Westbrook desafia detratores, teima em estilo e busca recorde na NBA

Armador pode se igualar neste sábado ao líder histórico de triplos-duplos da liga

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São Paulo

​Russell Westbrook costuma dizer que só tem um amigo na quadra de basquete: a bola. A paixão por ela o faz amealhar fãs, noite após noite de números espetaculares, mas o estilo de jogo faz também se enfileirarem os críticos. Gostem ou não dele, os espectadores da NBA estão prestes a vê-lo alcançar uma marca histórica.

Com mais um triplo-duplo na vitória de seu Washington Wizards sobre o Toronto Raptors na última quinta-feira (6), o armador de 32 anos chegou a 180 na liga norte-americana. Neste sábado (8), portanto, contra o Indiana Pacers, poderá atingir 181 e se igualar a Oscar Robertson como o líder no quesito em toda a história do campeonato.

Westbrook acumula números espetaculares na NBA - Geoff Burke - 3.mai.21/USA Today Sports

Um triplo-duplo é registrado quando o jogador alcança dígitos duplos em três das principais categorias estatísticas, geralmente pontos, rebotes e assistências. E ninguém consegue acumular esses números como Westbrook, que na atual temporada tem um triplo-duplo de média: 21,8 pontos, 11,4 rebotes e 11,4 assistências por jogo.

Embora sensacional, não é inédito. O atleta já havia conseguido isso em três dos últimos quatro campeonatos, uma constância que parece banalizar o feito, como se fosse fácil obtê-lo. Não é. Russell é o único a consegui-lo –agora quatro vezes– desde Robertson na distante temporada 1961/62.

“Ele não é normal. Armadores não fazem o que ele faz”, resumiu seu técnico, Scott Brooks. “Talvez haja alguém que seja um melhor arremessador. Deve haver alguém que faça algumas coisas de maneira melhor. Mas não há na história do jogo ninguém capaz de fazer o que ele faz ao longo de toda a tabela de estatísticas.”

Scott Brooks já havia comandado Russell Westbrook nos tempos de Oklahoma City Thunder e brigou por sua contratação no Washington Wizards - Patrick Smith - 4.mar.21/AFP

Até aí, as afirmações nada tiveram de polêmico. O treinador, porém, foi além e apontou o atual camisa 4 dos Wizards como o segundo melhor armador da história, atrás apenas de Magic Johnson. Nesse ponto, encontrou poucos que concordassem, já que Westbrook não costuma ser colocado na primeira prateleira dos craques do basquete.

Uma das razões é a falta de títulos. Ainda que tenha atuado em boa parte de sua carreira ao lado de grandes jogadores, como Kevin Durant e James Harden, Russ jamais levantou o troféu da NBA. Essa foi justamente a crítica, repetida ao longo do atual campeonato, que irritou o atleta e até sua mulher, Nina, que fez uma série de publicações defendendo o marido.

“Eu me tornei um campeão quando entrei na NBA. Cresci nas ruas. Sou um campeão. Não preciso ser um campeão da NBA. Não sei quantas pessoas foram campeãs da NBA e são infelizes, não fizeram nada por sua comunidade, nada pelas pessoas no nosso mundo. Para mim, meu legado não é baseado no que eu faço na quadra”, respondeu o californiano.

Ele é mesmo elogiado pelo trabalho social que executa e por seu papel como ativista. Isso não o isenta das avaliações negativas de seu jogo, uma vez que as estatísticas impressionantes não renderam glórias coletivas –embora tenham lhe valido o prêmio de melhor jogador da liga em 2016/17, quando estava no Oklahoma City Thunder.

Neste ano, a equipe de Westbrook acumula até o momento 31 vitórias e 36 derrotas. O Washington luta para proteger a modesta décima colocação da Conferência Leste, uma posição que vale vaga no mata-mata preliminar da fase decisiva, mas não é exatamente um argumento forte contra os que apontam as “estatísticas vazias” do armador.

Westbrook já teve companheiros de alto nível, como Kevin Durant, mas, em sua 13ª temporada na NBA, ainda busca seu primeiro título - Mark D. Smith - 18.nov.13/USA Today Sports

Russell, via de regra, dá de ombros aos que o censuram. Notório pela hostilidade no tratamento com a imprensa, mantém-se fiel a seu estilo e costuma arrancar ao menos um elogio mesmo daqueles que não o admiram: em uma era na qual os craques estão constantemente se poupando, ele dá tudo de si em quadra, todas as noites.

O esforço diário, porém, não é o único bem inegociável. Inflexível na louvável disposição para tratar cada jogada como se fosse a última, Westbrook também se mostra pouco maleável em quase todo o resto. Isso tem consequências anedóticas, como o fato de ele só usar a mesma vaga de estacionamento todos os dias, e táticas, já que seu jogo não acompanhou as mudanças da NBA.

O armador dos Wizards não é um bom arremessador de três pontos, que se tornou uma parte fundamental do basquete na última década. Mesmo assim, insiste nos tiros de longe e tem também um volume alto de bolas de meia distância, apontadas pelos estudos estatísticos como as menos eficazes do esporte.

Com 44,1% de aproveitamento nos arremessos de quadra, 30,8% nos lançamentos de três pontos e 63,9% nos lances livres na atual temporada, Russ está longe de ser um pontuador eficiente. Ele, assim, produz triplos-duplos como o registrado na última partida: 13 pontos, 16 rebotes e 17 assistências, com 5 arremessos certos em 19 tentados.

Mas o Washington venceu, como ocorre com os times de Westbrook em 75% dos jogos nos quais ele chega ao triplo-duplo. Foi o 34º triplo-duplo do campeonato para o californiano, que reage com desdém aos que se recusam a reconhecer a grandeza de suas marcas: “Eu honestamente acredito que não exista um jogador como eu. Se as pessoas não querem dar valor, sinto muito”.

Os triplos-duplos têm sido bem mais comuns na NBA do que eram. Em 2011/12, por exemplo, foram registrados 18. A temporada atual é a quinta consecutiva na qual houve ao menos cem. Os ataques mais rápidos vêm produzindo mais posses de bola ao longo dos 48 minutos, mais pontos e mais estatísticas distribuídas entre os atletas.

Ainda assim, ninguém chega perto de Russell. O segundo colocado na lista dos que mais obtiveram triplos-duplos na temporada tem 15, menos da metade do que conseguiu o líder no quesito. Trata-se do pivô Nikola Jokic, do Denver Nuggets, favorito na corrida para a eleição de jogador mais valioso.

“Tenho certeza de que, se todos pudessem fazer, todos fariam”, sorriu Westbrook. “Eu realmente não me importo, sinceramente, com o que as pessoas pensam. Eu só me certifico de que estou impactando o jogo de diferentes maneiras toda noite: defendendo, pegando rebotes, passando, o que é necessário para meu time ganhar. É o que eu faço.”

No tridente estatístico empunhado pelo jogador, a ponta dos rebotes é provavelmente a mais impressionante. Os pontos não são anotados de maneira particularmente eficiente. No ritmo frenético de Russ, as assistências são alternadas a 4,9 desperdícios de bola por jogo. Mas os rebotes chamam a atenção pela posição e pela altura do camisa 4, um armador de 1,91 m.

Impressiona a capacidade demonstrada por Russell Westbrook, um armador de 1,91 m, de pegar rebotes no meio de jogadores bem mais altos - Patrick Smith - 30.mar.21/AFP

Nunca mais ninguém com essa altura ou mais baixo alcançou média de dez rebotes por jogo em uma temporada da NBA. Excepcional do ponto de vista atlético, Westbrook dá poucas mostras de desaceleração aos 32 anos. Também não dá ouvido às críticas e está a um passo de estabelecer uma marca histórica.

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