Descrição de chapéu Tóquio 2020

Vacinação para Jogos de Tóquio gera alívio e desconforto entre atletas

Governo confirmou nesta terça que eles serão imunizados contra Covid nas próximas semanas

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São Paulo

A confirmação de que a delegação brasileira que vai aos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de Tóquio será vacinada contra a Covid-19 trouxe alívio, incertezas e também algum desconforto entre os atletas.

Nem todos os procurados pela Folha quiseram se manifestar, alguns preocupados com uma possível reação negativa da população ao anúncio feito pelo governo federal nesta terça-feira (11).

“Não me surpreende, porque o sistema é assim, a Olimpíada tem de acontecer. Minha mãe não se vacinou. Os motoristas, as pessoas da limpeza precisam mais do que a gente. Claro que vou ficar chateada se adiarem [novamente os Jogos], mas para mim é difícil separar o atleta da pessoa”, disse Aline Silva, 34, do wrestling. "Entendo que são doses doadas, mas mesmo assim não me sinto confortável."

A maior parte da carga de imunizantes doados pelas empresas Pfizer e Sinovac, e que será repassada ao país pelo COI (Comitê Olímpico Internacional), terá como destino o Plano Nacional de Imunização.

A lista de nomes da delegação brasileira, que reúne atletas, comissões técnicas, jornalistas e demais profissionais credenciados para os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos, tem 1.814 pessoas. O Ministério da Saúde receberá cerca de 4.050 doses da Pfizer e 8.000 da Sinovac.

Em fevereiro, o jogador de vôlei de praia Bruno Schmidt, 34, passou 13 dias em uma UTI se recuperando do comprometimento dos pulmões provocado pela Covid. "É um sentimento estranho porque quase morri, vi a gravidade desse vírus e tinha que já estar treinando, dando meu jeito. Então essa vacinação vem para dar segurança", afirma.

Por outro lado, ele também pensa nos seus pais e em outras pessoas mais velhas que ainda não foram vacinadas. "Apesar de ser uma doença extremamente imprevisível, exemplos estão por aí e fui um deles, tem sim um sentimento de culpa. Constrangimento de me ver vacinado e os meus pais ainda na fila para isso. Não gosto de viver esse tipo de situação de privilégio em detrimento dos demais que precisam."

“Eu sempre fui a favor de respeitar a fila, por isso acho que tem muita gente que precisa ser vacinada no Brasil como prioridade. Idosos, pessoas com alguma comorbidade ou gente que trabalha em serviços essenciais. Mas a vacinação que foi oferecida para gente não foi tirada do SUS, então não estamos furando fila”, afirmou o canoísta Isaquias Queiroz, 27.

“Essas vacinas foram doadas pelo COI, e o que acontece com a gente é o que está acontecendo com os demais atletas de outros países que irão para Tóquio", completou.

Também canoísta, mas da modalidade slalom, Pepê Gonçalves, 28, demonstrou alegria com a notícia. “Fiquei feliz, não tem como não ficar. Principalmente porque os brasileiros serão beneficiados também, pelo que soube, já que a cada dose destinada a um atleta, duas outras serão doadas para o SUS vacinar a população”.

A jogadora de vôlei Carol Gattaz, 39, classificou como ótima notícia: "Para podermos representar o país seguros e com saúde, sem a preocupação de nos infectarmos de uma forma mais grave".

O anúncio também gerou dúvidas, principalmente pelo fato de o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, ter dito que a campanha começaria nesta quarta-feira (12). Na sequência, o COB (Comitê Olímpico do Brasil) informou que a data de início será na sexta-feira (14).

A vacinação será realizada em Fortaleza, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Brasília, em datas e locais específicos, alguns deles cedidos pelas Forças Armadas. Em São Paulo, por exemplo, deverá ser dentro do Centro de Treinamento Paraolímpico.

Petrucio Ferreira, 24, que mora e treina em João Pessoa, consultou o Comitê Paralímpico Brasileiro e soube que deverá se deslocar até São Paulo. Mas ainda aguarda uma definição da logística.

“A vacinação traz certa confiança, um alívio na pressão psicológica, porque ajudará a evitar que o vírus seja tão prejudicial. Já teve relatos de pessoas com sintomas leves, mas que mesmo depois de recuperadas sentiram alguns incômodos musculares”, diz.

Há mais de um ano, no começo da pandemia, ele se refugiou em São José do Brejo do Cruz, no sertão paraibano, para poder treinar enquanto o seu clube estava fechado. O alívio, porém, também carrega uma pitada de incômodo.

“Fico um pouco constrangido em meio a tudo isso. Em parte é legal os atletas serem vacinados. Por outro lado eu fico assim porque sei que tem muitos pais de família, na luta diária para colocar o pão em casa e se expondo, correndo risco e que poderiam estar ser vacinando também."

Ainda não está claro como deverão proceder os atletas que residem no exterior ou cumprem uma rotina de treinos em outros países enquanto as doses serão aplicadas no Brasil.

Pepê, por exemplo, está em Praga. As velejadoras Martine Grael e Kahena Kunze, ambas de 30 anos, deverão peregrinar pela Europa até o final de junho. O COB pretende concluir a aplicação das duas doses até o dia 21 do próximo mês.

"Ainda estamos sem informações de como vai ser o plano de vacinação dos atletas [no exterior]", disse Martine. "Eu acho que serei uma privilegiada, de ter saúde e ainda conseguir a vacina, ainda que muitos precisem antes de mim.”

Segundo o comitê, cerca de 190 credenciados já foram imunizados e outros 200 estão no exterior. Estes últimos, por enquanto, fora da lista de vacinação entregue ao governo.

Delegação brasileira durante Jogos Pan-Americanos disputados em Lima, no Peru - Ivan Alvarado/Reuters

O ritmo da campanha de vacinação dos EUA fez com que atletas brasileiros que vivem no país, ou mesmo que passaram por ele para período de treinos e competições nas últimas semanas, conseguissem se vacinar.

É o caso de Alison dos Santos, 20, revelação brasileira na prova dos 400 m com barreiras. O atleta de São Joaquim da Barra (SP) está em Chula Vista (Califórnia) e já recebeu a primeira dose. A segunda foi agendada para o dia 18 de maio.

Ele tinha uma importante competição preparatória para os Jogos no dia 19, mas decidiu abrir mão de participar dela para completar a imunização no período correto.

“Na época [da primeira dose] nem tinha a conversa sobre atletas serem vacinados [no Brasil]. É uma questão de saúde necessária. Estamos passando por um momento delicado, então a gente vai querer tudo o que puder fazer para minimizar os riscos que pode correr numa viagem”, afirmou, sem deixar de lado a preocupação com a situação do Brasil.

“Fico preocupado porque muitas pessoas ainda não têm acesso. Minha família, que é do interior e não tem ninguém do entre aspas grupo de risco, não está vacinada. As coisas não estão acontecendo como deveriam. Da minha família se não me engano fui o primeiro a receber.”

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