Descrição de chapéu
racismo Dia da Consciência Negra

Neste mundo racista, futebol jamais dará humanização completa ao homem negro

Se nem mesmo Pelé consegue sobreviver nesse sistema cruel, ninguém nunca conseguirá

Marcelo Medeiros Carvalho

Diretor-executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol

No país do futebol, o Rei é um homem negro. Um sujeito que aos 17 anos dobrou todo um sistema racista que não acreditava serem sujeitos negros capazes de conduzir, ou mesmo de fazer parte, de uma seleção nacional na conquista do maior título.

Em 1958, o então garoto Edson Arantes do Nascimento foi convocado para a seleção brasileira e viajou a contragosto de uma comissão formada por médicos e psicólogos que, após alguns testes, informaram que os negros não eram capazes de suportar a pressão de jogos decisivos e não deveriam estar presentes no grupo que iria representar o Brasil em mais uma Copa do Mundo.

A verdade é que essa contrariedade sobre negros fazerem parte da seleção brasileira começou muitos anos antes, quando os primeiros negros chegaram ao Brasil escravizados. Para legitimar tamanha barbárie, deles foi retirada a humanidade.

A habilidade os colocou dentro dos clubes e depois das seleções, mas no primeiro sinal de desavença a ordem era para que fossem esquecidos, não convocados.

A primeira orientação oficial partiu do presidente da República Epitácio Pessoa, em 1921, que orientou o treinador para que convocasse apenas os jogadores de pele mais clara e cabelos lisos. Afinal, era sua vontade que o Brasil fosse representado no exterior por homens brancos, distintos cavalheiros. Apesar de Pessoa negar publicamente o pedido, a seleção que representou o Brasil não tinha nenhum negro.

Mas a habilidade estava com eles. Estava com Arthur Friedenreich, o primeiro herói do futebol nacional, autor do gol que deu o título da primeira edição da Copa América disputada no Brasil, em 1919.

Nessa época, o futebol brasileiro proibia a presença de negros nas principais ligas amadoras. A eles restava criar seus próprios clubes e ligas. Nestas foram encontrados diversos atletas que foram derrubando as proibições e possibilitando o crescimento dos clubes, que começaram a forçar o fim do amadorismo marrom dos estatutos racistas. Nunca preocupados com a passagem do racismo para o não racismo, mas com a ambição de conquistar títulos.

Na mudança para o profissionalismo, o destaque foi Leônidas da Silva, o craque negro que tornou o futebol popular. Artilheiro da Copa de 1938, o primeiro jogador brasileiro a ser reconhecido mundialmente.

Nessa construção de país, o futebol cada vez ganhava importância não apenas como esporte, mas também como instrumento político. De alguma forma, representava a tal “democracia racial”, que muitos governantes diziam existir no país com a maior população negra fora do continente africano.

Em 1950, governantes tentaram unir todos por meio do futebol, com a Copa do Mundo no Brasil. A seleção foi à final formada por jogadores brancos, negros e mestiços, mas a seleção do Uruguai e o famoso "Maracanazo" jogaram por terra mais uma tentativa de uma falsa reconciliação entre o governo e o povo negro.

O gol de Ghiggia e a suposta culpa da derrota atribuída aos jogadores negros, especialmente ao goleiro Barbosa, condenado por um crime que nunca cometeu —além disso morreu sem o perdão do Brasil—, acirrou novamente a tensão racial.

O negro herói daquela Copa vestia a camisa celeste e se chamava Obdulio Varela, apelidado de "Negro Jefe" (Chefe Negro). O maior mito do futebol uruguaio. A camisa e as chuteiras que usou naquela final foram leiloadas após sua morte, em 2003, e declaradas monumentos nacionais pelo governo uruguaio.

Os capitães de Brasil e Uruguai, Augusto e Obdulio Varela, momentos antes do jogo decisivo do Mundial de 1950
Os capitães de Brasil e Uruguai, Augusto e Obdulio Varela, momentos antes do jogo decisivo do Mundial de 1950 - Arquivo El País

A suposta inferioridade psicológica do atleta negro foi apontada em um relatório feito em 1956 por uma comissão de médicos e preparadores físicos durante uma viagem da seleção brasileira à Europa e apontava que o jogador negro sentia uma espécie de “banzo” quando se afastava do Brasil. Não conseguia suportar fortes emoções ou ter grandes responsabilidades.

Encarando todas as desconfianças e o racismo, os negros foram a sensação da Copa de 1958, e o Brasil, campeão. Em 1970, um deles foi consagrado o maior atleta de todos os tempos, vencendo o que o impedia de estar naquele espaço e ser aclamado.

Homens negros, contudo, nunca estarão livres da desumanização. A ciência do século 20 os colocava na escala mais baixa da evolução humana e muitas vezes representados, até os dias de hoje, como animais, brutos, estupradores e assassinos.

O futebol possibilitou a ascensão social de muitos negros, mas o mundo da bola nunca os aceitou de forma verdadeira. Ao jogador negro é “dada” uma certa margem de humanidade, construída a partir da lógica racista que considera o corpo negro apto tão somente às atividades que exigem força e resistência.

Nesse sentido, a humanidade será retida a partir do momento em que o jogador não alcançar os objetivos esperados, sendo nesse caso imediatamente animalizado e atacado, para que volte às posições subalternas e grotescas.

É importante salientar que os insultos, xingamentos e ofensas são apenas uma parte do problema. É o racismo mais fácil de ser identificado, por ser geralmente praticado em público, em frente às câmeras, no momento de emoção aflorada que o futebol costuma provocar nos torcedores.

Mas o que de fato não conseguimos evidenciar é que o futebol é mais um espaço de encantamento, mágica e também da prática do racismo. Homens negros são alçados a heróis nas vitórias, mas nas derrotas voltam a ser os malandros que só querem festas e bebidas. São inúmeros os jogadores rotulados dessa forma.

Temos no Brasil um homem que venceu com a bola nos pés, usando o corpo que para muitos é algo inferior, mas você já parou para pensar na inteligência necessária para se desvencilhar de algozes que querem o ver no chão em fração de segundos?

Temos no Brasil alguém que alcançou o sucesso e a excelência, num país em que fazer sucesso é uma ofensa pessoal. Quando se tem a pele escura, torna-se um crime hediondo.

O futebol nos deixa sonhar enquanto homens negros, mas não nos torna cidadãos completos. No momento em que Pelé completa 80 anos, muitos o apontam como traidor do povo, como alguém que silenciou na luta antirracista.

O que precisamos de fato entender neste momento é que a figura de um homem negro jamais será livre de falhas, pois somos humanos, e jamais estará livre do racismo e das armadilhas da narrativa.

O homem negro vence, mas não comanda o que dele falam. O homem negro vence, mas em silêncio não nos conta suas dores. O homem negro vence, mas há muito tempo foi impedido de se expressar como deseja, e dessa forma obrigado a reprimir e conter seus sentimentos com medo de ser atacado e destruído.

Se nem mesmo Pelé consegue sobreviver nesse sistema cruel, ninguém nunca conseguirá.

O futebol pode dar aos homens negros dinheiro, fama e visibilidade, mas neste mundo racista jamais dará a humanização por completo.

Vamos sempre ser homens negros amados, aclamados, desejados, mas temidos e suspeitos por sermos homens negros.

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