Descrição de chapéu Campeonato Brasileiro 2020

Muito estudo e quedas lapidaram Ramon, técnico sensação do Brasileiro

Ex-jogador do Vasco, treinador agora guia clube em campanha surpreendente

Santos

Ramon Menezes, 48, diz não acreditar em sucesso por obra do acaso. Ao chegar em casa, mesmo exausto após o retorno de uma viagem com o Vasco, o técnico tem como hábito esticar a madrugada estudando os lances da última partida feita por sua equipe.

“Ouço da minha esposa: pelo amor de Deus, você vai ver futebol de novo? Mas considero fundamental para tirar lições e conclusões novas”, ele conta à Folha.

Essa ainda é uma rotina recente para o ex-meia conhecido pela habilidade nas cobranças de faltas, com longa carreira como atleta, encerrada aos 40 anos. Ao todo, foram 19 clubes, com mais destaque no Vasco (onde ganhou Campeonato Brasileiro e Libertadores) e no Vitória. O último foi a Cabofriense, em 2013.

“Enquanto atleta eu me preparava muito, sempre gostei de disciplina, dormir cedo, não beber. Acredito que isso prolongou a minha carreira. Agora, é diferente. Preciso trabalhar, estudar muito, evoluir. A família já entendia e agora entende novamente”, diz o treinador, que já concluiu todas as licenças da CBF.

Apontado como responsável direto pela campanha surpreendente do Vasco neste início de Campeonato Brasileiro –quarto colocado até aqui, com 17 pontos–, Ramon surge como uma das principais novidades no cenário de técnicos no Brasil.

Desde que assumiu, foram 12 partidas –com oito vitórias, dois empates e duas derrotas, um aproveitamento de 72,2% acompanhado pelo batismo de um novo estilo, denominado por torcedores de “ramonismo”. Abel Braga, seu antecessor, deixou o clube com média bem inferior, 40,4% em 14 jogos.

O ex-jogador Ramon, atual técnico do Vasco da Gama
O ex-jogador Ramon, atual técnico do Vasco da Gama - Ricardo Moraes - 13.set.20/Reuters

A concepção de jogo nasceu da ideia de que era possível resgatar jogadores em baixa dentro do próprio elenco e, principalmente, criar uma equipe doutrinada taticamente.

“Quando falamos de recuperar um jogador, você precisa mostrar o caminho. Vi isso no Andrey, no Henrique, Ricardo [Graça]. Hoje no Vasco há um entendimento sobre o que cada um pode entregar", afirma.

Dois pontos centrais da estratégia são dar poucos chutões nas saídas de bola e evitar se expor a contra-ataques.

“Acho muito legal isso [de "ramonismo"], mas sei separar bem as coisas. Os jogadores têm entregado a alma nos jogos. Isso é Vasco. Essa minha identidade ainda vai vir, será algo natural”, pondera o comandante.

Ramon carrega no meio a fama de estudioso. Ainda como jogador, em 2012, pediu licença de uma semana ao então presidente do Joinville para realizar um curso para treinadores no Rio de Janeiro. Voltou com a certeza sobre a nova carreira que traçaria.

“Eu sonhei ser treinador? Não, sonhei ser jogador. Mas digo que foi uma oportunidade construída, sempre fui um cara muito curioso”, conta.

Ramon ainda tem poucos jogos à frente do Vasco, mas criou um novo ambiente nos mais de cinco meses de trabalho (paralisados pela pandemia). Duas semanas após a saída de Abel, em março, recebeu uma ligação do presidente do clube, Alexandre Campello, anunciando planos para a sua efetivação.

Horas depois, já estava no telefone com os jogadores explicando o que pretendia com a nova metodologia e por que acreditava que poderia recuperar um time em baixa na temporada, ameaçado de eliminação na Copa do Brasil e no Estadual —esta última ele não conseguiu evitar.

“Logo que me ligaram já comecei a falar com alguns atletas, fazer videoconferências. Para alguns, fiz isso individualmente. Falei tudo o que pensava. A minha relação é de muita sinceridade”, diz.

A formação do “ramonismo” no Vasco surgiu com o aval da diretoria para a formação de uma comissão considerada alinhada com as ideias do treinador. Um dos auxiliares é o paranaense Thiago Kosloski, próximo a Ramon nos cursos realizados na CBF.

O outro é Junior Lopes, filho do coordenador técnico Antonio Lopes, a quem atribui constantemente ser uma das principais inspirações para a nova carreira.

Ramon, em sua época de jogador do Vasco, é marcado por Pimentel, do Palmeiras
Ramon, em sua época de jogador do Vasco, é marcado por Pimentel, do Palmeiras - Vanderlei Almeida - 22.dez.1997/AFP

“O Antonio Lopes é uma referência para mim. Quando falei do [Marcelo] Gallardo [técnico do River Plate] em minha apresentação foi no sentido da identificação que ele construiu como técnico e jogador. Acho que temos grandes referências por aqui, e o Lopes é uma das minhas principais”, conta.

Chegar a um grande clube, no entanto, não foi fácil. Ramon ganhou a primeira oportunidade, em 2014, na modesta Associação Esportiva Evangélica, time da terceira divisão goiana. Deixou-a como campeão estadual invicto.

Mas a trajetória também teve seus percalços. No retorno ao Joinville, em 2015, como treinador, dirigiu a equipe em 12 jogos, com 44% de aproveitamento, e não evitou o rebaixamento para a Série C. No mesmo ano, já havia caído no Estadual com o Guarani de Divinópolis-MG. Ramon assumiu a equipe nas quatro rodadas finais, conquistou duas vitórias, um empate e uma derrota.

“Todo mundo tem suas experiências, vivi muitas coisas como atleta por ter prolongado minha carreira. Também passei por estaduais diferentes, todas as séries. Para mim tudo isso foi muito importante”, destaca.

Ramon despertou nos vascaínos a esperança de dias melhores. Além do bom desempenho no Brasileiro, no fim de agosto conduziu a equipe a uma classificação considerada improvável na Copa do Brasil, com uma vitória fora de casa contra o Goiás por 2 a 1, após ter perdido o primeiro jogo em São Januário antes da pandemia.

O Vasco garantiu a vaga na disputa de pênaltis e nesta quinta (17) faz a partida de ida da quarta fase do torneio mata-mata. O adversário será o Botafogo, rival que superou por 3 a 2 no clássico do último fim de semana pelo Brasileiro.

“Sonhamos viver tudo o que vivemos antigamente no Vasco? Sim, claro. Mas isso é uma construção. Espero agora ter tempo”, finaliza.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.