Sampaoli deixa o Santos em meio a queda de braço com o clube

Técnico nega ter pedido demissão, e discussão sobre multa vai à Justiça

Santos

O técnico Jorge Sampaoli, 59, negou que tenha pedido demissão do Santos. A sua saída do cargo foi anunciada pelo clube na noite desta terça-feira (10), por meio de nota publicada no site da agremiação.

O Santos informou que Sampaoli comunicou a demissão após reunião no dia anterior e que “o caso foi entregue aos departamentos jurídico e de recursos humanos do clube”.

A assessoria de imprensa do treinador sustenta que o argentino não pediu oficialmente o desligamento do clube e que ainda aguardava por um retorno a respeito de suas exigências, após pedido do presidente santista, José Carlos Peres, de se reunir com membros do comitê gestor para avaliá-las.

Apesar disso, no fim da tarde desta quarta, Sampaoli divulgou uma carta de despedida. "O próximo ano será muito difícil para o Santos. Jogará o Paulista, o Brasileirão, a Copa do Brasil e a Libertadores.
Penso, com chance de me equivocar, que algumas circunstâncias estruturais não me permitiriam sentir com comodidade", escreveu.

Apesar do tom amistoso do documento, que menciona inclusive a possibilidade de um reencontro no futuro, a queda de braço entre Santos e Sampaoli parece estar apenas no início.

O clube exige do treinador pagamento de US$ 2,5 milhões (R$ 10,5 milhões) pela rescisão do contrato, que se encerraria em dezembro de 2020.

Além disso, já avisou que cobrará mais R$ 3 milhões pela liberação de quatro membros da comissão técnica indicados pelo argentino. Um deles, o auxiliar Jorge Desio, fazia parte dos planos para a próxima temporada.

O acordo, porém, é considerado improvável. Sampaoli e Desio se conheceram em 1994 no Renato Cesarini, clube de Rosário conhecido pela formação de atletas e técnicos.

No Santos, Desio inclusive já comandou treinos e assumiu o lugar do amigo no banco de reservas, enquanto o técnico cumpria suspensão.

O desencontro entre as partes levou o caso à Justiça, onde a disputa pela narrativa sobre o profissional ter pedido demissão ou sido demitido deve ter influência para o pagamento ou não da multa.

Sampaoli, que cobra quatro meses de FGTS não depositados, já conta com o auxílio de um advogado brasileiro, enquanto o Santos acredita estar bem coberto juridicamente para provar que o antigo comandante solicitou desligamento. Todos os membros do departamento jurídico foram orientados a não se pronunciar sobre o caso.

Jorge Sampaoli chegou ao Santos em dezembro de 2018 e, apesar do bom trabalho em campo, entrou em rota de colisão com presidente José Carlos Peres - Amanda Perobelli/Reuters

Mesmo que não acerte o rompimento de forma amistosa, Sampaoli pode tomar rumo semelhante ao de Ricardo Gomes, que deixou o clube em setembro do último ano, após dois meses como superintendente de futebol, para atuar como gerente-geral no Bordeaux (FRA).

​​Gomes precisava dar uma resposta imediata aos franceses. Fez isso e quase oito meses depois acordou com o clube alvinegro o pagamento de cerca de R$ 600 mil pelo rompimento do contrato.

Independentemente do desencontro de informações, a saída foi selada. Apesar da boa campanha do Santos na temporada, semifinalista do Campeonato Paulista e vice do Campeonato Brasileiro, o argentino e Peres não cultivam boa relação.

Sampaoli e sua comissão custaram cerca de R$ 20 milhões aos cofres santistas por uma temporada. Somente o treinador recebeu aproximadamente US$ 2,3 milhões de dólares líquidos no período (R$ 9,6 milhões).

O treinador criou uma relação de proximidade com a cidade de Santos, mas externou publicamente incômodo pelo que considera falta de planejamento e desorganização de Peres e a sua cúpula.

Na reunião da segunda-feira, que durou quatro horas, o argentino apresentou exigências para continuar, a principal delas um valor de R$ 100 milhões destinado a contratações de jogadores para brigar pela Copa Libertadores da América.

A carta de Jorge Sampaoli

O Santos foi uma das minhas casas mais lindas.

Um lugar que me permitiu voltar a crer nos sonhos, no jogo e na alegria dentro do futebol. Todas estas coisas sinto que são, para mim, uma enorme conquista porque a exigência e o imediatismo deste esporte nem sempre nos permite ser felizes. Em um mundo que nos trata como objetos, me senti humano e isso foi um privilégio maravilhoso. Sinto que é um momento na história no qual desfrutar o presente não é simples. Prefiro não arranhá-lo. O próximo ano será muito difícil para o Santos. Jogará o Paulista, o Brasileirão, a Copa do Brasil e a Libertadores. Penso, com chance de me equivocar, que algumas circunstâncias estruturais não me permitiriam sentir com comodidade.

Quero agradecer aos jogadores. Em um torneio com um calendário esgotante, mostraram uma fidelidade à ideia impressionante. Nunca renunciaram às convicções pelo jogo e foram a qualquer estádio do Brasil para mostrar quem somos e quanto amor sentimos pela bola.

Quero agradecer aos trabalhadores e às trabalhadoras do CT Rei Pelé. São a alma do clube. Aqueles que em silêncio constroem e defendem uma instituição gloriosa.

Quero agradecer aos meninos do CT. Foram meus amigos mais legais e os levarei na minha memória para sempre.

Porém, sobretudo, quero agradecer à cidade. Santos é um lugar maravilhoso. Trataram-nos como se estivéssemos vivido toda a vida aqui. Ficará para sempre, também, que aqui nasceu meu terceiro filho, León.

Talvez, isso seja simplesmente um até logo e a vida nos permita um reencontro. As despedidas são essas dores doces.

Muito obrigado, de coração. Eu os levarei na alma, para sempre.

Jorge Sampaoli

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