Descrição de chapéu The New York Times

Cantor pop Cody Simpson quer ser nadador olímpico com apoio de Phelps

Australiano volta a se dedicar ao esporte com afinco e traça metas ambiciosas

Karen Crouse
The New York Times

O príncipe do pop australiano estava escondido em um hotel, na metade de 2019, se preparando para a temporada de estreia de “The Masked Singer” em seu país, quando começou a acompanhar o campeonato mundial de natação. Ao assistir a quebras e mais quebras de recordes, Cody Simpson se apanhou pensando, repetidamente:

Por que eu não estou lá?

Muito antes de se tornar sensação como cantor, com um falsete semelhante ao de Barry Gibbs e um número imenso de seguidores na mídia social, muito antes de se tornar um galã e responsável por um hit que ficou entre os 10 mais vendidos, de se tornar a inspiração para um boneco fashion e de ser convidado para o papel principal de um espetáculo na Broadway, Simpson, 24, foi nadador, e nadador recordista, em sua sua escola em Queensland.

O cantor australiano de música pop Cody Simpson treina natação na Escola Preparatória Trinity
O cantor australiano de música pop Cody Simpson treina natação na Escola Preparatória Trinity - Eve Edelheit/The New York Time

Fascinado pelas provas de natação, ele decidiu que não era tarde demais para retomar seu sonho olímpico, ao perceber ele era cinco meses mais novo que o astro da natação americana Caeleb Dressel, que tinha acabado de bater um recorde mundial que antes pertencia ao ídolo de Simpson na infância, Michael Phelps.

“Parei de beber naquela noite, e comecei a procurar piscinas no dia seguinte”, disse Simpson.

Três meses mais tarde, ele seria revelado como o robô que venceu “The Masked Singer”. E mais um ano se passaria antes que ele anunciasse, de surpresa, seu retorno à natação.

No mês passado, mais de uma década depois de sua prova oficial precedente, Simpson superou a marca classificatória para a seletiva olímpica australiana, nos 100 metros borboleta. Ele superou a marca em uma prova organizada em San Diego por David Marsh, treinador a quem Simpson recorre ocasionalmente. Era sua segunda competição, depois de menos de seis meses de treinamento organizado, e sua segunda prova do dia. Ele tinha concluído os 200 metros nado livre menos de uma hora antes.

Mais rápido do que qualquer pessoa teria antecipado, Simpson havia demonstrado que seu retorno à natação não era só um banho rápido de piscina.

Cody Simpson durante treinamento na piscina
Cody Simpson durante treinamento na piscina - Eve Edelheit/The New York Time

Simpson, cuja carreira já incluiu passagens como cantor, guitarrista, compositor, dançarino, ator, escritor e modelo, agora planeja acrescentar a Olimpíada de 2024 ao seu currículo.

“Minha vida toda vem sendo superar metas, aplicar meu corpo, alma e coração a tudo que faço”, disse Simpson, em uma entrevista em vídeo de sua casa em Los Angeles.

Ele tinha seis ou sete anos, disse sua mãe, Angie, quando anunciou solenemente à avó que “vou ser famoso em alguma coisa um dia. Só não sei em que, ainda”.

A natação era uma aposta segura, porque seus pais se conheceram como atletas de elite da modalidade. Angie Simpson chegou a um dos 10 primeiros postos do ranking dos 200 metros nado de peito antes que uma tendinite em ambos os ombros pusesse fim à sua esperança de representar a Austrália na Olimpíada de 1988. Brad, o pai de Cody, foi membro da equipe nacional australiana de natação.

Cody Simpson estava começando a ganhar fama própria no esporte quando vídeos que ele subiu para o YouTube e Myspace, mostrando seu talento como guitarrista e cantor, resultaram em uma viagem aos Estados Unidos no começo de 2010. Antes de seu 13º aniversário, ele já estava em Nova York, para uma reunião com executivos da Atlantic Records.

A caminho da reunião, conta Simpson, ele e o pai pararam em Baltimore para um encontro com um produtor musical. E naquela passagem pela cidade, ele organizou uma sessão de treino na piscina em que Phelps havia voltado a treinar depois de seu desempenho recorde, com oito medalhas de ouro, na Olimpíada de 2008.

“Lembro-me de comprar 20 bonés com o nome de Baltimore e de fazer Phelps autografar todos eles, para eu ter presentes para dar aos amigos quando voltasse para casa”, disse Simpson. Conversar com Phelps naquele dia, contou Simpson à sua mãe, o deixou mais nervoso do que seu primeiro encontro com Bono, do U2, anos mais tarde.

Phelps acompanhou de longe a carreira musical de Simpson, e seu treinador, Bob Bowman, fez o mesmo, e se lembra de ter entrado em uma loja da cadeia de varejo Whole Foods certo dia e visto um display com CDs de Simpson perto do caixa.

“Lembro-me de pensar comigo mesmo que o garoto tinha mesmo se dado bem”, disse Bowman.

Mas o estilo de vida de um músico não é harmonioso com a natação competitiva. No entanto, Simpson jamais abandonou de todo o interesse pelo esporte, na adolescência, que passou em um torvelinho de viagens promocionais e turnês, e incluiu um disco que ficou entre os 10 mais vendidos de 2013 e uma participação em “Dancing With the Stars” em 2014.

A saída de Simpson da Atlantic Records, em 2018, o recolocou no controle de seu percurso. Ele criou uma gravadora, a Coast House Records, e aceitou um papel em “Anastasia the Musical”, na Broadway, por seis meses. Depois de publicar um livro de poesias, ele viu um retorno à natação como próximo passo lógico, como uma oportunidade de devolver o foco ao sonho olímpico do qual tinha aberto mão tantos anos atrás.

“Amo muito a indústria da música, e vou continuar a ser músico pelo resto da vida”, disse Simpson, “mas não é uma busca tão pura quando o esporte, onde tudo depende do relógio”.

Desde junho, Simpson vem treinando sob a orientação de Brett Hawke, que participou de duas equipes olímpicas de natação australianas. “Eu não sei se ele estava realmente ciente da complicação em que estava se metendo”, disse Hawke. “Ser nadador aos 12 anos é completamente diferente de tentar competir com os melhores do mundo aos 23. Mas não estou aqui para destruir sonhos”.

No primeiro treino que fizeram juntos, Hawke submeteu Simpson a uma puxada sessão de exercícios de 90 minutos e depois o surpreendeu com uma prova simulada e cronometrada de 200 metros nado borboleta. Quando Simpson suportou o teste, mesmo que estivesse fatigado, ele passou no crivo de Hawke. Desde então, vem treinando em piscinas do sul da Califórnia e da Flórida, sem raias ou partidores, saltando de condado a condado ou de estado a estado em busca de instalações atléticas que não tenham sido fechadas por conta do coronavírus.

“Já vomitei em diversas piscinas, a esta altura”, disse Simpson, rindo.

Um dia, de acordo com sua mãe, ele sonha com uma façanha dupla que nem mesmo o versátil Phelps tentou: cantar o hino nacional no início de uma competição e depois participar das provas. Mas esse dia ainda está distante. Em outubro, Simpson participou de sua primeira prova, de 200 metros estilo livre. “Fiquei com urticárias, de nervoso”, ele disse.

Simpson recorda que sentiu a mesma coisa em sua estreia na Broadway, em 2018.

“E me lembrei também de que, na noite de encerramento, depois de ter feito o espetáculo mais de 130 vezes, eu estava absolutamente tranquilo, nenhum nervosismo”, ele disse. “Calculo que eu vá precisar da mesma coisa na natação –130, 140 provas antes de eu conseguir partir sem medo e nadar”.

Simpson foi encorajado por Phelps, a quem manda vídeos de suas provas. Phelps responde com dicas sobre técnica e estratégia de prova.

“Acho que a mente dele é bem a de um nerd da natação”, disse Phelps.

Quando ele registrou tempo de 54s91 e conseguiu vaga na seletiva olímpica, Simpson disse ter sentido satisfação igual à da vitória em “The Masked Singer”. Ele não teve sucesso por sua aparência, reputação ou contatos, mas pela força de seu talento.

Simpson sabe que tem muito terreno a recuperar. O recorde australiano nos 100 metros borboleta é de 50s85. O recorde mundial de Dressel é de 49s50.

“Sou ambicioso mas não sou louco”, disse Simpson. “Sei contra o que estou competindo.

Tradução de Paulo Migliacci

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