Descrição de chapéu Campeonato Brasileiro 2020

Santos teme que novas crises política e financeira invadam o campo

Time larga mal no Brasileiro, e presidente José Carlos Peres vê pressão aumentar

São Paulo

Há cerca de duas semanas, o presidente do Santos, José Carlos Peres, recebeu oferta de auxílio financeiro.

Um conselheiro o procurou e se colocou à disposição para ajudar o clube num momento em que as dívidas se acumulam, não é possível registrar novos jogadores e os direitos de imagem do elenco estão atrasados em cinco meses.

Esse resumo é contado da mesma forma por aliados e oposicionistas do cartola, mas a partir daí há divergências. Adversários dizem que Peres recusou a oferta com o argumento de que, quando o zagueiro Lucas Veríssimo fosse vendido, ele liquidaria todas as pendências.

"Não foi nada disso. Eles vieram com uma proposta de emprestar R$ 10 milhões ao Santos desde que eu renunciasse ao cargo. Isso não vai acontecer. Não vou renunciar", afirmou o presidente à Folha.

No meio de mais uma crise, algo que se tornou rotina na Vila Belmiro nesta década, está o medo de uma campanha ruim no Campeonato Brasileiro. O time tem um ponto conquistado nas primeiras duas rodadas e neste domingo (16), às 19h45, recebe o Athletico. A TNT transmite.

Após o reinício do futebol, paralisado por quatro meses a partir de março por causa da pandemia de Covid-19, o Santos ainda não venceu em campo. Fora dele, perdeu o goleiro Everson e o atacante Eduardo Sasha por atraso nos salários. O atacante Yuri Alberto foi para o Internacional.

"É sempre o mesmo desespero. É sempre para pagar conta do cotidiano. É vender o almoço para pagar a janta", reclama o vice-presidente, Orlando Rollo, rompido politicamente com Peres desde o terceiro mês do mandato, iniciado em dezembro de 2017.

O presidente do Santos, José Carlos Peres, no início de 2020
O presidente do Santos, José Carlos Peres, no início de 2020 - Pedro Ernesto Guerra Azevedo - 20.jan.20/Santos FC

Conflitos políticos não são raros no Santos. Dos quatro presidentes que o clube teve na década, dois foram expulsos do quadro associativo: Odílio Rodrigues Filho e Modesto Roma Júnior. Odílio entrou na Justiça e obteve decisão para ser reintegrado. Luis Alvaro Oliveira Ribeiro renunciou por motivos de saúde em 2014, quando sua administração já era um mar de problemas.

"Eu não fui comunicado de nada sobre expulsão. Quando for, vou apresentar minha defesa", afirma Modesto.

Peres também corre o risco de sanções administrativas depois de dois anos seguidos (2018 e 2019) com as contas rejeitadas pelo conselho deliberativo. Ele já enfrentou um processo de impeachment, reprovado em assembleia de sócios em setembro de 2018, mas ainda pode encarar mais uma votação para tirá-lo do poder.

Por causa de uma dívida de R$ 16 milhões com o Hamburgo (ALE) pela contratação do zagueiro Cleber Reis, o Santos está proibido pela Fifa de registrar novos atletas. A pena pode ser aumentada porque o time brasileiro não pagou US$ 3,4 milhões (R$ 18,3 milhões) ao Huachipato (CHI) pela aquisição de Soteldo.

Questionado sobre um cenário que para seus adversários é preocupante, Peres muda o tom de voz. Diz ficar revoltado com afirmações como a de que o Santos está quebrado.

"Nós não estamos quebrados. Pagamos 30% dos salários durante a quarentena e agora vamos devolver uma diferença. Sabe quanto nós temos para receber? São 4,5 milhões de euros do jogo do Barcelona (R$ 28,6 milhões). Eles vão ter de pagar. Temos R$ 20 milhões de dinheiro a receber, que ainda não nos pagaram no Brasil. Temos R$ 18 milhões do processo da Fátima Bucker. O Santos não está morto!", declara.

O "jogo do Barcelona" é o amistoso que teria de acontecer no Brasil como parte do pagamento pela contratação de Neymar, em 2013. A partida nunca foi realizada.

A advogada Fátima Cristina Bucker bloqueou R$ 12,7 milhões do clube por dívida pela intermediação de acordo com o Grupo Doyen.

O endividamento foi de R$ 353 milhões (corrigidos) em 2010 para R$ 440 milhões no ano passado. Na gestão de Peres, houve aumento exponencial das despesas, que raramente não superaram toda a arrecadação.

"Os maiores impactos negativos nas contas são folha salarial, encargos e direitos de imagem. Com Peres, esses custos e despesas ultrapassam as receitas", diz Carlos Aragaki, líder da área de esporte e sócio da auditoria BDO, que consultou balanços anuais do time (desde 2006, os que estão disponíveis) a pedido da reportagem.

Logo em seu primeiro ano de mandato, o Santos registrou déficit de R$ 77,3 milhões (vinha de lucro de R$ 2,9 milhões em 2017 e de R$ 54 milhões em 2016). Só conseguiu obter um superávit de R$ 23,5 milhões em 2019 graças ao lançamento contábil da transferência de Rodrygo para o Real Madrid.

O clube registrou no ano passado a arrecadação de R$ 215 milhões com negociações de atletas e repasses de mecanismos de solidariedade. A de Rodrygo representou R$ 172 milhões. Enquanto isso, a diretoria teve despesas de R$ 376 milhões, um recorde.

Rodrygo, jogador do Real Madrid - Piroschka van de Wouw - 11.dez.19/File Photo/Reuters

Quando apresentados aos números, a reação de Peres é dizer que tem pago contas. Ele afirma terem sido mais de R$ 80 milhões desde que assumiu.​

"Eu passei três anos arrumando a casa. Quem vier depois de mim vai pegar uma situação bem mais tranquila do que a que peguei", se queixa o atual presidente, que sustenta não ser candidato à reeleição. O próximo pleito está marcado para dezembro deste ano.

A crise política que parece sem fim poderia ser debelada com resultados em campo. Nem isso tem acontecido. Se não for campeão na atual temporada, o clube entrará no maior jejum de conquistas desde o título brasileiro de 2002. Serão quatro anos de seca. A equipe foi vice-campeã nacional no ano passado, mas o crédito foi colocado na conta do técnico argentino Jorge Sampaoli, hoje no Atlético-MG.

O elenco tem convivido também com reclamações de jogadores por atraso de salários e direitos de imagem. Algumas públicas, como a feita pelo atacante Marinho.

Após a eliminação no Paulista deste ano para a Ponte Preta, Peres demitiu o técnico português Jesualdo Ferreira e contratou Cuca, com quem teve vários conflitos quando este trabalhou na agremiação pela última vez, em 2018.

"O Santos precisa de uma pacificação, de uma união de forças. No momento, o clube colhe o que plantou", diz Fernando Silva, ex-integrante da administração de Luis Alvaro e um dos pré-candidatos a presidente.

Nenhum apelo ou crítica parece abalar Peres, eleito porque soube se colocar acima de correntes políticas. Pediu a mesma unidade que depois rechaçou, de acordo com seus críticos, quando chegou ao cargo.

"Quem quiser o meu lugar tem de ganhar a eleição. Eu só renunciaria se tivesse roubado o clube, e isso nunca aconteceu. As más gestões estouram sempre na última, e a última é a minha. Tenho confiança nesse time. O Santos não vai cair. O Santos é uma fênix", finaliza o presidente.

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