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Copa Libertadores 2020

Abel Ferreira implanta estilo em 3 meses e ajusta rota do Palmeiras até final

Técnico português organiza time, recupera atletas e ensina 'mantra' das 24 horas

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São Paulo

“Não vim aqui para ter férias, vim aqui para trabalhar e ganhar com o clube. Vim para ajudar os jogadores a crescerem, é a minha missão”, disse o técnico Abel Ferreira no dia de sua apresentação no Palmeiras, em 4 de novembro do ano passado.

A fala do português de 42 anos, recém-saído do inexpressivo PAOK, da Grécia, mostrava a confiança em seu potencial perante a desconfiança daqueles que questionavam a chegada de alguém de pouco currículo, sem nenhum título na ainda breve carreira, para comandar o maior campeão nacional do país.

Quase três meses depois de sua apresentação, o treinador mostra que a convicção na força de seu trabalho estava certa. Além de deixar o clube em boa situação no Brasileiro (5º) e o classificar para a final da Copa do Brasil contra o Grêmio, ele disputa neste sábado (30), diante do Santos, o jogo mais importante do Palmeiras no século 21.

A gestão do português mudou a Academia de Futebol, com treinos inclusive nos dias de jogos, recuperou jogadores que estavam em baixa, como Rony e Scarpa –este último às vezes esquecido no banco–, e implantou uma mentalidade competitiva, algo que faltava à equipe.

Em 25 partidas foram 14 vitórias, 6 empates e 5 derrotas, um aproveitamento de 64% dos pontos disputados —desempenho que era melhor antes das três últimas partidas pelo Campeonato Brasileiro, quando perdeu para Flamengo (com seu time titular) e Ceará e empatou com o Vasco (estes dois últimos com reservas), em meio a uma massacrante sequência de cinco jogos em apenas 12 dias.

A comparação com os números do antecessor Vanderlei Luxemburgo (60% de rendimento) não permite uma real percepção sobre a equipe atual. O comandante português também não encontrou terra arrasada ao substituir o brasileiro, mas suas metodologias mudaram o patamar do time palmeirense.

Campeão paulista sobre o arquirrival Corinthians, Luxemburgo tem o mérito de iniciar no clube um maior uso de jogadores das categorias de base. Além disso, classificou a equipe com a melhor campanha na fase de grupos da Copa Libertadores.

Sua demissão se deu pelo fato de o time não conseguir mostrar repertório de jogadas, ser previsível, não criar ou desperdiçar muitas chances para marcar —a média era de 1,4 gol por confronto– e, principalmente, pela falta de competitividade.

Com Abel Ferreira, a posse de bola sem efetividade (o toque de lado) deu lugar ao jogo mais vertical, com passes que quebram linhas defensivas dos adversários. O Palmeiras passou a agredir mais os rivais, a pressioná-los para retomar a bola –em diferentes faixas do campo– e colocar seus atacantes em melhores condições para marcar.

Para isso dar certo, apostou em dois jovens meio-campistas com características de boa marcação e passe: Danilo e Gabriel Menino, 20 —este último com multifunções dentro de uma mesma partida, muitas vezes jogando de uma área a outra, quase sempre pelo lado direito.

Abel gosta de fazer a saída de bola a partir de sua defesa com três jogadores, empurrando os laterais para depois do meio de campo, bem abertos, para aumentar as opções de passe e também espaçar a marcação do rival.

Outra forte característica do atual Palmeiras é o contra-ataque. O time se tornou cirúrgico nesse quesito, o que contribuiu para elevar a média de gols de 1,4 por partida, com Luxemburgo, para 1,8 com Abel Ferreira.

Um lance da vitória por 3 a 0 sobre o River Plate, no primeiro jogo da semifinal da Libertadores, ilustra bem isso.

Logo no início do segundo tempo, quando a formação alviverde já vencia por 1 a 0 e os argentinos pressionavam no ataque, o zagueiro Alan Empereur bloqueou uma ação ofensiva, a bola sobrou para Gustavo Gómez e, com uma sequência de três passes de primeira, chegou para Luiz Adriano virar sobre o defensor no meio do campo, arrancar em direção à meta argentina e marcar o gol.

O bom desempenho do ataque palmeirense ocorre muito em razão de outro mérito do técnico, o de recuperar a confiança de Rony.

O jogador chegou ao clube vindo do Athletico, no início de 2020, como o maior investimento para a temporada —cerca de R$ 28 milhões por 50% de seus direitos econômicos—, no entanto, suas apresentações com Luxemburgo foram decepcionantes.

Abel Ferreira estreou na Libertadores apenas nas oitavas de final, contra o Delfín (EQU), mas conseguiu transformar o atacante em peça-chave do time na campanha da competição sul-americana.

Rony, que chegou a jogar como 9 com Abel, totaliza 12 participações em gols no torneio, com 5 bolas na rede e 7 assistências —mais de 1/3 dos 32 marcados pelo time. Em 2019, Bruno Henrique, do Flamengo, eleito o melhor jogador da competição sul-americana, marcou 5 e deu 6 passes decisivos.

Não por acaso, o atleta palmeirense foi escolhido como o melhor em campo pela Conmebol em 4 das 12 partidas da campanha palmeirense –a vitória sobre o River, na Argentina, foi uma dessas ocasiões.

Ele, ao lado do goleiro Weverton e dos rivais da final deste sábado, Marinho e Soteldo, concorre ao prêmio de principal atleta da edição 2020 da Libertadores.

Ainda na parte psicológica, Abel Ferreira implantou no clube a sua regra das 24 horas. Nela, o grupo tem esse período de tempo para comemorar uma vitória ou lamentar uma derrota. Depois disso, o treinador cobra foco no desafio seguinte.

A ideia ficou tão incrustada na cabeça das peças do elenco que não é raro ouvir os jogadores repetirem ela como um mantra em entrevistas pós-jogo. E foi com isso em mente que o time se recuperou da dura derrota para o River, por 2 a 0, no jogo de volta da semi da Libertadores, e fez grandes partidas contra Grêmio (1 a 1) e Corinthians (4 a 0), poucos dias depois, pelo Brasileiro.

“Cada jogo tem sua história e os jogadores sabiam que precisavam passar adiante, limpar as cabeças, aprender com o que se passou”, disse o técnico após a sequência acima.

Diante do Santos, neste sábado, Abel Ferreira vive o maior desafio de sua carreira. Ele tem a chance de se tornar campeão pela primeira vez e, em pouco tempo, ter seu nome lembrado para sempre entre os palmeirenses.

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