Treinador alemão que 'previu' o futebol moderno foi desdenhado no passado

Livre no mercado, Ralf Rangnick é mentor de ideias que estão no Bayern e Liverpool

Rory Smith
The New York Times

Ralf Rangnick não parece uma boa escolha para o papel de herege. Seus óculos sem aro e paletó esporte cinza escuro lhe conferem a aparência de um diretor de escola, sério mas benevolente.

Diante de uma audiência de estúdio, ao vivo, ele parecia um tanto inseguro. A única coisa que parecia reconfortá-lo era o adereço de cena com o qual está mais acostumado a trabalhar: um quadro tático coberto de marcadores imantados.

A plataforma que Rangnick ocupava era a maior de que ele dispusera, até aquele momento –ele tinha 40 anos, hoje está com 62– em sua carreira. Rangnick era o treinador do modesto Ulm, da segunda divisão do futebol alemão.

O técnico alemão Ralf Rangnick em foto de arquivo de 2011, quando comandava o Schalke 04
O técnico alemão Ralf Rangnick em foto de arquivo de 2011, quando comandava o Schalke 04 (ALE) - Thomes/Bolen

O apresentador que o estava recebendo, o leonino Michael Steinbrecher, era uma figura muito mais conhecida no mundo do esporte alemão, e o programa, “Das Aktuelle Sportstudio”, era uma instituição nacional na Alemanha.

A entrevista de Rangnick durou apenas cinco minutos, mas as ideias que ele elucidou na conversa eram explosivas. De modo frio e cirúrgico, ele atacou muitos dos princípios que orientavam o futebol alemão daquele período. Suas críticas não foram exatamente bem recebidas. “A reação foi forte”, disse Rangnick.

Ele foi menosprezado por sua falta de experiência como jogador e descartado como um sujeito “bom em teoria”. A entrevista lhe valeu o apelido, muitas vezes pronunciado em tom irônico, de “o professor do futebol”.

Mas o tempo provou que ele tinha razão. A entrevista relatada aconteceu no começo de 1998. Em retrospecto, Rangnick não parece uma figura excêntrica, e sim um oráculo. A abordagem que ele delineou em seu quadro tático –marcação por zona, quatro jogadores na defesa, pressão constante e organizada contra o adversário– se tornou o marco do futebol na era das telas de toque.

Antevendo o futuro

Existe um motivo para que Rangnick seja possivelmente o candidato mais interessante no mercado de treinadores atualmente desempregados.

Há muitos profissionais mais jovens ou que conquistaram mais títulos, pessoas que poderiam exigir salários maiores ou que têm seus nomes ligados a alguns dos maiores clubes do mundo com uma regularidade que certamente ajuda a manter a autoconfiança. Mas há muito pouca gente que possa afirmar ter exercido maior impacto sobre o esporte do que o homem encarado por muitos como o alto sacerdote da marcação por pressão.

Os tentáculos da influência de Rangnick vão bem além dos clubes modestos –Hoffenheim, Red Bull Salzburg, RB Leipzig– que ele transformou em forças da Bundesliga ou da Champions League.

Seus protegidos –figuras como Marco Rose, Adi Hütter, Sebastian Hoeness e Julian Nagelsmann– incorporaram sua filosofia a diversos times da Bundesliga. O estilo dominante do futebol alemão no momento –exportado por nomes como Thomas Tuchel e Ralph Hassenhüttl– é o que Rangnick advogava duas décadas atrás.

A maior prova do triunfo de suas ideias, no entanto, está na natureza do Liverpool e do Bayern de Munique, os atuais campeões inglês, alemão e da Champions League.

Diversos jogadores de ambos os clubes foram treinados por Rangnick em algum momento de seu desenvolvimento. Danny Röhl, treinador assistente do Bayern, é discípulo de Rangnick. Jürgen Klopp, o treinador do Liverpool, adotou boa parte do pensamento dele nos estágios iniciais de sua carreira.

Rangnick considera Klopp como “o melhor treinador do mundo” e afirma que ele levou os princípios em que ambos acreditam a um novo patamar de excelência. Há como traçar uma linha direta das ideias expressadas por Rangnick 22 anos atrás ao jogo de pressão que se tornou não só a marca do estilo do Liverpool e do Bayern como a prática dominante do futebol, a ortodoxia atual.

O que Rangnick explicou naquele programa de entrevistas, diante de uma audiência de estúdio, provou ser o futuro do esporte. Nós só não sabíamos disso ainda.

A comunhão de ideias

Rangnick foi convidado a participar de “Das Aktuelle Sportstudio” mais uma dúzia de vezes depois de sua estreia. E cada participação representa uma vitória para o programa, agora.

Ainda que o relacionamento da Alemanha com o Hoffenheim e o RB Leipzig, os times com os quais Rangnick está mais intimamente associado, continue a ser intranquilo, ninguém mais o critica por ele não ter sido jogador de clubes importantes. “Se você estudar a Bundesliga, descobrirá que a vasta maioria dos treinadores não jogou futebol de alto nível”, ele disse.

A despeito de ter suas ideias comprovadas pelo tempo, Rangnick não tem grande interesse em enquadrar sua história como a realização de um destino antevisto. Da forma pela qual Rangnick a conta, sua ascensão está repleta de coincidências. Houve aquele dia em que, como jogador, ele foi considerado o melhor em campo em uma partida na qual tudo que fez foi marcar o melhor jogador do time adversário.

“Perguntei a mim mesmo”, diz Rangnick, “o que eu realmente tinha feito naquele dia, exceto estragar o jogo dele”.

Houve o momento em que o time amador que ele treinava foi chamado para disputar um amistoso contra o Dínamo de Kiev, de Valery Lobanovsky. “Eu achei que tinha cometido um erro, que tinha escalado um jogador a menos”, disse Rangnick. “Porque eles com certeza pareciam ter mais gente em campo.”

E houve a decisão da Alemanha, no final da década de 1990, de investir pesadamente no futebol juvenil do país, combinada ao fracasso da seleção na Eurocopa de 2000, que criou as condições para que o estilo de futebol de Rangnick –e para que treinadores cujos antecedentes não fossem tão ilustres– prosperassem.

A interpretação que ele propõe para sua história é importante quando chega a hora de considerar o futuro do esporte que ele ajudou a conceituar. É possível ler a história do futebol como uma batalha de ideias, na qual cada estratégia que ganha importância termina, mais cedo ou mais tarde, primeiro neutralizada e em seguida superada por uma ideia nova.

Ou seria também possível vê-la –como Rangnick faz– menos como uma história de conflito entre sistemas e mais como uma comunhão entre eles. Na opinião do alemão, ele simplesmente baseou seu trabalho nas ideias de Arrigo Sacchi –o grande treinador do Milan– e de Lobanovsky.

O que virá a seguir, para ele, não derrubará a ortodoxia que seu trabalho ajudou a estabelecer, mas a expandirá. Rangnick se interessa especialmente pela maneira com que os clubes usam jogadas ensaiadas. Um terço dos gols vem de escanteios, faltas e laterais, ele disse. E um terço do tempo de treinamento não é dedicado a isso. Ele não acredita que a era da marcação por pressão seja o fim da história. É só mais um recomeço.

A próxima fronteira

Rangnick acompanhou os triunfos do Liverpool e do Bayern nos dois últimos anos com um senso de satisfação. Não apenas pelo afeto por jogadores e membros das comissões técnicas dos dois times que têm como amigos, mas porque os dois clubes demonstraram até onde suas ideias poderiam ser levadas.

“Lionel Messi é o melhor jogador do mundo”, ele disse. “Mas nem mesmo ele é capaz de resistir à marcação por pressão. Veja o aconteceu contra o Liverpool e contra o Bayern. Se você joga em conjunto como time, nem ele tem solução para os problemas”. O coletivo, quando trabalha corretamente, se sobrepõe ao individual.

Descrever Rangnick –ou Klopp, ou Hansi Flick, do Bayern, aliás– apenas como proponentes da pressão, no entanto, é ignorar a verdadeira natureza da revolução. “Isso é parte muito importante do jogo, da maneira pela qual pessoas como eu e Jürgen o vemos”, disse Rangnick. “Mas apenas parte.”

Um amigo de Rangnick oferece uma analogia: a pressão é o fruto, o produto visível, mas o trabalho acontece nas raízes. Não só ao treinar os jogadores –ensinar os times a “encontrar as decisões certas em situações congestionadas e de pressão”–, mas em cada elemento do clube.

Rangnick transformou a maneira pela qual seus times jogam –seja como treinador, seja como diretor de futebol–, porque ele mudou a estrutura por trás deles. Ele deixou seu posto no Red Bull algumas semanas atrás, mas uma transferência ao Milan, alvo de muitos boatos, não se materializou.

Onde quer que ele vá parar a seguir –idealmente, ele disse, na Inglaterra ou Alemanha–, a expectativa de Rangnick será a de fazer o mesmo.

Tradução de Paulo Migliacci

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