Descrição de chapéu Campeonato Brasileiro 2020

Gols de Cano, artilheiro do Vasco, são metáforas da própria carreira

Argentino de 32 anos precisou esperar para enfim se destacar no futebol profissional

São Paulo

Germán Cano, 32, é daqueles centroavantes que "cheira a gol", como diz o vocabulário informal do futebol.

Artilheiro do Vasco em 2020 com 12 bolas na rede, três no Campeonato Brasileiro, o atacante argentino buscará ampliar sua marca nesta quarta-feira (2), contra o Santos, às 21h30, na Vila Belmiro.

A atuação de Cano ao longo dos 90 minutos de um jogo, em que parece desconectado da partida até precisar de um ou dois toques para marcar, é uma metáfora de sua própria carreira. Assim como ele aguarda pela oportunidade, às vezes única, de deixar o seu gol, sua trajetória no futebol foi pautada justamente pela espera.

Cano chegou aos nove anos de idade no Lanús (ARG). Sua mãe, Marina, trabalhava no clube como auxiliar de serviços gerais. Nas categorias de base, ele já mostrava as características que o definem hoje: um jogador de área, finalizador e artilheiro.

Em 2007, ainda que não tenha entrado em campo, participou do elenco que se sagrou campeão argentino, o primeiro título nacional da história do clube.

Titulares no ataque, José Sand e Lautaro Acosta se tornaram emblemas do clube. O primeiro é o maior artilheiro da sua história, o segundo tem uma estátua na sede social.

Em meio a nomes consagrados, Cano chegou a jogar algumas partidas em 2008 e 2009, mas percebeu que sua vida seria difícil no Lanús. Foram 23 jogos e apenas dois gols.

"Na Argentina, por razões econômicas, os jogadores estreiam muito jovens. Alguns conseguem estourar logo de cara e a outros lhes custa um pouco mais. Foi o caso de Germán. O que ele precisa é fazer gols, e faltou isso a ele no Lanús", conta Nicolás Russo, hoje presidente do clube e à época dirigente de futebol.

"O clube sabia das suas qualidades, mas ele estava com a necessidade de jogar", lembra o ex-zagueiro brasileiro Jadson Viera, companheiro do argentino no clube e que passou pelo Vasco em 2010.

Cano foi então emprestado ao Chacarita Juniors e ao Colón, ambos da Argentina, mas sem destaque.

Atacante argentino Germán Cano, de 32 anos, é o artilheiro do Vasco na temporada
Atacante argentino Germán Cano, de 32 anos, é o artilheiro do Vasco na temporada - Rafael Ribeiro/Vasco

Contratado em 2011 pelo Deportivo Pereira, da Colômbia, acabou rebaixado com o clube. Seus dez gols na liga, porém, foram um indicativo de que no futebol colombiano ele poderia explorar melhor suas qualidades.

Após passagem apagada pelo Nacional, do Paraguai, Cano voltou à Colômbia no segundo semestre de 2012 para defender o Independiente Medellín. Rapidamente, o clube se transformou em sua casa. Foi artilheiro do campeonato nacional em duas temporadas e levou o time a dois vice-campeonatos na liga.

"Na Colômbia, ele encontrou um clube que lhe deu continuidade. Se você dá dois, três metros para ele, usa sua potência e não falha", diz o meia-atacante Sebastián Hernández, que chegou na mesma época que Cano ao clube.

Companheiros de concentração, Hernández e Cano também eram parceiros de golfe, uma paixão que se tornou o passatempo preferido do argentino. "Eu jogava [golfe] uma vez por semana, ele saía umas três ou quatro vezes para jogar", conta o meia.

Os dois prêmios de artilheiro da Colômbia chamaram a atenção do futebol mexicano. No país, defendeu Pachuca e León, mas assim como na Argentina e no Paraguai, não conseguiu se destacar.

Em maio de 2015, com poucos meses no México, sofreu uma nova lesão grave, dessa vez um rompimento do ligamento cruzado anterior do joelho direito, e perdeu o restante da temporada.

Fora de ação, voltou à Argentina para realizar seu tratamento no Lanús, clube pelo qual sente enorme carinho apesar de não ter conseguido brilhar no profissional. Uma das demonstrações de afeto ao time que o revelou é o número que utiliza, o 14, uma homenagem à principal torcida organizada do Lanús, La Barra 14.

De sua aventura no México, aproveitou a companhia de argentinos que atuavam no país para se aprofundar em uma de suas paixões, o vinho. Com Mauro Boselli, hoje no Corinthians, e outros compatriotas, fez um curso de sommelier para aprender a identificar e saborear melhor a bebida.

Atrapalhado pelas lesões no futebol mexicano, voltou ao Independiente Medellín, em 2018. Anotou 20 gols no campeonato e levou o clube a um novo vice na liga. No ano seguinte, superou o próprio recorde e, com 21 gols, foi mais uma vez o goleador do futebol colombiano.

"Germán faz as coisas como se trabalhasse em um escritório: venho aqui para fazer gols e gols é o que vou fazer", diz Octavio Zambrano, técnico da equipe no vice-campeonato de 2018.

"Ele aprendeu muito bem de suas virtudes e de suas debilidades. Entendeu que não seria um jogador que ganharia em velocidade. Tampouco ganharia no drible. Ele não faz nada além do que deve fazer para se posicionar e ter uma opção de gol. Tem um olfato extraordinário", completa o treinador.

Com esse poder de leitura para aproveitar cada oportunidade, Germán Cano se tornou o maior artilheiro da história do Independiente Medellín, com 129 gols em cinco temporadas.

Com 129 gols, Cano se tornou o maior artilheiro da história do Independiente Medellín
Com 129 gols, Cano se tornou o maior artilheiro da história do Independiente Medellín - Twitter/Germán Cano

Abraçado pelo país, ganhou nacionalidade colombiana e a admiração de figuras ilustres do futebol nacional como James Rodríguez, que pediu a Cano uma camisa do Independiente com seu nome.

O filho do argentino, Lorenzo, também nasceu na Colômbia, reafirmando os laços do centroavante com a pátria adotiva.

"Era um garoto que precisava fazer sua carreira no exterior. Agora, no Vasco, fez gols logo de entrada. Quando faz gols, ganha confiança e tchau, conquista a torcida", analisa Nicolás Russo, que espera vê-lo algum dia de volta ao Lanús.

Desde que chegou ao clube carioca, no início de 2020, Cano vai buscando, com o olfato, a hora mais apropriada de entrar em ação. Quando o faz, marca, e assim põe fim à espera, sua e do torcedor vascaíno, por gols e vitórias.

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