrou liberdade nos oceanos

Aos 60, Angela Madsen queria ser primeira atleta paraplégica a completar travessia no Pacífico

Katharine Q. Seelye
The New York Times

Angela Madsen era uma jovem e saudável fuzileira naval e estava jogando basquete quando sofreu uma lesão grave nas costas, em 1981. Doze anos mais tarde, aos 33 anos, quando sofreu uma cirurgia nas costas, ela acordou da anestesia paralisada da cintura para baixo.

Madsen perdeu o emprego, sua companheira roubou o dinheiro que ela tinha no banco e por algum tempo Madsen viveu nas ruas, dormindo em sua cadeira de rodas na frente da Disneyland. Mas sua história não terminou ali.

Ela aproveitou seu talento atlético natural e começou a remar, participando de competições. Madsen passou a conquistar medalhas de ouro em campeonatos mundiais de remo e competiu nos Jogos Paraolímpicos.

Em um barco branco no mar, Angela Madsen segura um remo com cada mão e os movimenta
Angela Madsen treina em Long Beach, Califórnia, em 2009 - Debra K. Madsen via The New York Times

Depois, começou a buscar metas mais ambiciosas. Atravessou o Atlântico remando (duas vezes) e também cruzou o oceano Índico e completou uma viagem de circum-navegação do Reino Unido, tudo isso remando como parte de uma equipe ou com um parceiro.

Em 2013, ela tentou superar seu maior desafio: remar sozinha através do oceano Pacífico, da Califórnia ao Havaí. Mas foi apanhada em uma tempestade feroz e teve de ser resgatada. No ano seguinte, ela completou a viagem, com um parceiro. Mas ainda queria muito realizar uma travessia solo.

Por fim, no segundo trimestre deste ano ela partiu remando sozinha em sua moderna cápsula Row of Life, de seis metros de comprimento. O plano de Madsen era concluir no final de julho, no Hawaii Yacht Club, a viagem iniciada em 24 de abril na Marina del Rey, em Los Angeles.

Outros remadores conseguiram fazer a travessia solo. Mas Madsen queria ser a primeira remadora paraplégica, a primeira atleta assumidamente gay e, aos 60 anos, a mulher mais velha a completar a travessia.

Ela já tinha completado dois meses de viagem e estava a meio caminho do Havaí quando descobriu um defeito em sua âncora paraquedas, que é usada em mares pesados para estabilizar o barco.

Ela estava em contato com sua mulher, Debra Madsen, em Long Beach, Califórnia, por mensagem de texto e telefone via satélite, e Angela vinha postando fotos e observações na mídia social para as pessoas que estavam acompanhando sua viagem. Debra disse em entrevista que, quando avisou que um ciclone estava a caminho, Angela sabia que tinha de consertar o equipamento, o que requereria se prender ao barco com um cinto de segurança e entrar na água.

“Amanhã é dia de nadar”, afirmou Angela em uma mensagem no Twitter em 20 de junho.

No domingo, não houve mensagens dela. À medida que o dia passava, a preocupação de Debra crescia. Ela sabia, por meio dos dados de rastreamento, que o barco não estava sendo remado. Por volta das 22h30min ela enviou uma mensagem a Angela para dizer que Soraya Simi, uma amiga delas que está fazendo um documentário sobre Madsen, havia decidido entrar em contato com a guarda costeira americana.

Por volta das 20h da segunda-feira, a guarda costeira a encontrou morta na água, amarrada ao barco.

O avião não conseguiu pousar. Mas a guarda costeira já havia desviado um navio cargueiro alemão em viagem de Oakland ao Taiti, para recuperar o corpo de Madsen. O navio conseguiu recuperar o corpo de Madsen na noite de segunda-feira, mas não conseguiu recolher seu barco. O navio chegou ao Taiti na terça-feira.

Debra Madsen disse que talvez nunca venha a saber o que aconteceu, a menos que Angela, que estava mantendo um diário em vídeo, estivesse com uma das câmeras que levava ligada.

Ela disse que Angela pode ter se emaranhado no cinto de segurança, ou desenvolvido uma hipotermia sem perceber. Também pode ter sofrido um ataque cardíaco ou outro problema de saúde.

A resposta pode estar no barco, ainda à deriva no Pacífico. Debra está tentando organizar sua recuperação, o que será dispendioso, e o transporte do corpo de Angela ao Havaí para cremação e lançamento das cinzas ao mar, com honras militares. “Quero que ela complete sua jornada”, disse Debra.

Angela Madsen faz um coração com as mãos e tem suas medalhas penduradas no peito em 2018
Angela Madsen com suas medalhas em 2018 - Stacy L. Pearsall/Veterans Portrait Project

Angela Irene Madsen nasceu em 10 de maio de 1960 em Xenia, Ohio. Seu pai, Ronald, vendia carros, e sua mãe, Lucille (Sibley) Madsen, era dona de casa.

Com uma irmã e cinco irmãos, Angela cresceu aprendendo a brigar e a praticar esporte. Tudo isso teve de parar por um breve período quando ela engravidou, enquanto estudava no segundo grau. A filha de Angela, Jennifer, nasceu em 1977, e ela concluiu seus estudos em 1978.

Madsen se alistou nos fuzileiros navais em 1979 e foi destacada para servir em El Toro, Califórnia, como parte da polícia militar. Sua filha a acompanhou.

Com 1,85 metro de altura, Angela era excelente jogadora de basquete e se tornou parte da seleção feminina dos fuzileiros. Durante um treino, ela caiu e alguém pisou em suas costas. Ela sofreu a ruptura de dois discos em sua coluna e danos no nervo ciático, e passou algum tempo sem poder andar.

A fisioterapia a ajudou a se recuperar, lentamente. Madsen encontrou emprego como mecânica, na loja de departamentos Sears e mais tarde na U-Haul. Mas ela não conseguiu sustentar um emprego que requeria tanto esforço físico, e terminou encontrando um trabalho de escritório como engenheira mecânica.

Em seguida, em 1992, ela quebrou algumas costelas e uma perna em um acidente de carro. Já estava sofrendo de degeneração na espinha por conta da lesão de basquete e passou por uma cirurgia corretiva que a deixou paralisada da cintura para baixo, no ano seguinte.

Depois da cirurgia, a mulher que era sua parceira romântica há quatro anos se foi, dizendo que “não pretendo viver com alguém em cadeira de rodas”, de acordo com “Rowing Against the Wind” (2014), o livro de memórias de Madsen.

A parceira levou o carro de Madsen, os cheques que ela recebia como assistência, e esvaziou sua conta de poupança, Madsen escreveu. Sem dinheiro para bancar o aluguel, ela foi despejada. Guardou algumas de suas posses em um armário na Disneyland e viveu nas ruas com seu cachorro por dois meses, até conseguir ajuda da Paralyzed Veterans of America.

“Em 10 de maio, meu 34º aniversário, meu único desejo era nunca ter nascido”, ela escreveu. “Meu peso disparou para os 160 quilos, o que me fazia sentir ainda mais imóvel.”

Em seguida veio um acidente no metrô de San Francisco, quando ela caiu de cabeça nos trilhos, de sua cadeira de rodas. Ela sofreu uma leve lesão cerebral, mas o episódio a fez perceber que tinha mais a agradecer do que a lamentar, e Madsen resolveu tomar o controle de seu destino.

“Deixei de me ver como vítima e comecei a assumir a responsabilidade por me retreinar, recriar ou reprogramar”, ela disse ao site Trekity, um boletim online de viagens para mulheres.

“Não significa que coisas ruins tenham deixado de me acontecer, ou que pessoas não me explorem, ou que a vida se tornou fácil”, ela acrescentou. “Mas aprendi a lidar com as coisas, e me conduzi a um novo patamar.”

Sempre atlética, ela se voltou aos esportes de competição. Passou a participar do Veterans Wheelchair Games, e em 1995 conquistou três medalhas de ouro, em natação, corrida de obstáculos em carreira de rodas, e bilhar.

Em 1998, ela descobriu o remo adaptativo para atletas com deficiências físicas, e em 1999 remou em sua primeira regata oceânica.

Foi como se essa atleta multitalentosa enfim tivesse encontrado seu esporte. O remo oceânico lhe dava a oportunidade de competir contra pessoas sem deficiências físicas e ela curtia o desafio e a liberdade com relação aos aspectos mais comuns da vida cotidiana.

Mas o que ela mais amava era estar no largo azul do mar. “É monótono, é assustador, é desesperado, é majestoso, é empolgante, é infinito, é imemorial, é exaustivo, é rejuvenescedor, é doloroso, é jubiloso, é frustrante, é contraditório, é extraordinário”, ela disse ao Trekity.

Nem o câncer e uma mastectomia dupla a desaceleraram.

Ela treinava, corria, orientava atletas e surfava, como mostra um documentário de 2015 sobre suas realizações. Madsen fundou o Programa de Remo Adaptativo da Califórnia. Conquistou quatro medalhas de ouro com a equipe de remo dos Estados Unidos em campeonatos mundiais e competiu em três Jogos Paraolímpicos, conquistando uma medalha de bronze no arremesso de peso em Londres, em 2012.

Ela conheceu a assistente social Debra Moeller em 2007, quando Moeller levou uma criança deficiente física que havia sofrido abusos ao programa de remo de Madsen. Elas se casaram em 2013.

Além da mulher, Madsen deixa três irmãos, Ronald Jr., Clifford e Ira Madsen; uma irmã, Julia Jarrell; a madrasta Betty (Hardin) Madsen; dois filhos adotivos, Tiffany Corona e Ryan Moeller; e cinco netos. Sua filha morreu no ano passado.

“Angela era uma guerreira, feroz como poucas”, escreveram Debra Madsen e Simi no site RowOfLife. “Ela conhecia os riscos melhor do que qualquer de nós, e estava disposta a encará-los porque estar no mar a tornava mais feliz do que qualquer outra coisa. Ela nos disse muitas vezes que, se morresse tentando, era assim que gostaria de ir.”

Tradução de Paulo Migliacci

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